Tradução como ferramenta de ensino

Sejam bem-vindos de volta, queridos leitores!

Hoje temos mais uma tradução parte da parceria do blog com a UTFPR. Esta é a segunda tradução da aluna deste mês, a Débora França de Oliveira. E a tradução de hoje é da publicação da convidada Tammy Bjelland, Translation as a teaching tool.

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Fonte da imagem: Unsplash

A tradução é um assunto que pode ser controverso quando se trata do ensino de línguas, mas como professora de idiomas, alguns dos melhores e inesquecíveis momentos pedagógicos vieram com o uso da tradução no ensino.

O uso da tradução em sala de aula com turmas de nível básico a intermediário é contraprodutivo, pois faz com que os alunos acreditem que toda língua tem uma palavra ou ideia equivalente em sua língua de destino, o que todo tradutor (e professor de idiomas!) sabe que está longe de ser verdade. Porém, pode ser difícil evitar completamente a tradução com alunos de níveis iniciais, especialmente quando se trata de adultos, visto que já são capazes de se expressar empregando um vocabulário mais sofisticado. Demonstrar os problemas que uma tradução mais “literal” pode causar pode ser uma boa ferramenta de ensino em níveis básicos e intermediários, para indicar não apenas a complexidade das L1 e L2, mas também a importância de entender o contexto e a cultura, juntamente à gramática e ao léxico das duas línguas.

Os benefícios pedagógicos da tradução são ainda mais significativos em níveis avançados, como ferramenta para explorar as complexibilidades da língua e da cultura de textos que variam em tipo, perspectiva e propósito. Muitas das minhas memórias como professora universitária vêm do ensino da tradução em turmas nos EUA e na Espanha. Após alcançar certo nível de proficiência dos alunos, aulas dedicadas à tradução podem mostrar não só o processo de tradução em si, mas também orienta os alunos a se aprofundar mais no significado das palavras e ideias, além da diversidade de interpretação em vários níveis e estágios de compreensão e tradução.

Um tipo de texto que funcionou muito bem para demonstrar a diversidade de interpretação foram pequenos textos literários. Poemas e contos foram ideais, principalmente quando tínhamos acesso a uma série de traduções diferentes para o mesmo texto. Ao estudar várias traduções profissionais de um mesmo texto, os alunos podem apontar quais ideias foram interpretadas de maneiras diferentes e trabalhar de trás para frente para encontrar uma melhor forma de entendimento do contexto e do significado do texto em si. Esse exercício em si já confirma que a simples pergunta “O que esta palavra significa na língua _____?” pode ser bastante problemática e não deve ser o foco de nenhuma aula de língua. Pensar na comparação direta entre duas línguas nos leva a uma simplificação excessiva e a pular lacunas de significado, dois erros comuns que podem ser suavizados utilizando cuidadosamente a tradução como abordagem pedagógica.

Além do valioso aprendizado sobre a diversidade de interpretações e complexidade das línguas, a tradução como ferramenta pedagógica confere aos alunos as habilidades necessárias para traduzir efetivamente. Quando atividades como a que citei são utilizadas em sala de aula, normalmente, é a primeira vez que os alunos veem e analisam, lado a lado, textos traduzidos profissionalmente comparados com o texto fonte. Essa é uma oportunidade única para o professor apresentar o profissional por trás da tradução e discutir os requisitos e desafios que fazem parte da área da tradução.

Portanto, enquanto alguns professores de língua ainda temem o uso da tradução em suas aulas, na minha experiência, há vários benefícios ao incorporar a tradução em turmas de adultos de nível avançado. Uma atividade bem planejada utilizando a tradução pode aprofundar a compreensão das línguas, promovendo a valorização de opiniões e interpretações diferentes, além de educar os alunos sobre a profissão de tradutor.

Sobre a tradutora
Foto_DeboraDébora França de Oliveira
é estudante de Letras – Português e Inglês na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Apaixonada pela língua inglesa. Tem grande interesse na área da tradução.

Traduzir jogos? Muito Fácil!

Sejam bem-vindos de volta, queridos leitores!

Hoje temos mais uma tradução parte da parceria do blog com a UTFPR. Esta é a primeira tradução da aluna deste mês, a Débora França de Oliveira. E a tradução de hoje é da publicação da convidada Paula Ianelli, Translating Games? That must be piece of cake!

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Ei, ei! Calma aí!

A localização de jogos parece bastante atraente se você gosta de jogar, mas tem tantos desafios quanto traduzir um texto para qualquer outra área – afinal, é tradução! Isso fica claro nas equipes que localizam jogos para diferentes línguas: a esmagadora maioria é de linguistas altamente qualificados, profissionais experientes que trabalham em tempo integral com tradução e/ou têm formação acadêmica na área.

“Mas o que pode ser tão desafiador nisso?” Pra começo de conversa, todo processo de localização de jogos abrange várias etapas que podem ou não envolver diretamente a equipe de localizadores, mas que, com certeza, impactam nosso desempenho. Ao contrário do que se pensa, um jogo é localizado enquanto é produzido e não após seu término, ou seja, tudo é interligado. Além disso, não é um trabalho que envolve somente o localizador e o cliente final. É algo que envolve centenas de pessoas, desde o criador do jogo até roteiristas, produtores, designers, engenheiros, produtores de trilha sonora, equipes de marketing, atores, gerentes de projeto, tradutores, revisores, testadores e o último integrante da equipe de impressão que produz a capa do jogo uma semana antes de ele ser lançado. Isso tudo pode parecer um tanto exagerado, mas essa rede complexa exerce um impacto direto em como nós trabalhamos e no que o público-alvo verá ao final desse trabalho.

As etapas da localização de um jogo rendem um tópico à parte. Aqui vamos falar dos desafios mais comuns enfrentados por localizadores de jogos. O primeiro deles é o favorito do tradutor:

 Contexto (ou deveríamos dizer a falta dele?)

O contexto pode ser algo bem complicado na localização de um jogo. Ao contrário do que se pensa, os tradutores não traduzem o jogo enquanto jogam. Geralmente, não há contextualização visual durante o processo de tradução. Isso significa que trabalhamos com textos, assim como a maioria dos tradutores, mas a dificuldade vem agora: às vezes, nossos textos não são nada lineares.

Isso pode acontecer por uma série de fatores. Por questões confidenciais, alguns clientes misturam frases de diferentes lotes ou textos para evitar o vazamento de alguma cena. Pode haver, também, atualizações com palavras aleatórias que o tradutor deve adivinhar – ou se perguntar – qual é o contexto. Outra prática frequente é a de lotes não lineares: pode ser que façamos a tradução do último estágio do jogo logo no início do projeto, quando ainda não sabemos exatamente do que se trata.

Em The Last of Us, por exemplo, Joel e Ellie estão conversando com Tess. Ela sai da cena e o diálogo que segue é:

Ellie: “When is she coming back?”
Joel: “Later.”

Bem direto, certo? A tradução, no entanto, é um tanto enigmática:

Ellie: “Quando ela vai voltar?”
Joel: “Até mais.”

Sabemos que isso é simplesmente uma questão de contexto. “Later” pode ser uma expressão de despedida, sendo assim traduzido como ”Até mais”. Assim, podemos supor educadamente que o tradutor recebeu essa linha sem contexto, não é? Isso nos leva a outra questão recorrente:

Os jogadores dependem da sua tradução

Partindo do princípio de que jogos não são baseados apenas em histórias, mas também em ações e instruções, a maneira como o jogo é traduzido afeta diretamente a performance do jogador. Digamos que um personagem precisa encontrar um item que garantirá a ele seguir na direção certa, e as instruções são:

“Find a compass and return to the island.”

Vocês sabem aonde isso vai chegar, certo? Se a tradução falar para encontrar um compasso, os jogadores irão em uma busca interminável a um objeto diferente. E eles ficariam muito bravos! Essa é uma das razões pela qual um localizador de jogos deve ser bem cuidadoso: além de criar um texto que corresponda ao original, tenha um bom ritmo, seja curto o suficiente para caber na tela, tenha gramática e ortografia perfeitas, seja atraente etc., nós ainda temos que fazer com que as instruções sejam claras e que a história seja corente ao longo do jogo.

E são muitos jogadores

Como plataformas móveis e mídias sociais crescem em países desenvolvidos e em desenvolvimento, o número de jogadores aumenta a cada dia – e o Brasil é um grande mercado.

Por um lado, a demanda por localizadores de jogos está em sua maior alta. Por outro, muitos jogadores cresceram acostumados a jogar sem legenda – e provavelmente já entendem inglês – e vigiam nossos passos de perto.

Não me interpretem mal, eles são boas pessoas. Mas nem sempre gostam de mudanças, sabe? E cresceram acostumados a escolher a opção multiplayer, não a versão multijogador.

Podemos discutir se devemos ou não traduzir esse tipo de termo em outro momento. A questão é que localizadores de jogos estão sempre convivendo com o desafio de encontrar traduções convincentes para cada terminologia específica mantida em inglês há mais de 20 anos. Requer tempo e esforço encontrar boas soluções e fazer com que as pessoas se acostumem a elas.

Certo. Isso é tudo?

Não necessariamente. Discutimos aqui apenas três dos principais desafios encontrados pelos tradutores de localização de jogos, mas existem outros desafios menores que merecem atenção:

  • Ao traduzir um jogo, normalmente trabalhamos em equipes de tradutores e revisores, o que dificulta a padronização de termos e estilos.
  • Precisamos ser bastante experientes com computadores para trabalhar com diferentes ferramentas CAT, tanto on-line quanto off-line. E, geralmente, ainda temos aquelas tags amadas, portanto, cuidado nunca é demais.
  • Os prazos normalmente são bem apertados, porque depois da tradução ainda há a revisão, garantia de qualidade, testes, lengendagem etc., e todos querem ter certeza de que o jogo já tenha legendas na data de lançamento.

Espera-se ainda que sejamos versáteis: eu posso traduzir um jogo repleto de gírias e palavrões na segunda-feira, na terça-feira, um enigma para crianças de 5-9 anos e uma história medieval épica na quarta-feira – fica evidente que esse é um dos maiores prazeres de se trabalhar nessa área!

Pra terminar, a localização de jogos é uma área maravilhosa se você é tradutor profissional e adora jogos e desafios. Mas, pense duas vezes antes de traduzir seus jogos favoritos: spoilers, spoilers em todo lugar!

Sobre a tradutora
Foto_DeboraDébora França de Oliveira é estudante de Letras – Português e Inglês na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Apaixonada pela língua inglesa. Tem grande interesse na área da tradução.

Guest post: Trabalho com agências

Sejam bem-vindos de volta à nossa série de convidados!

Hoje recebemos a Gisley Rabello Ferreira, fundadora da Wordlink Traduções e membro do Comitê de Administração do Programa de Mentoria da Abrates.

Bem-vinda, Gisley!

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Source: Unsplash

Nossos clientes: como anda o relacionamento entre LSPs e agências globais de tradução

Uma das principais dúvidas do tradutor profissional é: devo trabalhar para clientes diretos ou agências de tradução? Sem dúvida, trabalhar para clientes diretos é mais lucrativo, mas muitas vezes pode significar ter que realizar mais tarefas fora do escopo da tradução propriamente dita: orçamento, preparação de arquivos, DTP (diagramação e formatação), revisão final, entre outras. As agências pagam menos, mas, realiza todas as tarefas colaterais do projeto, e o tradutor pode se concentrar em seu maior talento: traduzir. Nas duas situações, há prós e contras, e cabe a cada profissional priorizar o tipo de cliente a que se adapta melhor. Assim, é preciso entender quem são nossos clientes, o papel deles na cadeia de fornecimento do mercado e onde nós, fornecedores linguísticos, nos colocamos nessa cadeia.

Trocando em miúdos, no mercado de tradução, há dois principais tipos de clientes: os clientes diretos e as agências de tradução. Os clientes diretos são pessoas físicas ou empresas que contratam profissionais independentes ou empresas e agências de tradução para projetos de tradução. As agências de tradução podem ser empresas globais, que atuam com inúmeros idiomas e têm escritórios em vários países, ou pequenas empresas de tradução, que trabalham com um número limitado de idiomas e prestam serviços tanto para clientes diretos quanto para agências globais. Mas, como assim? Agências que trabalham com agências? Complicado? Nem tanto. As agências pequenas, além de serem clientes dos tradutores independentes, são também fornecedores linguísticos para clientes diretos e agências globais, o que as coloca nas duas posições do mercado: contratante (agência) e contratado (LSP, language services provider).

As pequenas empresas/agências de tradução são estruturadas de modo a atender muito bem tanto a clientes diretos quanto a agências de tradução globais. Aos clientes diretos, elas dão todo o suporte necessário em projetos de tradução completos (desde o orçamento detalhado até o produto finalizado, seja ele um website, um vídeo legendado ou um simples documento), já que têm uma carteira de colaboradores diversificada, contando com colaboradores de tradução, revisão, editoração, legendagem, entre outros. Para agências de tradução globais, essas empresas fornecem o que chamamos de TEP (translation, editing, proofreading), que nada mais é do que a tradução revisada e verificada em seu formato final: três etapas do processo garantidas por um único fornecedor, além de uma infraestrutura de gerenciamento de projetos e qualidade personalizada.

Qual é a vantagem para as agências globais em se relacionarem com pequenas empresas fornecedoras de tradução? Apesar de as agências globais contarem com muitos profissionais independentes de tradução e revisão para seus fluxos de trabalho em projetos de tradução, contratando-os como tradutores, revisores, especialistas em controle de qualidade, líderes de projeto e muitas outras funções, elas contam também com as pequenas agências de traduções baseadas nos países onde se fala a língua-alvo contratada. O papel dessas pequenas empresas como LSPs é, além de fornecer TEP, dar apoio de infraestrutura e fluxo de trabalho, principalmente em projetos de contas grandiosas, para os quais é difícil conseguir tantos recursos com o perfil específico da conta e gerenciar um controle de qualidade eficiente. As pequenas agências de tradução então atuam como parceiras das agências globais, auxiliando na formação e no treinamento de equipes de tradução e revisão, controlando a qualidade com um profissional fixo para aplicar LQAs, gerenciar glossários, tirar dúvidas da equipe, servir de intermediário entre cliente e tradutores etc. e contando com uma equipe de gerentes de projetos dedicados especialmente aos trabalhos dessas contas.

Mas, para as pequenas agências, é vantagem ter esses clientes? Se a agência global pagar o preço justo para essa parceria tão importante e complexa, vale. Como sabemos, no Brasil temos uma carga tributária muito grande para pessoas jurídicas. Isso é um fator que não chega a impedir, mas que torna bem complexa a contratação de funcionários para desempenhar algumas funções que requerem um comprometimento maior com o trabalho. Trabalhar com profissionais independentes (ou freelancers, como muitos gostam de chamar) para essas funções é uma saída, mas, como esses profissionais têm inúmeros clientes, fica complicado exigir um compromisso de quase exclusividade. Ainda assim, é vantagem trabalhar com agências globais, não só pela receita, mas também pela oportunidade de aprender cada vez mais sobre as mais novas ferramentas e tendências do mercado. Dependendo da parceria que as empresas de tradução têm com as agências globais, seus funcionários e colaboradores recebem treinamento, lidam com os seus clientes diretos em algumas tarefas e até viajam para outros países para testar produtos e realizar projetos específicos. Por outro lado, pode ser difícil para a pequena empresa lidar com os volumes desse tipo de cliente, pois manter uma carteira de colaboradores disponíveis é um desafio. E, em geral, as agências globais especificam volumes mínimos semanais em contrato, então, é preciso se preparar bem para cumprir o combinado, aliando prazo e qualidade.

Para o tradutor independente, ter uma pequena agência de tradução como cliente é trabalhar com profissionais que, acima de tudo, entendem perfeitamente o papel dos tradutores e as dificuldades que eles têm em projetos específicos. É a chance de trabalhar com quem também já passou e passa por essas dificuldades e provavelmente já tem soluções para algumas delas. E, se não tem, certamente vai se esforçar para buscá-las, pois o seu objetivo é o mesmo que o do tradutor: manter o cliente feliz.

No frigir dos ovos, a verdade é só uma: estamos todos no mesmo barco. Assim, precisamos todos – tradutores, revisores, agências – deixar os preconceitos de lado e tentar manter uma relação saudável, sempre com muito diálogo sobre o papel de cada parte nesse relacionamento e sobre tarifas, o verdadeiro tabu entre nós. Tenhamos em mente que nossos objetivos são iguais, portanto, se tivermos uma boa convivência, todos lucramos, tanto em receita quanto em conhecimentos. Para chegar a esse ponto, é preciso refletir bastante sobre o que cada parte representa no mercado e procurar enxergar e, principalmente, praticar parcerias nessas relações, em vez de concorrências.

Sobre a autora
GisleyGisley Rabello Ferreira
 é tradutora, revisora, transcreator e especialista em controle de qualidade nos pares inglês > português brasileiro e espanhol > português brasileiro, principalmente para as seguintes áreas: TI, técnica, comercial, e-learning, localização, saúde e beleza, marketing. É falante nativa de português brasileiro e tem vasta experiência com a língua inglesa e espanhola. É bacharel e licenciada em inglês e literaturas americana e inglesa (UERJ), com pós-graduação em tradução nos idiomas inglês e português (PUC-RJ), e bacharel em espanhol e português e suas respectivas literaturas (UERJ). Atuou de 1990 a 2000 no mercado como tradutora interna em multinacionais americanas do setor de TI e como freelancer em projetos de setores variados para várias agências nacionais. Em abril de 2001, fundou a Wordlink Traduções e ampliou sua área de atuação, passando a oferecer pacotes completos de soluções linguísticas, utilizando as ferramentas e os aplicativos mais modernos do mercado, para clientes nacionais e internacionais. Hoje, também atua como gerente de projetos sênior, além de supervisionar toda a equipe da empresa.

Guest post: Pesquisa terminológica em tradução

Bem-vindos de volta à série de publicações convidadas!

Hoje seria dia da série de entrevistas, mas, impreterivelmente neste mês, invertemos a ordem. Portanto, a série de entrevistas será no dia 10.

É com imenso prazer que recebo um grande amigo, meu veterano, aqui no blog.

Seja bem-vindo, Deni!

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Source: Unsplash

O Google ou um corpus? Quem tirará minhas dúvidas?

Agradeço minha amiga Caroline Alberoni pela oportunidade de escrever para o seu blog. Ela já havia feito o convite há algum tempo, e desde então venho tentando pensar em um tema que possa ser interessante para os seus leitores. Nesse ínterim, propus para os meus alunos do curso de Tradução da UNILAGO que traduzissem uma publicação convidada como atividade da minha disciplina de Prática de Tradução. Essa, certamente, foi uma experiência muito proveitosa para os alunos e para mim!

Para a escolha do tópico que abordo nesse texto, retornei aos meus anos de graduação em Tradução e fui tentar resgatar o que havia fundamentalmente mudado na minha dinâmica como tradutor. Lembro-me que no início dos anos 2000, a Internet já fazia, de certa forma, parte de nossas vidas, e buscadores como o Yahoo, Cadê e AltaVista nos ajudavam a encontrar o que precisávamos naquele mundo de informações que já parecia ser um mar sem fim. Entretanto, foi o Google que popularizou as pesquisas que não eram exatamente uma busca por uma página, mas se tratava apenas de uma averiguação de frequência. Lembro-me de já usá-lo, nos meus exercícios de tradução (sobretudo de versão), para me certificar de uma regência, uma ortografia ou a formalidade ou informalidade no uso de uma palavra ou expressão.

Alguns anos depois, a quantidade de informações indexadas pelo Google aumentou enormemente. Dadas as diferentes tipologias de textos que são indexados, o Google foi “se especializando” e hoje é possível procurar apenas em notícias, textos acadêmicos e livros. No caso desses últimos, o Google ainda criou uma ferramenta chamada n-gram viewer (não disponível para o português), por meio da qual é possível contrastar a frequência de uma dada palavra ou expressão num período de tempo e ainda comparar com outra palavra ou expressão.

Para exemplificar o quão interessante pode ser o uso dessa ferramenta, tomemos uma publicação parte de uma recente série sobre gramática e uso, em que Michael Rundell, editor-chefe do dicionário da língua inglesa Macmillan, trata do uso de “different from” e “different to”. Com base em uma observação em corpus, ele conclui que “different to” é raramente usado no inglês americano, mas é comum no inglês britânico. Fui verificar o que o Google n-gram viewer tinha a dizer a respeito, com base em ocorrências em livros publicados de 1800 a 2008, e chegamos às mesmas constatações de Michael Rundell: “different from” é bem mais recorrente em ambas as variantes da língua inglesa (sempre foi), mas parece estar ganhando (discretamente) fôlego na literatura, nos últimos anos. Fiquemos de olho.

No exemplo que acabo de dar, tanto o Google quanto o corpus proporcionaram uma conclusão semelhante. Nesse sentido, noto que tenho encorajado meus alunos a valerem-se da Internet como forma de auxiliarem suas tarefas na disciplina de Prática de Tradução, mas com um olhar duvidoso sobre tudo o que esse mundo de informações apresenta. O grande volume de textos que vemos publicados on-line, hoje, tornou difícil até mesmo dizer o que, de fato, foi escrito por falantes nativos da língua e o que é produto de tradução (automática ou não). É na tentativa de tornar tais pesquisas mais confiáveis e representativas dos usos da língua que o corpus se mostra útil.

Caberia aqui uma rápida definição do que vem a ser um corpus (palavra latina, cujo plural é corpora). Trata-se de um grande conjunto de textos, selecionados segundo alguns critérios (para que o corpus servirá? Qual será sua extensão? Que tipos de textos farão parte dele?), em formato digital, de modo a extrair-se dele informações linguísticas relevantes. No meio acadêmico, esse tópico vem sendo tratado já há algum tempo, mas tem ganhado cada vez mais força com a Internet e com a grande capacidade de armazenamento e processamento dos computadores atualmente. Se antes, para criar um corpus, era necessário um árduo trabalho de digitalização de textos impressos, hoje é possível compilar um corpus a partir de textos que já se encontram disponíveis na Web, de maneira rápida e automatizada, e que podem servir para propósitos diversos. Um tradutor, por exemplo, diante de um trabalho sobre meliponicultura ou mineralogia, além de recursos como dicionários e sites especializados pode recorrer a um corpus compilado especificamente para a tradução de um texto e extrair dali termos atuais, se pensarmos que tal corpus foi constituído a partir de textos recentes, encontrados na Internet.¹

Mas por que não utilizar, simplesmente, o buscador do Google para fazer essa mesma tarefa? Afinal, compilar um corpus exige que se faça a seleção dos textos e que eles sejam armazenados com certa sistematicidade (em arquivos que sejam legíveis por programas específicos que processam corpus). É preciso ter em mente, contudo, que uma busca no Google, hoje, pode retornar resultados que não correspondem, muitas vezes, à realidade de usos. É justamente a vastidão de textos que são indexados por um motor de busca como o Google que desabona a sua utilização quando estamos em dúvida sobre um certo termo ou um uso. Os textos ali presentes podem ter origens que não são exatamente as mais confiáveis (a menos que estejamos buscando no Google Livros, como exemplifiquei acima).

Recentemente, em um exercício com meus alunos de Prática de Tradução, o termo “recycling containers” apareceu no texto de partida, o que gerou uma certa variedade de opções nos textos de chegada. A tradução mais frequente foi “recipiente de reciclagem” (três ocorrências); “contêiner de reciclagem” e “container de reciclagem” foram, cada um, a opção de dois alunos; uma aluna apresentou “contentor de reciclagem”, em seu texto (o que parece ser também a tradução do Google Tradutor para “recycling container”).

Ao recorrer ao Google, é possível verificar que “recipiente de reciclagem” é a opção mais frequente, seguida de “contentor de reciclagem”. Embora “recipiente de reciclagem” me parecesse uma possibilidade plausível, eu não estava satisfeito com essa tradução. “Contentor de reciclagem” estava fora de questão, mas como mediador-professor da disciplina, eu deveria motivar minhas decisões e expô-las aos alunos. Intuitivamente, pensei em “lixeira de reciclagem” como uma tradução apropriada, mas a frequência do Google indicava que esse termo era menos frequente que “recipiente de reciclagem”².

É aqui que o uso de um corpus parece-me apropriado e mostra vantagens sobre o Google. Utilizei um corpus que está gratuitamente disponível na Web e faz parte de um conjunto de recursos disponibilizado pela Linguateca³. Mais especificamente, utilizei o corpus CHAVE que, por sua vez, faz parte do AC/DC, um conjunto de corpora, convenientemente armazenados e acessíveis de um mesmo local. O CHAVE conta com textos jornalísticos da Folha de S. Paulo e do jornal português Público. A escolha recaiu sobre esse corpus, pois, eu gostaria de atestar que “contentor” era uma palavra mais utilizada em Portugal.

Duas buscas confirmaram minha hipótese, mas, para tanto, foi necessário especificar que uma busca deveria retornar apenas resultados dos textos brasileiros e a outra, apenas textos portugueses. Para tanto, adicionei à busca a restrição [variante=“BR”] e [variante=“PT”]⁴, respectivamente. Conforme previa, não houve uma ocorrência sequer de “contentor” no português brasileiro; já na variante portuguesa, foram 930 resultados.

Era, então, o momento de embasar a minha escolha (“lixeira de reciclagem”) para a tradução de “recycling containers”. O Google, como já antevi, não me ajudaria, pois, dava como vencedor “recipiente de reciclagem”. Apelei, assim, para um outro corpus, disponível on-line, o ptTenTen. Esse corpus encontra-se armazenado na ferramenta Sketch Engine (veja nota de rodapé 1) e contém alguns bilhões de palavras (o que é bastante significativo). Além disso, o ptTenTen, assim como o CHAVE, permite que se façam buscas nas variantes brasileira e portuguesa ou separadamente.

Minha breve pesquisa confirmou, numericamente (ainda que com números baixos), o que eu suspeitava: “lixeira de reciclagem” é o termo mais frequente entre aqueles apresentados como opção de tradução para “recycling container”, conforme o quadro abaixo.

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Vale ressaltar, reafirmando o que digo acima sobre o grande volume de informações na Internet hoje (e que acaba sendo indexado pelo Google), que percebi que muitos dos resultados para a busca “contentor de reciclagem” eram páginas de sites como Alibaba ou sites gerados com o auxílio de tradução automática, além dos textos que haviam sido escritos em outras variedades não brasileiras do português.

Com essa experiência de tradução que aqui apresento, busco fomentar uma reflexão sobre um aspecto da competência do tradutor, isto é, como a prática tradutória tem sido afetada de modo a favorecer o texto final, minimizando esforços e tempo, tão caros num mundo onde o tradutor nunca foi tão necessário. A utilização de corpora parece, num primeiro momento, acrescentar mais um trabalho às já muitas tarefas do tradutor, todavia, esse exemplo, ainda que simples, mostra que nossa intuição pode ser confirmada ou refutada com dados mais confiáveis.

¹ Uma ferramenta que pode auxiliar um tradutor nesse sentido é o Sketch Engine, um processador de corpus que funciona on-line e que a partir de algumas palavras-chave (o termo correto aqui seria “seeds”) busca a Web e compila um corpus com base nessas palavras-chave. O Sketch Engine é capaz de processar corpora de diversas línguas e oferece recursos diversos, desde uma lista de frequência de palavras presentes no corpus até as chamadas word sketchs, em que é possível ver padrões de coocorrência de palavras. A ferramenta pode ser acessada em https://www.sketchengine.co.uk.

² No momento em que escrevo esse texto “recipiente de reciclagem” ocorre 74 mil vezes, enquanto “lixeira de reciclagem” tem 20,5 mil ocorrências.

³ A Linguateca é um um centro de recursos para o processamento do português que conta com o apoio de diversos pesquisadores no Brasil e em Portugal. Os recursos da Linguateca podem ser acessados em http://www.linguateca.pt.

⁴ Essas restrições de busca e tantas outras tornam o uso de corpora interessante. O corpus precisa conter informações (nesse caso, a que variante do português pertence o texto) e essas são adicionadas manualmente ou automaticamente. Outro tipo de informação útil e que é possível adicionar automaticamente são as categorias gramaticais das palavras. Um corpus anotado com esse tipo de informação permite buscas mais interessantes do que aquelas que o Google oferece. Por exemplo, podemos pesquisar por “casa” como forma verbal de “casar” em vez do substantivo.

Muito obrigada por ter aceitado meu convite e dedicado seu tempo em escrever algo tão interessante e útil para o blog, Deni! Foi um grande prazer recebê-lo aqui.

About the author
facebook08Deni Kasama é formado em Tradução pela UNESP de São José do Rio Preto, onde recententemente concluiu também seu doutorado. Atualmente, é docente na União das Faculdades dos Grandes Lagos (UNILAGO), além de atuar como tradutor e revisor freelancer de textos acadêmicos. Suas pesquisas recentemente têm se concentrado nas contribuições da Linguística de corpus para a Tradução e a Lexicografia.

Guest post: ProZ membership (in Portuguese)

Sejam bem-vindos a mais uma publicação convidada! A convidada deste mês é a Adriana de Araújo Sobota, querida amiga e companheira no Comitê de Administração do Programa de Mentoria da Abrates.

Seja bem-vinda, Adriana!

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ProZ – Vale a pena ser associado?

Uma das perguntas mais frequentes que tradutores, principalmente iniciantes, me fazem é se vale a pena ou não assinar o ProZ. Esse é um assunto muito controverso. Por um lado, tradutores que conseguiram conquistar uma clientela que paga tarifas mais altas acham aviltantes as tarifas oferecidas por alguns anunciantes. Por outro lado, tradutores iniciantes ou que trabalham para agências nacionais, por exemplo, se beneficiam do câmbio e acham essas mesmas tarifas vantajosas.

O fato é que não podemos pensar apenas no valor médio por palavra oferecido no ProZ. Temos que considerar todos os benefícios e entender como ele funciona. Saber aproveitar o que o ProZ oferece pode fazer a diferença para conseguir nele mesmo essa clientela, digamos, superior. Eu trabalho exclusivamente para agências, todas internacionais e 90% delas vieram do ProZ. Portanto, eu só vejo vantagens em ser assinante. Mas essa é a minha visão. Para outras pessoas pode não ser vantajoso e não sou eu que vou dizer o contrário, minha proposta aqui é explicar por que eu acho vantajoso ser assinante.

O que é o ProZ?

É um site onde empresas, tradutores, agências se cadastram e oferecem trabalhos ou prestação de serviços. Tem quem chame o site de leilão, pois algumas agências oferecem trabalhos na base do “quem dá menos”, mas não é só isso que acontece ali. O site tem uma seção de ofertas de trabalho, uma espécie de classificados. Parte dos trabalhos oferecidos já tem o preço que o cliente quer pagar; parte não tem preço e o cliente pergunta a tarifa do tradutor. Algumas das ofertas vêm com o famoso pedido de “best rate”, aí nos perguntamos: best para quem? Claro que para eles!

Quanto custa a assinatura?

Você pode criar seu perfil gratuitamente no ProZ, mas se assinar, terá acesso a mais recursos. A assinatura anual custa, para novos membros, U$ 144. Para quem já é assinante, a renovação da assinatura anual custa U$ 133. Também oferecem uma assinatura semestral, que acaba saindo mais caro, mas que de imediato é mais em conta. A semestral para novos membros custa U$ 99 e para quem vai renovar, U$ 90. Eles oferecem ainda uma terceira modalidade de assinatura, que inclui um pacote de treinamento composto por vídeos e treinamentos para fazer sozinho. O valor é U$ 199 para novos membros ou não. Se optar por essa modalidade de assinatura, ela terá validade de um ano e você poderá escolher um de três pacotes de treinamento: marketing e promoção pessoal; gestão de projetos ou pacote para iniciante. Esses pacotes também podem ser adquiridos separadamente e custam U$ 119 cada (para novos membros ou não).

Vantagens de ser assinante

A primeira vantagem de ser assinante é que você terá acesso imediato às ofertas de trabalho restritas. Não assinantes só podem ver a maioria dessas ofertas após um período mínimo de 12 horas. Muitos anunciantes abrem a oferta para não assinantes após 48/72 horas. Outra grande vantagem é ter acesso ao Blue Board, um diretório que mostra como os colegas tradutores avaliaram as agências (de 0 a 5). Esse diretório é muito útil quando não conhecemos a agência e queremos saber se é boa pagadora, por exemplo. Outras vantagens de ser assinante são: assinantes aparecem listados antes dos não assinantes para os clientes; as cotações dos assinantes são visualizadas primeiro pelos anunciantes; posicionamento nas pesquisas do Google (os clientes são direcionados para o seu perfil no ProZ); descontos em alguns treinamentos oferecidos no site; monitoramento de visitantes do seu perfil; participação em concursos de tradução; descontos em algumas ferramentas etc.

Como tirar máximo proveito do ProZ

Um grande erro do tradutor que diz não conseguir nada no ProZ é não investir no seu perfil. Vejo muitos que criam o perfil e o deixam lá, às moscas. Se um cliente tem um trabalho de inglês para português na área de marketing, vai encontrar centenas de perfis no ProZ e será difícil escolher. É claro que o perfil mais completo, mais organizado e mais detalhado vai se destacar. Ok, isso se o cliente estiver procurando qualidade, porque se estiver procurando preço, vai no mais barato e pronto. Mas aqui queremos chegar àquela clientela “superior”, certo? Assim sendo, é crucial caprichar no seu perfil, colocar o máximo de informações possível, apresentar o seu produto de forma atraente e convincente.

Outro recurso importante e não muito explorado é o WWA (Willingness to Work Again). Com ele, você pode pedir aos seus clientes para deixar depoimentos sobre o seu trabalho. Assim você mostra para os seus futuros clientes que é um profissional sério e respeitado. Igualmente importante é responder rápido às ofertas interessantes de trabalho. Muitas vezes o cliente tem pressa, e se você deixar para responder depois, pode acabar perdendo oportunidades. Lembre-se de que as ofertas são baseadas em critérios específicos (idioma, especialidade, CAT tool etc.), portanto, seja bem específico ao criar o seu perfil, para ter a certeza de que as ofertas ideais cheguem ao seu e-mail.

Depois que melhorei meu perfil, passei a receber inúmeras ofertas de trabalho diretas, que nem vão para a lista. É claro que não foi assim desde o início. Sou associada do ProZ há 9 anos e demorou alguns anos para chegar no nível atual, de raramente responder a uma oferta da lista, a não ser que seja algo muito interessante. Os clientes passaram a me enviar mensagens com ofertas diretas e consegui boas agências assim. Em outras palavras, não é porque você está no ProZ que precisa participar do “leilão”. É claro que, para quem está começando, tem a questão da experiência para colocar no perfil. Mas aí é que entra o seu marketing pessoal, sua capacidade de mostrar que, apesar de ter pouca experiência, é muito bom no que se propõe a fazer, e mostrar isso por meio do zelo demonstrado no seu perfil, da preocupação em se profissionalizar, esse é o ponto de partida para o sucesso.

Muito obrigada por ter aceitado meu convite para escrever para o blog, Adriana! Foi um grande prazer recebê-la no meu cantinho. 🙂

Sobre a autora
Foto FaceAdriana de Araújo Sobota é graduada em Letras e pós-graduada em Linguística Aplicada. É tradutora técnica de inglês e espanhol para português há 17 anos nas áreas de TI, medicina, administração e marketing, engenharias, telecom, turismo e websites. Uma das coordenadoras do Programa de Mentoria da Abrates. É sócia e coordenadora pedagógica do Netwire Learning Center. Editora-chefe da Revista On-line da Abrates. É membro da ABRATES e da American Translators Association.

TradTalk: novo podcast de tradução

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Como vocês já devem ter visto nas mídias sociais, depois de todo o suspense, há algumas semanas, anunciei meu novo projeto: um podcast de tradução.

O que é um podcast?

Como muita gente ainda não entende direito o que é um podcast, vamos à explicação necessária. Podcasts são canais de assinatura de áudio digital com conteúdo frequente. Assim como em um blog, no qual você se inscreve e recebe notificações sempre que há novas publicações, você assina um podcast (gratuitamente) e recebe notificações sempre que houver um áudio novo. Ele pode ser acessado em dispositivos móveis: iPhones e iPads já vêm com o aplicativo Podcasts, no qual você pode ter acesso a inúmeros canais; em Androids, é necessário baixar um aplicativo de podcast. Também é possível ter acesso aos áudios pelo site do podcast.

De onde surgiu a ideia?

O interessante dos podcasts, na minha opinião, é a possibilidade de ouvir conteúdo interessante no celular enquanto faço alguma atividade, como preparar o almoço/jantar, ir ao supermercado (atividade que odeio, mas que se tornou menos insuportável com os podcasts), dirigir e até mesmo praticar atividades físicas. É uma forma de otimizar um tempo em que estamos ativamente ocupados fazendo algo, mas que, ao mesmo tempo, estamos passíveis a receber conhecimento. Além de ampliar o conteúdo a que temos acesso, já que, para ler, por exemplo, precisamos parar o que estamos fazendo para executar a ação.

Essa paixão e esse encantamento por podcasts surgiram recentemente. Comecei assinando o Podcast da Bel, da Bel Pesce, empreendedora que admiro muito e que procuro acompanhar. Os episódios dela são diários e bem curtinhos. É uma lição de empreendedorismo e de vida melhor que a outra. Sou apaixonada.

Daí, então, pensei que eu poderia criar meu próprio podcast, já que não temos muitos de tradução no Brasil. Para aprimorar minha ideia, assinei o TradCast, primeiro podcast de tradução do Brasil, inativo no momento, mas com um ótimo conteúdo disponível. O TradCast foi criação conjunta deste time de feras: Marcelo Neves, Érika Lessa e Cláudia Mello Belhassof. Também comecei a ouvir o podcast da Carol Alfaro, o Papo de Tradutor. Esses são os únicos podcasts de tradução que conheço no Brasil. Outros de tradução que assino são: Marketing tips for translatos, da Tess Whitty; e Blabbing Translators, do Dmitry Kornyukhov e da Elena Tereshchenkova. Outros da área de línguas e localização: The Business of Language, da Tammy Bjelland; e Globally Speaking, do Renato Beninatto e Michael Stevens. Sobre empreendedorismo, ouço: Empreendedor a todo Vapor, do Thiago Compan; e o GVCast, do Flávio Augusto da Silva, do Geração de Valor.

Conversando com amigos, no entanto, descobri que nem todos são como eu. Algumas pessoas preferem ouvir ou assistir a conteúdo no computador, não no celular. Por isso, pensei em também filmar as entrevistas do meu podcast para disponibilizá-las também no meu canal do YouTube. Dessa forma, atendemos a todos os gostos: áudio no celular, áudio e vídeo no computador. Não tem desculpa. 😉

Quanto ao nome, TradTalk, devo um agradecimento bem especial ao Karel Sobota, marido da querida Adriana Sobota. Em um brainstorming, ele deu essa ideia, e eu amei!

Crédito do logotipo e das imagens, como sempre, do meu super parceiro de vida e profissional, Érick Tonin, que também sempre me ajuda com a parte técnica.

Agradecimento especial também ao Thiago Compan e à Laila Compan por tirarem minhas dúvidas e me ajudarem com a parte técnica.

Como vocês podem ver, não sou ninguém sozinha. Desde a troca de ideias com amigos e familiares para a criação à aceitação do meu convite para participar do podcast por parte dos entrevistados e à ajuda do William Cassemiro e da Abrates em fornecer o espaço para que eu pudesse filmar durante o VII Congresso Internacional de Tradução e Interpretação da Abrates, devo a realização de mais esse projeto a todo mundo que, de uma forma ou de outra, me ajudou antes, durante e depois. 🙂

O que esperar do TradTalk

Os episódios terão, em grande parte, uma média de 30 minutos de duração. Como não gosto de ouvir podcasts longos, segui a mesma lógica. No entanto, teremos algumas exceções à regra, pois o papo foi sempre tão bom que acabamos extrapolando essa média algumas vezes. Oops! rsrs

A frequência será mensal, sempre perto do dia 5 de cada mês. Aqui também teremos exceções: no primeiro mês, para comemorar, teremos dois episódios. Também teremos dois episódios em setembro, para comemorar o mês do tradutor: um no dia normal e outro no dia 30, Dia do Tradutor.

Já temos 13 entrevistas gravadas! Os convidados já gravados são: Adriana Sobota, William Cassemiro, Comitê de Administração do Programa de Mentoria da Abrates com a participação especial da mentora Gisley Ferreira e da mentorada Sabrina Fuzaro, Sofia Pulici, Ligia Fragano, Liane Lazoski, Paloma Bueno Fernandes, Michele Santiago, João Roque Dias, Laila Compan, Marcelo Neves, Gabriela Cetlinas e Kirti Vashee. Outros grandes nomes nacionais e internacionais da tradução já aceitaram meu convite e gravaremos em breve.

Olha, não é porque é meu filhote, não, mas as entrevistas estão super legais! Espero que gostem dos papos tanto quanto eu amei entrevistar os convidados.

É na próxima semana! Aguardem!

Mentoria em tradução

Cabeçalho

O que é

Embora o termo mentoria seja recente, principalmente no Brasil, o conceito faz parte das nossas vidas de maneira informal desde que nascemos. Em sua forma básica, trata-se do processo natural no qual somos orientados no melhor caminho, incentivados a fazer mudanças ou impulsionados a evoluir. Por proporcionar efeitos altamente significativos, esse processo natural começou a ser estudado e pesquisado profundamente a partir dos anos 70 (no Brasil, somente há cerca de 10 anos). Foi, então, adaptado ao uso formal, estruturado como recurso de orientação e desenvolvimento profissional. No Brasil, a mentoria como ferramenta de desenvolvimento profissional está dando os primeiros passos. Na tradução, a ATA (American Translators Association) foi a primeira a introduzir um Programa de Mentoria, seguida recentemente pela APTRAD (Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes) e agora pela Abrates (Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes).

Como funciona

A mentoria é um processo no qual o mentorado é orientado para facilitar e agilizar seu desenvolvimento e evolução por um profissional mais experiente que dedica seu tempo para compartilhar conhecimento e experiência com base principalmente no exemplo. Por sua experiência e por já ser consagrado no mercado, o mentor serve como objeto de respeito e admiração, um exemplo a ser seguido. Na tradução, esse processo ajuda o tradutor iniciante ou recém-formado a adquirir uma base mais sólida sobre como funciona o mercado diretamente de alguém que já está nele e que pode falar com propriedade sobre o assunto. Com isso, o mentorado obtém o caminho para encontrar as respostas (não as respostas em si) de que precisa de forma mais rápida e eficaz.

Benefícios são gerados para todas as partes: mentorado, mentor e organização. Além do aprendizado geral sobre o mercado e a profissão, o mentorado tem a chance de ampliar sua rede de relacionamentos. O mentor, por sua vez, além de ser reconhecido e de também aprender com o mentorado, obtém satisfação pessoal e profissional. Já a organização, adquire experiência organizacional e aprende com o desenvolvimento dos mentores e mentorados. Ou seja, todos saem ganhando.

Caminho das Pedras

O Programa de Mentoria “Caminho das Pedras” da Abrates é totalmente gratuito. Foi lançado no início de março e já é sucesso absoluto! No momento, há 20 pares mentor/mentorado em andamento e já há uma lista de espera.

Para se inscrever como mentorado, é preciso:

  1. Ser associado da Abrates e estar em dia com suas obrigações; e
  2. Ter no máximo dois anos de experiência como tradutor/intérprete; ou
  3. Estar no último ano do curso de tradução/interpretação/letras.

Para se inscrever como mentor, é preciso:

  1. Ser associado da Abrates e estar em dia com suas obrigações; e
  2. Ter no mínimo cinco anos de experiência na área.

Os interessados são solicitados a preencher uma ficha de inscrição com detalhes pessoais e metas desejadas para o programa. O Comitê de Administração analisa cada ficha e decide, em conjunto, o mentor mais adequado para cada perfil, de acordo com as descrições fornecidas na ficha do mentorado.

Cada programa dura seis meses, contados a partir do primeiro encontro do par. Os pares devem se encontrar por no mínimo duas horas por mês, no formato de preferência dos dois, com frequência também a ser decidida em conjunto. Cada par tem seu próprio coordenador dentro do Comitê de Administração. As reuniões são acompanhadas pelo coordenador designado por meio de relatórios de acompanhamento que devem ser preenchidos pelo mentor e pelo mentorado separadamente após cada reunião. Embora o programa tenha caráter voluntário (de todas as partes), há regras a serem seguidas para garantir a qualidade e o andamento fluido do programa de cada par. Caso essas regras não sejam seguidas, os coordenadores do Comitê de Administração decidirão, em conjunto, sobre a possível exclusão do mentor ou mentorado do programa.

Embora o limite de pares já tenha sido atingido, se você tiver interesse em ser mentorado e estiver de acordo com a regras do programa, envie um email se inscrevendo a fim de que possa entrar na lista de espera. A lista de espera segue a ordem de conclusão de inscrição, ou seja, quando o mentorado é finalmente aprovado no processo de seleção e considerado apto para começar o programa.

Acesse a página do programa no site da Abrates para saber mais detalhes, conhecer as regras e obrigações. Caso tenha qualquer dúvida ou queria se inscrever, entre em contato pelo e-mail: mentoria.abrates@gmail.com.br.

Curta a página do programa no Facebook e siga o perfil no Twitter para ficar atualizado sobre as novidades.

 

Guest post: Coworking (in Portuguese)

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Coworking: um modismo benéfico à saúde da tradução profissional

Dizem por aí que procrastinar é o oitavo pecado capital do homem contemporâneo, mas foi mergulhando nessa sina que eu descobri o coworking. Segunda-feira arrastada, Facebook aberto, feed de notícias pra cima e pra baixo, até que bati o olho no post de um colega anunciando que sua empresa estava de casa nova em um espaço de coworking. Curiosa, cliquei na tag do lugar e em um minuto me encantei pela proposta – ou melhor, fiquei obcecada a ponto de isso ter me rendido uma experiência de vida e trabalho fora do país, um par de palestras e um convênio de abrangência nacional para tradutores – nada mal para uma procrastinadazinha, não? E essa brincadeira só está começando. Mas, afinal, o que é coworking?

A resposta objetiva e superficial para essa pergunta é: um escritório compartilhado por profissionais liberais de diferentes áreas.

A resposta aprofundada (e que dá pano para manga) para essa pergunta é: um fenômeno (re)construído diariamente por aqueles que se propõem viver e trabalhar dentro da recém-nascida ordem da economia colaborativa.

Fruto da virtualização e da globalização do cotidiano, os coworkings são, fisicamente, espaços apropriados coletivamente por pessoas com diferentes objetivos de negócio. Assim, também são temporariamente multifacetados, pois o fluxo de integrantes (os coworkers) é dinâmico e variável. Além de oferecer benefícios diretos, facilmente identificáveis – uma alternativa econômica aos custos estratosféricos do mercado imobiliário/ratatá de infraestrutura -, os espaços de coworking também proporcionam ganhos indiretos, sutis e subjetivos por hospedarem diversidade, sendo, na prática, verdadeiros melting pots do empreendedorismo. Logo, são espaços que os tradutores precisam ocupar com urgência para crescer profissionalmente, até porque coworkar é a solução perfeita para fugir do isolamento do home office e fazer um networking saudável e nada forçado.

Foi experimentando essa prática em Buenos Aires que notei o potencial de transformação que coworkar traz aos seus adeptos. Por não estar em casa e por estar pagando pelo uso daquele espaço, chegava para trabalhar de verdade, com foco. Aproveitei também para cronometrar minha produtividade, comprovando na prática de que eu precisava, em média, de quatro a cinco horas bem trabalhadas para dar conta das minhas metas diárias. Isso me deu tempo suficiente para conhecer a cidade porteña com calma, fugindo do óbvio turístico, e, aos poucos, comecei a cultivar minhas próprias raízes no local. Em outras palavras, ouso dizer que consegui me aproximar um pouquinho do famoso work-life balance ao experimentar tocar o meu negócio em um espaço de coworking. E voltei para o Rio de Janeiro obstinada a espalhar a ideia para as pessoas, principalmente para tradutores como eu.

E desse desejo surgiu, há um mês, o Convênio Coworking para os associados da ABRATES e do SINTRA. A proposta é bem simples e está toda resumidinha no vídeo fixado na fanpage do Pronoia Tradutória. Acredito que estamos vivendo um momento definidor para a nossa profissão, que ganhou visibilidade com a chegada dos megaeventos no país. Portanto, está na hora de darmos as caras para o mundo e conhecê-lo melhor: ver e ser visto é um passo fundamental para desmistificar aqueles mal-entendidos acerca do nosso ofício. E esse esforço não é somente uma questão de autopromoção, mas também serve para semear os frutos vindouros de um mercado mais sadio. Afinal, a (in)formação de colegas e clientes é o melhor antídoto para as más condições que enfrentamos no ramo.

Fico contente em saber que já tem colega procurando os espaços conveniados e dando uma chance para essa prática que vem revolucionando a forma como o homem contemporâneo entende o trabalho. Já ouvi por aí que, no futuro, “coworking” não será mais uma novidade, um modismo; será a regra, a lógica “natural” em que a indústria de serviços se organizará. Se essa aposta vingará, só vivendo para saber, mas nada nos impede de já torná-la uma realidade.

About the author
carol1miniCarolina Walliter é tradutora e intérprete no par inglês/português formada pelo Brasillis Idiomas; filiada à ABRATES, ao SINTRA e à IAPTI. Ativa no mercado da tradução desde 2010, atua principalmente nas áreas de comunicações corporativas, marketing, turismo e tecnologia da informação. Em 2013, começou a estudar o fenômeno do coworking informalmente, na mesma época em que partiu para sua primeira aventura como nômade digital em Buenos Aires. Relatou toda a experiência no blog Pronoia Tradutória, espaço que idealizou para refletir sobre o cotidiano do tradutor contemporâneo e seus desafios práticos. Além de traduzir e interpretar, também escreve para a Revista Capitolina e para a Traduzine.

A competência do tradutor

Sejam bem-vindos de volta, queridos leitores! 😀

Interrompemos a programação normal do blog para publicar a tradução de uma de nossas publicações convidadas. Em dezembro de 2014, a querida Lynne Bowker escreveu o texto Translators and the need for speed. Hoje, é com imenso prazer que recebo no blog a turma de tradução da Unilago, orientada pelo professor (e querido amigo) Deni Kasama.

Sejam muito bem-vindos! 🙂

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Estou muito animada para escrever uma publicação convidada para o blog da Caroline, que eu conheci na XXXIV Semana do Tradutor, no Brasil, em setembro. A Caroline disse que eu tinha liberdade para escolher qualquer tema relevante para tradutores ou relacionado a tradução, contanto que ele ainda não tivesse sido abordado em nenhuma publicação anterior. Assim, como boa tradutora e pesquisadora, primeiro li diligentemente as publicações anteriores (eu tentei ler mesmo aquelas em português!). E estou realmente feliz por ter feito isso. Por um lado, sinto que conheço a Caroline um pouco melhor. Descobri que ela gosta de Alice no País das Maravilhas, o que significa que ela tem algo em comum com Warren Weaver, um dos meus heróis pessoais no domínio da tradução. Esse Weaver é o do “Weaver’s Memorandum“, o documento que deu início a uma investigação séria sobre tradução automática. Independentemente de você ser ou não um fã de tradução automática, o Dr. Weaver era uma pessoa impressionante em vários aspectos.

Descobri também que fazemos aniversário na mesma semana em janeiro, o que significa que a Caroline é do signo de capricórnio. Não me admira que ela seja tão dedicada, trabalhadora e profissional, e também uma excelente pessoa, generosa e cheia de outras qualidades. 🙂 Obrigada, Caroline, pela oportunidade de conhecê-la melhor e escrever uma publicação convidada para o seu blog.

Ao ler as publicações anteriores, observei alguns temas recorrentes, como “formação de tradutores”, “conhecimento vs habilidades” e “produtividade”. Decidi tentar estender a discussão de algumas dessas ideias, enquadrando-as no contexto de minha própria experiência como professora de tradução na Universidade de Ottawa, no Canadá.

A questão é saber se um programa de formação de tradutor deve se concentrar em conhecimento (que tende para a teoria ou o que Don Király (2000) denomina “competência tradutória”) ou habilidades (que tendem mais para as atividades não linguísticas que oferecem suporte à tradução ou o que Király classifica sob a categoria de “competência do tradutor”). Convencionalmente, as universidades têm dado preferência para o conhecimento, alegando que as habilidades são efêmeras demais. Por exemplo, um professor universitário pode argumentar que, no que diz respeito à tradução auxiliada por computador, o que é importante para se aprender em sala de aula são os conceitos subjacentes e não o passo a passo da utilização de um software, que pode estar desatualizado ou fora de moda quando o aluno se formar. Em vez disso, o foco de uma educação universitária está no desenvolvimento da análise crítica, em aperfeiçoar a avaliação e refinar o julgamento. Acho que poucas pessoas poderiam argumentar contra esse enfoque. A tradução é uma tarefa desafiadora, e fazê-la bem exige uma séria reflexão. Aprender a fazê-la bem, mais ainda!

No entanto, as universidades não podem ignorar o fato que, depois que se formam, esses alunos precisam atuar num ambiente de trabalho profissional. Uma área na qual os recém-formados por vezes encontram dificuldade é no cumprimento dos prazos apertados, que são uma realidade na profissão de tradutor.

Em muitos cursos de formação de tradutores, o enfoque é colocado firmemente em incentivar os alunos a refletir de maneira integral, analisar profundamente e pesar cuidadosamente as opções antes de se comprometer com uma estratégia de tradução, escolha terminológica ou expressão. Não há dúvida que os alunos devem cultivar essas habilidades analíticas deliberadas, e a eles deve ser dado o tempo para desenvolvê-las. Contudo, no mundo profissional, pode haver menos tempo para cuidadosas reflexões. Em vez disso, a tradução deve vir rapidamente, se não automaticamente. Portanto, faz sentido que se adicione uma aprendizagem autêntica e contextualizada que teste e melhore a capacidade de tradução dos alunos sob pressão de tempo. É uma maneira a mais de preparar os alunos para o mundo do trabalho e para que eles experimentem a tradução de uma forma diferente e sob outras circunstâncias.

Dessa forma, tomei uma decisão consciente de tentar introduzir uma espécie de “treino de velocidade” nas aulas que dou. Pela primeira vez este ano, numa aula do 3º ano sobre  escrita profissional, peço aos alunos que comecem cada aula preparando um resumo de um texto mais longo. Os textos em questão tratam de temas populares, de interesse geral para os estudantes no Canadá (por exemplo, a Estação Espacial Internacional, os campeonatos mundiais de beisebol, a descoberta de um barco afundado do século XIX, no Ártico). Cada texto tem aproximadamente 600 palavras, e os alunos têm de 15 a 20 minutos para resumir esse conteúdo em cerca de 200 palavras. Os alunos recebem um feedback semanal, embora os exercícios nem sempre sejam avaliados com notas. Isso tira a pressão e permite que os alunos desenvolvam essas habilidades num contexto de baixo risco.

A ideia geral por trás desse exercício de sumarização com “treino de velocidade” é que ela pode permitir que os estudantes aperfeiçoem uma série de habilidades e reflexos que também são úteis para a tradução: a capacidade de analisar e compreender o significado rapidamente, de extrair ideias-chave e a estrutura de um texto, de organizar ideias e de transmitir ideias com precisão, bem como reconhecer e evitar distorções na transferência de informação. Com a introdução do treino de velocidade num contexto de escrita, eu espero que os alunos possam aperfeiçoar sua capacidade para tomar decisões rapidamente, e eles podem, em seguida, estender isso para um contexto bilíngue numa fase posterior da formação.

Os alunos foram questionados, no meio do semestre, para determinar se acharam ou não o exercício relevante. No geral, os comentários foram positivos. Eles afirmaram ter observado um valor genuíno em aprender a trabalhar de forma mais rápida e realmente acharam que estavam melhorando essas habilidades com prática regular de velocidade de escrita. Haverá outra avaliação no final do semestre, e vai ser interessante ver como os pensamentos deles evoluíram.

Enquanto isso, da perspectiva de um professor, também observei melhorias. Em primeiro lugar, no início do semestre, alguns alunos foram incapazes de concluir o exercício. No entanto, agora que estamos nos aproximando do final do semestre, os alunos são capazes de terminar dentro do prazo estipulado. Eles estão ficando mais rápidos! No que diz respeito à qualidade, o fluxo de informação tem melhorado significativamente. Os últimos resumos lidos fluem como textos reais, em vez de uma coleção de sentenças independentes. Os alunos também estão apresentando um trabalho melhor em diferenciar entre as ideias-chave e o conteúdo mais periférico.

Então, minhas perguntas para vocês, leitores, são as seguintes: Você já fez algum “treino de velocidade” formal como parte de sua formação? Se não, você acha que teria sido útil? Você tem sugestões de outras maneiras em que o “treino de velocidade” poderia ser incorporado num programa de formação de tradutor? Você tem sugestões de outros tipos de habilidades de “competência do tradutor” profissional que poderiam ser utilmente incorporadas em um programa de formação de tradutor?

Alguns professores de tradução estão realmente interessados em ajudar os alunos a construir uma ponte entre a teoria e a prática, mas, para fazer isso com sucesso, precisamos da contribuição de profissionais que já estejam atuando! Estou ansiosa para ouvir suas opiniões! E obrigada, novamente, à Caroline pela oportunidade de escrever esta publicação convidada.

Muitíssimo obrigada ao Deni, pela ideia de traduzir o excelente texto da Lynne como trabalho bimestral da disciplina, e aos alunos, pela dedicação e pelo interesse. Foi um grande prazer recebê-los no blog.

About the translators
thumb_IMG_9940_1024Os alunos da disciplina de Prática de Tradução II (2015) do curso de Bacharelado em Letras com habilitação em Tradução e Interpretação em Língua Inglesa da União das Faculdades dos Grandes Lagos (UNILAGO) é formado pelos alunos Adriana Ramos, Alexandre Souza, Ana Flávia Peres, Bruna Fioroto, Danilo Figueiras, Higor de Morais, Ingrid Pereira, Janaine Nogueira, Jaqueline Nogueira, Pâmela Constantino, Priscila Geromini, Rafaela Ramires, Rogério de Souza, Teresa Dambi e Victor Marchini. A disciplina é ministrada pelo professor Deni Kasama.

Por onde começar?

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Tardei, mas não falhei! Cá estou com a minha primeira publicação mensal, em português.

Há aproximadamente um mês, recebi uma mensagem pelo site de uma pessoa que assistiu à minha palestra no Congresso da Abrates deste ano e que tem interesse em se tornar tradutora, mas não sabe como. Como acredito que as dúvidas dela possam ser as de muitas outras pessoas que têm interesse em entrar na área, decidi respondê-las aqui no blog, assim elas ficam mais acessíveis.

  1. A criação de um nome para a minha marca como uma sigla soa profissional ou devo usar uma palavra mesmo?
    Sim, claro! Obviamente, contanto que a sigla não soe estranha ou ofensiva em nenhuma cultura. O nome pode ser uma sigla, um dos seus nomes próprios ou o seu nome completo, ou até mesmo um nome criado totalmente do zero. O importante é considerar todos os fatores, como a imagem que ele passa para pessoas de qualquer cultura, a facilidade de pronunciá-lo e escrevê-lo, a não existência prévia dele, etc. Leve sempre em consideração seus possíveis clientes (e as culturas deles), seus valores, suas características e sua preferência, é claro.
  2. Como faço para começar a divulgar meu trabalho? Você acredita que seja uma boa ideia começar a divulgar em algumas faculdades aqui de minha cidade, para fazer traduções de monografias e textos acadêmicos, ou devo procurar outro público?
    Você conhece as particularidades da escrita acadêmica nos idiomas nos quais pretende trabalhar? As regras são diferentes da escrita usual e também são diferentes de acordo com o idioma.
    Você conhece as áreas com as quais pretende trabalhar? As áreas podem variar desde assuntos mais gerais a outros bem específicos, como biologia, engenharia e física. Como textos acadêmicos e monografias/teses e afins são direcionados e detalhados sobre um assunto específico, é necessário ter pelo menos certo conhecimento ou estar preparado e disposto para pesquisar bastante e aprender.
    Você pode começar pesquisando agências de tradução. Elas sempre são um ótimo ponto de início. Você pode encontrá-las em buscas no Google ou em grupos de tradutores, ou mesmo obter indicação de outros tradutores que já trabalharam ou trabalham com agências. O importante é sempre pesquisar sobre a agência antes de enviar seu currículo para saber com quais idiomas e áreas ela trabalha e se é idônea. Envie o currículo para cada uma separadamente, de preferência, citando o nome da pessoa responsável pelo recebimento de currículos, fazendo uma breve apresentação sua já no corpo do email.
  3. Quanto cobrar pelo serviço? Não tenho ideia de onde começar nem de como e quanto cobrar dos clientes. Por exemplo, quanto você acha justo cobrar por um abstract de monografia e pela tradução de textos acadêmicos?
    Não tenho a fórmula mágica, pois não existe uma. Cada tradutor cobra um valor e cada cliente é um caso diferente. No caso de agências, muitas vezes, quem estipula o preço são elas. O importante é você ter uma ideia do seu valor mínimo e não aceitar migalhas.
    Eu, pessoalmente, comecei ganhando R$ 0,03 por palavras do material original. Um mês depois, a agência aumentou para R$ 0,05. Cerca de um ano depois, comecei a receber R$ 0,07. Hoje, meu valor mínimo por palavra para clientes brasileiros é de R$ 0,11. No entanto, varia de acordo com o cliente. Se eu não me engano a tabela do Sintra sugere R$ 0,35, ou seja, como você pode ver, há uma variação muito grande.
    Tente sempre negociar os valores oferecidos pela agência. Na pior das hipóteses, você ouvirá um “não” e decidirá se aceita a proposta deles ou não. Com o tempo, veja qual é sua produtividade de palavras por dia a fim de calcular um valor por palavra com base nas suas necessidades financeiras.
  4. Devo solicitar o recebimento do pagamento antes de fazer o serviço ou depois?
    Depende. Repito, no caso de agências, são elas quem mandam e você tem que aceitar. O prazo normalmente varia de 30 a 60 dias após a emissão da nota fiscal. No caso de clientes diretos, se o cliente é novo, sempre peço parte do valor total (30 ou 50%) mediante a aprovação da cotação e estipulo que só iniciarei a tradução quando confirmar o recebimento desse valor inicial. O restante, nesse caso, solicito que seja pago mediante a entrega do material traduzido. Se eu já conheço o cliente, solicito o pagamento em até 30 dias corridos após a entrega do material traduzido. No entanto, alguns pagam em até uma semana.
  5. Qual é a forma de pagamento que devo oferecer (depósito em conta ou alguma outra forma)?
    Eu particularmente só recebo pagamentos nacionais por depósito ou transferência bancária e internacionais pelo PayPal. Desconheço tradutores que utilizem outra forma de pagamento nacional, como cartão de crédito ou boleto.
  6. Devo estipular um prazo de entrega do serviço de quantos dias ou baseado em quê?
    Isso dependerá totalmente de você. Você precisa saber sua produtividade diária para estipular o prazo de entrega. Se você ainda não tiver absolutamente nenhuma ideia de qual seja sua produtividade diária e precisa estipular um prazo, sugiro que considere cerca de 1.500 a 2.000 palavras por dia. No início, é melhor pecar pelo excesso de cuidado do que pela falta dele e acabar não conseguindo cumprir o prazo, prejudicando sua imagem. Sempre inclua um ou dois dias a mais no prazo, a fim de evitar eventuais problemas. Quando tiver outros projetos em andamento, considere-os também. Aliás, há vários outros fatores a serem considerados, como o par de idiomas (versão ou tradução?), a área do material, o tipo de arquivo, a ferramenta a ser utilizada, se houver, além de outros fatores, como feriados, fins de semana, etc.
  7. A entrega do material traduzido deve ser feita impressa ou digitalizada?
    A tradução só é entrega impressa no caso de traduções juramentadas. Em todos os demais casos, o recebimento e a entrega dos arquivos são feitos por email ou outra forma de envio online.
  8. Você acha que é importante fazer estágio em uma empresa de tradução ou apenas a experiência da prática já é suficiente?
    Eu acredito que qualquer tipo de experiência seja de extrema importância para o aprendizado pessoal. Um não desmerece o outro, mesmo porque o estágio não deixa de ser uma experiência prática. No entanto, é preciso ter cuidado com o termo “estágio”. Contanto que ele seja remunerado, não há problema. Jamais aceite trabalhos não remunerados, exceto se forem voluntários e por uma causa.
    O que normalmente acontece é que muitas pessoas começam trabalhando dentro de agências exatamente por não encontrarem oportunidades como freelancer no início. Algo que também é válido, pois se aprende muito dentro de agências.

Essas eram as perguntas (um pouco reformuladas). Espero ter conseguido responder claramente a elas e que eu tenha ajudado a pessoa em questão, assim como outras.

Outras dúvidas?