Guest post: Boas práticas de interpretação

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Crédito: rawpixel, em Unsplash

Educar clientes de interpretação simultânea: mito de Sísifo ou oportunidade para fortalecimento de laços?

O convite da querida colega Caroline Alberoni para que eu escrevesse um post a ser publicado neste blog, um dos meus favoritos sobre tradução e interpretação, fez com que eu fosse confrontada com os seguintes desafios: medo da rejeição, writer’s block e dificuldade de escolher um tema. Caro leitor, se você está lendo este texto agora, isto significa que, desta vez, consegui vencer o medo, o writer’s block e escolher um tema a ser discutido, ainda que eu esteja chovendo no molhado.

A motivação para escolher esse tema é constatar que o trabalho de educar nossos clientes recomeça a cada solicitação de orçamento apresentada, mesmo quando se trata de clientes antigos. Por muito tempo, eu ficava frustrada por precisar educar clientes, tanto os novatos quanto os veteranos em contratação de serviços de interpretação simultânea, sobre nossas boas práticas. Sentia que explicar e defender nossas práticas de mercado se assemelhava muito à tarefa de Sísifo. O mito de Sísifo, pertencente à mitologia grega, resulta da punição póstuma a Sísifo por traição aos deuses. Na terra dos mortos, ele era obrigado a empurrar uma pedra até o lugar mais alto da montanha, de onde ela rolaria de volta ao ponto inicial. No passado, eu costumava sentir que, por mais que façamos o trabalho de explicar e ensinar as boas práticas do setor, ele nunca, de fato, termina. Além de achar que essa era uma experiência penosa e enfadonha.

Nos últimos meses, me esforcei para mudar a minha atitude com relação à maneira de explicar as boas práticas aos clientes. Em vez de reagir com o pensamento “Lá vem o cliente que não entende do mercado de interpretação querendo reinventar a roda”, comecei a pensar “Vou usar meus melhores argumentos e fazer referência à nossa associação profissional ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores) e ao SINTRA (Sindicato Nacional dos Tradutores) para defender as boas práticas do mercado e ter uma negociação favorável a ambas as partes com garantia de boas condições de trabalho para a equipe de intérpretes”. Essa mudança de atitude fez com que eu passasse a ver o momento de educar os clientes como uma oportunidade para fortalecer meus laços com os contratantes em potencial. Tomei as seguintes atitudes nas situações detalhadas abaixo:

1. Argumento do cliente: não preciso de um profissional, só de uma pessoa que seja fluente em português e inglês

Atitude passada orientada pela perspectiva da tarefa de Sísifo (resposta por e-mail): “Sou plenamente qualificada para atender às necessidades do seu evento.”

Atitude presente orientada pela perspectiva de fortalecimento de laços (resposta por e-mail e contato telefônico para reforçar a mensagem do e-mail): “O evento tem valor estratégico para o posicionamento da sua empresa dento de seu setor de atuação. Portanto, é importante garantir a qualidade da mensagem a ser passada ao público que precisa da interpretação simultânea. Intérpretes profissionais são fundamentais para mediar a comunicação entre pessoas que não são fluentes nos mesmos idiomas. Conte com meus serviços de intérprete de conferências profissional para atender às necessidades de comunicação do evento.”

Resultado: orçamento aprovado e evento agendado.

2. Argumento do cliente: Não preciso de um profissional… ser fluente nas duas línguas é o suficiente, pois a reunião para divulgar o produto será superinformal

Atitude passada orientada pela perspectiva da tarefa de Sísifo (resposta por e-mail): “Ser fluente em duas línguas não qualifica uma pessoa a trabalhar bem como intérprete.”

Atitude presente orientada pela perspectiva de fortalecimento de laços (resposta por e-mail e contato telefônico para reforçar a mensagem do e-mail): “O momento de apresentação de um produto para clientes em potencial é único e merece planejamento esmerado em todos os detalhes, desde a montagem da lista de convidados até a escolha do buffet. Logo, um evento tão bem preparado será mais eficaz com o trabalho de intérpretes de conferência profissionais para servir como pontes de comunicação entre pessoas que não falam a mesma língua. Minha empresa está apta a oferecer os serviços de interpretação simultânea necessários ao sucesso do seu evento.”

Resultado: negociação interrompida.

3. Argumento do cliente: a interpretação dura apenas 4 horas, um intérprete sozinho dá conta

Atitude passada orientada pela perspectiva da tarefa de Sísifo (resposta por e-mail): “É contra a praxe dos intérpretes de conferência, segundo recomendação do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA), trabalhar sozinho por períodos superiores a 1 hora em conferências e 2 horas em acompanhamentos externos.”

Atitude presente orientada pela perspectiva de fortalecimento de laços (resposta por e-mail e contato telefônico para reforçar a mensagem do e-mail): “De acordo com a recomendação do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA), intérpretes devem trabalhar sozinhos por um tempo limite de 1 hora em conferências e 2 horas em acompanhamentos externos. Essa recomendação é resultado de estudos que comprovam queda de desempenho dos intérpretes e perda da qualidade da mensagem após os períodos citados acima. Dessa forma, para garantir a qualidade da comunicação no evento, é necessário que dois intérpretes trabalhem em revezamento.”

Resultado: orçamento aprovado, evento agendado e fidelização do cliente que contratou os serviços tanto em 2017 quanto em 2018.

4. Argumento do cliente: não há diferença de tarifa para contratação de 2 ou 6 horas de trabalho?

Atitude passada orientada pela perspectiva da tarefa de Sísifo (resposta por e-mail): “Em consonância com a recomendação do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA), a tarifa de interpretação simultânea cobre até 6 horas de trabalho e é indivisível.”

Atitude presente orientada pela perspectiva de fortalecimento de laços (resposta por e-mail e contato telefônico para reforçar a mensagem do e-mail): “Além da recomendação do Sindicato Nacional de Tradutores (SINTRA) para que a diária de interpretação simultânea contemple até 6 horas indivisíveis de trabalho, é importante lembrar que quando um cliente solicita uma reserva de agenda para mim, deixo de atender outros clientes em potencial para atender o cliente que fez a reserva. Simplesmente não ’encaixo’ dois ou mais clientes ao longo de um dia de trabalho. Portanto, a diária fica inalterada se o período de trabalho efetivo for inferior a uma jornada de 6 horas indivisíveis.”

Resultado: orçamento aprovado, evento agendado e fidelização do cliente que contratou os serviços tanto em 2017 quanto em 2018.

5. Argumento do cliente: seu orçamento está muito caro, poderia recomendar uma pessoa que cobre menos que você? Não precisa ser profissional… só ser fluente em português e inglês

Atitude passada orientada pela perspectiva da tarefa de Sísifo (resposta por e-mail): “O orçamento apresentado se coaduna com a recomendação do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA) e prevê a devida emissão de nota fiscal bem como o recolhimento de todos os encargos devidos.”

Atitude presente orientada pela perspectiva de fortalecimento de laços (resposta por e-mail e contato telefônico para reforçar a mensagem do e-mail): “Obrigada pelo posicionamento com relação ao orçamento apresentado. Neste link, você encontra o diretório de associados da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES): https://abrates.com.br/buscar-tradutores/. Esse diretório é uma boa ferramenta para que você possa entrar em contato com outros intérpretes de conferência profissionais. Caso opte pela contratação da minha empresa para prestação dos serviços, o orçamento apresentado anteriormente permanece válido pelos próximos 30 dias.”

Resultado: negociação interrompida.

 A despeito de ouvir questionamentos muito similares de clientes diferentes e de ter o sentimento de repetir o mesmo trabalho de educar os clientes a cada solicitação de orçamento, repetindo a metáfora do mito de Sísifo, hoje vejo com clareza que, quando nossos clientes questionam as práticas do nosso setor de atuação, temos a oportunidade de melhorar a qualidade da nossa comunicação com aquele cliente e, principalmente, fortalecer os laços profissionais com aquele contratante. Todos os argumentos de clientes citados acima foram úteis para que eu mudasse minha atitude e conseguisse manter conversas telefônicas e trocas de e-mail úteis para o cliente no sentido de oferecer melhor entendimento sobre o trabalho e as práticas dos intérpretes de conferência profissionais.

Sobre a autora
2018 06 RoBelinky ABRATES-9Rane Souza é intérprete, tradutora e professora de inglês e português para estrangeiros. No âmbito do magistério, ministra aulas particulares prioritariamente para adultos. No mercado de tradução escrita, atua principalmente nos segmentos editorial, tendo vertido ao inglês as obras Abrolhos Terra e Mar, de Rafael Melo (Editora Bambalaio, 2017) e Ver, de Antônio Bokel (Editora Réptil, 2017); e jurídico, com foco na tradução e versão de contratos. Como intérprete de conferências, trabalha nos mercados corporativos privados e do terceiro setor.

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Guest post: Organização e produtividade

Bem-vindos de volta à série de publicações convidadas! Neste mês, tenho a honra de receber um colega de trabalho, profissional incrível que muito ajudou os tradutores durante sua passagem pela Abrates como diretor e presidente e ser humano exemplar que tenho o orgulho de chamar de amigo.

Bem-vindo, William!

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Foto de Emma Matthews, disponível em Unsplash

Vamos conversar um pouquinho sobre produtividade, qualidade de vida e organização?

Responda rápido: se você tem um trabalho pequeno que, pela sua experiência, não deve demorar mais que duas horas para ser feito, com prazo de cinco dias para a entrega, quando você começará a cuidar desse serviço?

Se você disse: “Imediatamente, mas vou parar sempre que houver uma notificação de mensagem no computador ou no celular, afinal, tem tempo de sobra para terminar e esse trabalho nem é tão grande assim, já conheço bem o assunto que esse cliente traduz, enfim, não tenho motivos para me preocupar.” Não se sinta só e leia o artigo.

Se sua resposta foi: “Na manhã do último dia do prazo, eu abro o arquivo e traduzo, não quero acostumar mal o cliente entregando muito antes do prazo. Tradução não é disque-pizza, e o cliente não vai valorizar meu trabalho se eu entregar mais rápido, vai pensar que é fácil de fazer.” Saiba que muitos tradutores e outros profissionais autônomos também pensam exatamente assim. Novamente, não se sinta só, mas leia este artigo. Leia agora.

Se respondeu que começará imediatamente e entregará ainda hoje, você faz parte de uma minoria muito disciplinada. Mas continue lendo. Tenho algumas dicas para você também.

Por que protelamos? Você sabe que tem o que fazer, sabe que tem um prazo, tem ideia de quanto tempo pode demorar para fazer, mas assume a postura do “tá tranquilo, tá tudo certo, tenho tudo sob controle”. A resposta para essa pergunta, no meu caso, foi: isso acontece porque você não tem uma rotina organizada e perde o foco com frequência.

Ter uma rotina organizada é fundamental para que você esteja no controle não só do trabalho, mas de todo o seu tempo. Eu sei, eu sei, disso você já sabia, mas o problema é colocar em prática a organização, é se habituar a ter uma agenda, uma estratégia para definir prioridades e até para decidir o que não precisa de sua atenção e deve ser deixado de lado. Porque sim, há coisas que você pode deixar de fazer, e elas não causarão nenhum impacto negativo em sua vida. Durante o período em que trabalhei na Abrates, precisei aprender a me organizar para conseguir responder às muitas demandas da associação, às necessidades inerentes de nosso trabalho, como prospectar novos clientes, manter-me atualizado e, principalmente, dar atenção aos amigos e à família que, durante esse período, ainda me presenteou com meu primeiro neto.

Não foi fácil me organizar e melhorar o foco, mas foi menos difícil do que imaginei.

Algo muito importante que você precisa saber: ninguém se torna organizado de um dia para o outro, apenas lendo sobre o assunto ou simplesmente fazendo um curso. Organização é aprendizado e construção de hábitos. É um processo lento, mas sempre passível de melhoria. A definição que mais me agrada, tirada de alguns dos muitos livros e artigos que li, é: organização é um processo de redução e seleção. Você reduz a quantidade de eventos que realmente precisam de sua atenção e seleciona quais terão sua atenção com prioridade. Há muitas ferramentas para ajudar nesse processo. Tenho algumas dicas para quem quer começar a se organizar. Dicas simples, mas muito eficientes.

A primeira é: registre em que você gasta seu tempo. Você certamente ficará surpreso ao descobrir que desperdiça boa parte de seu tempo na frente do computador com coisas que não fazem parte de sua rotina de trabalho. Você pode fazer isso com papel e caneta ou instalar algum software que registre quais os programas, sites e outras atividades realizadas no computador e por quanto tempo. Se você usa Mac, minha sugestão é o Timing. Para PC, ouvi dizer que o Toggl é uma boa opção. Instale uma dessas ferramentas em seu computador e use-o normalmente por uma semana. Provavelmente, você descobrirá que redes sociais, mensageiros e e-mails são os vilões que mais roubam tempo dos profissionais freelancers. Você pode estar pensando: mas preciso “me desligar um pouquinho” para ser mais produtivo, ter uma válvula de escape… O problema é que essa válvula precisa estar bem regulada e só deve ser aberta nos momentos certos. No meu caso, o ideal é que essa válvula esteja em outro lugar, não no computador. Uma caminhada, uma conversa com o porteiro, uma série ou desenho animado na TV. Qualquer coisa que faça você se levantar da cadeira e se movimentar pode melhorar não só sua produtividade, mas também sua saúde.

A segunda dica é sobre definição de prioridades. Uma das ferramentas mais básicas e práticas para quem quer se organizar é a Matriz de Eisenhower. Creditada ao general e ex-presidente norte-americano Dwight Eisenhower, que precisava tomar decisões rápidas durante a Segunda Guerra, ela ajuda a definir em que colocar seus esforços, o que delegar, o que agendar e o que simplesmente não fazer. Recomendo começar sua jornada de organização por ela, pela facilidade e custo zero de implementação: papel e caneta resolvem a maioria dos casos. Um vídeo bem claro sobre esta ferramenta você encontra aqui.

Outra forma de se organizar é desenvolver fluxos de trabalho. Documente em uma lista a sequência de passos que você executa para realizar trabalhos com eficiência. Mesmo para aqueles trabalhos que você já faz de olhos fechados, escrever um fluxo de trabalho pode ajudar a perceber onde você está perdendo tempo e o que poderia melhorar. Além disso, você também pode perceber a oportunidade de automatizar algo em seu processo. Não se esqueça de que o computador deve trabalhar para você, e não o contrário.

Uma dica importantíssima que ignorei por muito tempo: dormir bem. É quase impossível manter o foco e ser organizado se você não dá a seu cérebro o descanso de que ele precisa. Desenvolva uma rotina para relaxar e se recuperar para o dia seguinte. Dormir sempre no mesmo horário faz com que seu corpo se prepare melhor e tenha mais facilidade para entrar no sono. O que fiz quando comecei a implementar essa rotina foi usar o despertador de forma inversa: colocava um alarme no meu celular para tocar às 22h30. Assim que ele tocava, eu começava a me preparar para dormir. Não foi preciso muito tempo para que isso se tornasse rotina. Claro, como dizem por aí: there’s an app for that! E você pode usá-los para monitorar e entender melhor seu sono. Atualmente, uso o Pillow, para iOS. Se você usa Android, ouvi boas recomendações do Sleep as Android, que oferece 14 dias de avaliação gratuita.

Para encerrar, três dicas rápidas:

  • E-mails são importantíssimos, mas também podem consumir boa parte de nosso tempo. Para manter o foco, desligue as notificações e defina um horário rígido para lidar com eles. Para alguns endereços para os quais você precisa responder rapidamente, crie notificações usando filtros.
  • Se você usa o Gmail, aprenda a usar filtros e respostas predeterminadas.
  • Descubra qual tipo de música melhora sua produtividade. Eu uso o Focus@Will, serviço que usa neurociência e realmente funciona para mim.

Há muitas ferramentas e métodos que prometem melhorar a produtividade e a organização. Não existe um método que funciona para todo mundo e você pode descobrir que parte de um funciona bem, parte de outro ajuda bastante, que você não suporta tal método… O ideal é testar e descobrir o que funciona para você. Organização e produtividade são pessoais.

Agradeço minha amiga Carol Alberoni por este convite e espero ter colaborado um pouco com sua produtividade e organização. Qualquer dúvida, estou à disposição.

Sobre o autor
William_AvatarWilliam Cassemiro tem 47 anos, é pai orgulhoso de duas filhas e avô-babão do Luquinhas. Foi diretor e presidente da Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes, Abrates, de 2014 a 2018, e participou ativamente da organização de cinco Congressos Internacionais da Abrates, com público médio de 600 participantes. Organizou diversos cursos pela associação, participou de congressos em outros países, palestrou no Brasil, Inglaterra e Uruguai. Sua primeira formação foi em Eletrônica, ramo em que atuou em grandes empresas de Tecnologia, como Xerox e SEMP Toshiba. É tradutor profissional de inglês para português, com Bacharelado em Letras pela Universidade de São Paulo. Na Abrates, considera seu maior feito a implementação do Programa de Mentoria da associação, que orienta tradutores e intérpretes em início de carreira.

Tradução e interpretação: inclusão de palavra em palavra – Parte 2

Caso ainda não tenha lido a primeira parte, acesse-a aqui.

Ainda no primeiro dia de palestras do congresso, após o coffee break, participei da mesa-redonda do Programa de Mentoria da Abrates, Caminho das Pedras, do qual orgulhosamente já fui coordenadora e ajudei a criar. O Programa de Mentoria foi idealizado pelo William Cassemiro, quando ainda era diretor da Abrates, e lançado em março de 2016. Hoje, o Comitê de Administração é composto pelos seguintes coordenadores: Carolina Ventura, Gisley Ferreira, Lidio Rodrigues e Sidney Barros Junior (não presente na mesa-redonda por motivo de força maior). Também fizeram parte da mesa um par de mentora (Ana Julia Perrotti-Garcia) e mentorada (Priscila Osório Côrtes), que contaram como foi sua experiência no programa, e a Monica Reis, que também ajudou a criar o programa.

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Mesa-redonda sobre o Programa de Mentoria da Abrates

O Programa de Mentoria é totalmente voluntário e gratuito, mas exclusivo para associados da Abrates. O programa já ajudou 55 mentorados desde sua criação. No momento, há nove pares em andamento. Os requisitos para ser mentorado são: ter até dois anos de experiência como tradutor/intérprete ou, caso não tenha experiência, estar cursando o último ano de um curso de letras/tradução/interpretação. Os requisitos para ser mentor são: ter pelo menos cinco anos de experiência como tradutor/intérprete. A duração de cada programa é de seis meses, e as reuniões são realizadas da melhor forma decidida entre o par de mentor e mentorado (presencialmente, Skype, e-mail, WhatsApp, etc.). As fichas de inscrição são analisadas por todos os membros do Comitê de Administração, que decidem em comum acordo se o candidato é qualificado ou não para o programa e, caso seja aprovado, quem é o mentor mais adequado ao perfil dele. Após essa decisão, o mentor recebe a ficha do possível mentorado e decide se concorda com a escolha ou não. Cada par é acompanhado por um coordenador (membro do Comitê de Administração). As metas a serem abordadas no programa são basicamente traçadas por cada mentorado com a ajuda do mentor. No entanto, é importante ressaltar que o programa não visa ensinar como traduzir, mas orientar sobre os aspectos práticos do mercado, que normalmente não são abordados pelos cursos da área.

A mentora Ana Julia Perrotti-Garcia já participou de três ciclos e relatou sua experiência: “Ganhei três grandes amigos e colegas de profissão”.

Para mais informações, acesse a página do programa no site da Abrates (link acima). Também há mais detalhes sobre o programa nesta publicação do blog.

Após o almoço, foi a vez da minha primeira apresentação, “Nem só de tradução vive o tradutor: acabando com o endeusamento do trabalho em excesso”, sobre a qual falarei em uma publicação separada. Aguardem!

Em seguida, foi a vez de Mark Thompson, com a apresentação “Menos heavy, mais leve. Pense no leitor alvo!” Mark, cuja língua materna é o inglês, falou sobre versões de português para inglês feitas por tradutores não nativos. Segundo ele, os seguintes adjetivos, entre outros, são usados para descrever essas traduções: long-winded, verbose, wordy, prolix, repetitive. Como vez ou outra faço versões, gostei muito de algumas dicas e soluções que ele deu para alguns termos difíceis de serem traduzidos, como “elaborar” (draft, formulate, detail, write, outline, design, etc.), “destacar” (highlight, stress, mention, emphasize, underline, etc.) e “desembolso” (spending, spend, expenditure, etc.). Dica dele ao verter do português para o inglês: não reproduza o português religiosamente e evite repetições desnecessárias.

O sábado foi concluído com a apaixonante palestra da grande Alison Entrekin, tradutora literária do português para o inglês, “Oombarroom: a reconstrução de Grande Sertão em inglês”. Como o próprio nome da palestra diz, Alison está atualmente trabalhando em uma nova versão da grande obra de João Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas, para o inglês, com o apoio do Itaú Cultural. Australiana, Alison mora no Brasil há mais de 20 anos e nos deleita com um português perfeito: “É a primeira vez que falo para um público de tradutores”. Que honra! Segundo ela, além de ser um livro extenso, com cerca de 600 páginas, a densidade dele é ainda maior. Menciona Haroldo de Campos, que afirmou que traduzir Grande Sertão é um processo de transcriação no qual perde-se de um lado, mas ganha-se de outro, e no qual o grande protagonista é a língua. Quanto à sua imensa responsabilidade nesse longo projeto, Alison diz que “só” tem “que traduzir para um inglês universal e inexistente”. Baba de moça, não é? Tradutora de grandes obras da língua portuguesa, como Cidade de Deus, de Paulo Lins, Budapeste, de Chico Buarque, e Meu Pé de Laranja Lima, de José Mauro de Vasconcelos, Entrekin conseguiu nos encantar com seu amor pela língua portuguesa e o carinho e atenção que dedica não só a Grande Sertão: Veredas como a todas as obras que traduz. Ela é capaz de despertar o amor pela literatura e pela tradução literária até nos menos interessados.

Dica: a Alison já fez parte da série de entrevistas Greatest Women in Translation deste blog. Leia aqui.

No domingo, último dia do congresso, minha primeira palestra do dia foi “Novas ferramentas de auxílio à tradução e sua performance”, por Marcelo Fassina. Marcelo começou afirmando que MT (tradução automática) não é mais tendência, já é a realidade. Os clientes de serviços de linguagem, provedores de tecnologia, linguistas (nós) e LSPs (Language Service Providers) precisam trabalhar em conjunto nessa nova realidade tecnológica, segundo Fassina. Precisamos começar a abraçar as novas tecnologias e nos especializar cada vez mais. Lugares para bons profissionais sempre existirão no mercado, e a alta especialização será o que diferenciará os tradutores das máquinas. Além de diversidade e inclusão, eis aqui outra palavra que ouvi muito em todo o congresso: “especialização”.

Em seguida, assisti à palestra do Reginaldo Francisco e do Roney Belhassof, “Tradução saindo da torneira?” Criadores do projeto Win-Win, os dois falaram sobre a evolução e as tendências do mercado de tradução. Achei extremamente interessante e relevante a menção que fizeram a uma declaração publicada no site do congresso de 2013 da TAUS (tradução livre minha): “A tradução está se tornando um serviço de utilidade pública, como eletricidade, internet e água, que são serviços de que precisamos no dia a dia, sem os quais nos sentiríamos perdidos. Esses serviços estão sempre disponíveis, inclusive em tempo real, se necessário.” Segundo Reginaldo e Roney, a tradução faz parte do processo de construção cultural e linguística da humanidade.

Ainda não conhece o projeto Win-Win? Acesse o site (link acima) e saiba mais sobre essa iniciativa de democratização da tradução.

Infelizmente, tive que sair da apresentação dessa dupla dinâmica antes do término, pois, em seguida, foi minha segunda apresentação do congresso, “Gerenciamento e curadoria de redes sociais para tradutores”, sobre a qual também falarei em outra publicação separada em breve. Aguardem!

Neste ano, o encerramento do congresso foi antecipado, pois o Brasil estreou na Copa do Mundo contra a Suíça na parte da tarde. No entanto, além de exibir o jogo em um local dedicado especialmente aos torcedores, a Abrates também ofereceu palestras breves, estilo TedTalks, durante o jogo para aqueles que não são fãs de futebol.

Assim como a abertura, o encerramento também foi inovador e inclusivo, com uma palestra apresentada em Libras (Língua Brasileira de Sinais) e interpretada em português e inglês! A professora Marianne Stumpf, da UFSC (Universidade Federal de Santa Catarina), deu um show de simpatia com a apresentação “Tradutores surdos: experiências em processos de tradução para Libras”. Fiquei impressionada com o tanto que a comunicação em Libras é bem mais rápida que a comunicação oral! Foi uma experiência incrível para sentirmos um pouco na pele como é ser surdo. Segundo a professora, a visibilidade do intérprete de Libras é maior que a do intérprete comum, tornando a estética e a vestimenta detalhes importantes, pois influenciam na interpretação. Ilustrando a diferença entre as línguas de sinais de diferentes países, Stumpf nos contou que, por exemplo, o sinal que fazemos com o dedo médio, que é uma ofensa aqui no Brasil, significa “férias” na língua internacional de sinais. O número total de alunos surdos no Brasil é de 5,7 milhões, desde a educação básica até cursos superiores.

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Marianne Stumpf. Crédito: Renato Beninatto.

Desde o congresso realizado em Belo Horizonte, em 2013 (que, aliás, foi o ano de criação deste blog), não perco uma edição. O congresso já teve um número recorde de participantes (quase 900, em 2015, em São Paulo), localizações diferentes (como a de Belo Horizonte), palestras memoráveis (abertura com Leandro Karnal, no ano passado, em São Paulo), mas essa edição foi linda! O William Cassemiro, que ocupou o cargo de presidente de 2016 a este ano, encerrou seu mandato e seu lindo trabalho na associação com chave de ouro. Deu um show de inclusão e lição de vida a todos nós com as palestras de abertura e de encerramento. A Abrates sempre é sinal de inovação. Foi a primeira a fornecer interpretação simultânea e de Libras em seus congressos. Agora inovou mais uma vez com dois palestrantes negros de abertura, um homem e uma mulher, e uma palestrante em Libras no encerramento. Tenho muito orgulho de ser membro de uma associação que se preocupa também com a humanidade, a diversidade e a inclusão.

Agora, quem assume o cargo de presidente por dois anos é o Ricardo Souza. E ele já disse que o próximo congresso, que será realizado no ano que vem (data a ser definida) em São Paulo, promete, pois, além de ser a 10ª edição, será o aniversário de 45 anos da Abrates. Mal posso esperar!

Não perca estes outros relatos:
O início, o fim e o e-mail, por Maíra Monteiro
Resumo do 1º dia do Congresso da ABRATES, por Rayza Ferreira (também há a 2ª e 3ª partes)
Diversidade e inclusão, pautas de toda profissão, por Carolina Walliter

Guest post: Os estudos de gênero e a tradução

Bem-vindos de volta a mais uma publicação convidada!

Hoje tenho o prazer de receber uma colega que faz um trabalho incrível e interessantíssimo com estudos de gênero. E é claro que eu não poderia deixar de convidá-la para escrever sobre isso aqui no blog, não é mesmo? Espero que gostem.

Seja bem-vinda, Graziele!

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Foto de Vanessa Serpas disponível em Unsplash

A tradução e os estudos de gênero: o papel político e cultural da linguagem

A questão de gênero tem sido um tema recorrente nos meios de comunicação em massa e mídias sociais recentemente. Temas como violência de gênero e feminicídio, assédio sexual, etc. cada vez mais ganham destaque e são alvos de muita discussão. A visita ao Brasil da filósofa norte-americana Judith Butler, referência no campo de estudos de gênero, é um exemplo dos impactos sociais deste debate. As acusações de pregação de uma suposta “ideologia de gênero”, dirigidas à filósofa, dão o tom de uma percepção moral que alguns setores da sociedade demonstram diante do debate de gênero. Partindo do princípio de que essa ideologia seria contrária a certos valores morais e tradicionais da família, esses setores, entre acusações e ameaças, causaram muita comoção e discussões calorosas sobre gênero. Mas afinal, o que é gênero e o que significa estudar gênero? E o que gênero tem a ver com tradução?

Os estudos de gênero nasceram muito próximos do movimento feminista nos Estados Unidos nos anos 1960, quando questões como o papel da mulher ganharam destaque. No entanto, é importante ressaltar que a questão de gênero não se restringe a feminino e masculino, mas também incorpora a transgressão de gênero, pessoas que não necessariamente se encaixam no binário mulher e homem. Portanto, ao tratar-se de problemáticas relacionadas a gênero, é fundamental ter em mente que ele não se restringe a questões relacionadas somente à mulher e ao homem.

O conceito gênero enquanto ferramenta analítica e de pesquisa amplia discussões relacionadas a política, cultura e sociedade no geral. Portanto, do ponto vista teórico, não se restringe a aspectos morais ou a opinião pessoal de pesquisadores e pesquisadoras. Ele parte do princípio de que gênero é uma construção social e, por isso, varia dependendo do contexto socioeconômico de cada sociedade. Sendo assim, a inserção de gênero enquanto categoria central da pesquisa abriu espaço para novas perguntas na produção acadêmica: como questões de feminidade e masculinidade são entendidas em cada sociedade? Como eles são perpetuados ao longo de gerações e quais as consequências? Como gênero, raça, classe, nacionalidade, religião, sexualidade, etc. se interseccionam? E como as configurações de poder são definidas nesse contexto? Como a globalização muda o entendimento e o significado de gênero?

Nesse sentido, a linguagem usada para responder a essas perguntas desempenha um papel extremamente crítico, ou seja, pode impactar, em alguma medida, as percepções que os sujeitos e grupos sociais naturalizam. Uma das questões mais proeminentes no campo é o uso de palavras neutras que rompam com o binário mulher e homem. Isso ocorre especialmente no caso de idiomas como o português, em que se costuma usar o gênero linguístico masculino para generalizar grupos. Essa escolha no atual contexto tem um significado político e cultural. Por muito tempo, a voz de grupos marginalizados na sociedade, como mulheres, homossexuais, negros, transgêneros, foi desconsiderada e/ou apagada da história, da ciência e da política. Por isso, existe um esforço de se repensar a linguagem e o que ela representa, dando espaço para que esses grupos escolham as palavras com as quais eles se identificam. Essa escolha, por mais simbólica que possa parecer, abre espaço para a discussão do significado e da escolha de determinado termo. Por exemplo, na minha dissertação do mestrado, eu escolhi usar a palavra “mulata” em vez de “mulato” ou ainda “mulatx/mulat@” quando eu me referia a essa categoria no geral, pois analisei diversas propagandas usadas para a promoção turística do Brasil, nas quais o corpo da mulher cisgênero foi usado extensivamente. Essa foi uma escolha pensada e que visou ressaltar e criticar a exploração de um grupo social específico nesse projeto.

A tradução desempenha um papel importante nesse contexto, impulsionada especialmente pelo transnacionalismo das instituições, sejam elas públicas e/ou privadas. Desse modo, e como já discutido muito na indústria, não basta apenas o conhecimento linguístico do idioma, mas também socioeconômico e cultural dos idiomas a serem traduzidos. Especialmente nas traduções de negócios, marketing e conteúdos sociais, localizar e adaptar o conteúdo para o público-alvo é um dos maiores desafios do tradutor de modo que o significado político da linguagem não seja ignorado. No campo da pesquisa, a tradução é fundamental para a realização de estudos envolvendo grupos sociais que não falam o mesmo idioma. Seja na coleta de dados ou na tradução de artigos científicos, a escolha dos termos usados deve ser pensada cuidadosamente, pois eles não necessariamente apresentam a mesma conotação, muitas vezes nem existindo em determinados contextos, podendo inclusive impactar o resultado de pesquisas científicas.

Por fim, o tradutor deve estar ciente de sua responsabilidade social, política e cultura na manutenção ou não de formas de pensamentos existentes. Pesquisar tem o potencial de evitar muitas dessas questões. Afinal, a tradução, assim como a linguagem, tem o poder de unir diferentes povos e abrir canais de comunicação antes não existentes.

Sobre a autora
picGraziele Grilo tem bacharelado em Ciências Políticas pela UNICAMP e acaba de concluir o mestrado em Estudos de Gênero pela Towson University (EUA). Sua dissertação foi na área de gênero, política, raça e turismo no Brasil. Também se interessa muito pela atual crise mundial de refugiados. Acaba de auxiliar na criação, além de participar ativamente, de um projeto com alunos de ensino médio refugiados da África e Oriente Médio, que visou utilizar as artes como meio de expressão e ativismo para esses alunos, em um contexto no qual o idioma pode ser barreira na comunicação. Atua como tradutora freelance desde 2012 nos idiomas português, inglês e espanhol. É torcedora do São Paulo Futebol Clube, ama Pearl Jam e se aventurar na cozinha.
Contato: trad.gragrilo@gmail.com
LinkedIn: Graziele Grilo

 

From ConVTI to you

We have agift for you!

Photo by rawpixel.com on Unsplash, edited on Canva

Português abaixo. Español abajo.

We’ve got gifts!

This blog and my translation podcast, TradTalk, were proudly chosen as the channels to officially launch ConVTI last month. Now the lovely organizers of this innovative event, Márcia Nabrzecki and Gio Lester, decided to kindly offer 1 free registration and a 20% discount to 10 of my followers as a sign of appreciation for our warm welcome. Isn’t that amazing?

If you missed the launch or does not even know what I am talking about, stop! Read about it here and feel free to watch/listen to the podcast interview (in Portuguese) here before proceeding. You can also visit the event’s website (link above) for more information. Also take the chance to connect with them on Facebook, Twitter, and YouTube.

Moving on to our lovely gifts…

Draw of 1 free registration

Fill out this brief form (also available on the bottom of this page) to join the draw. It’s that simple.

The draw will be held on August 14, 8 a.m. (EST). The lucky winner will be announced here on the blog, and the post will be shared on the event’s social media channels and mine.

20% discount to 10 followers

The first 10 followers who leave a comment below will win 20% of discount, paying only US$60. Ready, set, go!

Important: Should you be interested in the discount, leave a comment below even if you fill in the form for the draw and/or we reach 10 comments. Should the draw winner be one of the first 10 people to comment below, his/her discount will be transferred to the 11th commenter.

This is your chance to watch great talks by big names in translation, such as Paula Arturo, Jost Zetzsche, Kirti Vashee, Barry Olsen, from the comfort of your home sweet home (office) at a fraction of what you would spend with a usual conference. So don’t wait! Comment below and fill out the form.

Attention: You must be a translator, interpreter, dubber, subtitler, or other translation-related professional; or a student of any course related to any of these professions to participate. Comments and forms by random people will not be eligible to participate.

Good luck, dear followers!


Ganhamos presentes!

Como o Carol’s Adventures in Translation e meu podcast TradTalk foram os canais oficiais de lançamento do ConVTI, as queridas Márcia Nabrzecki e Gio Lester, organizadoras do evento, decidiram, em agradecimento, gentilmente oferecer 1 inscrição gratuita para o evento e 10 descontos de 20% para meus seguidores, vocês! Isso não é incrível?

Caso vocês tenham perdido a divulgação e nem saibam do que se trata, pare agora! Leia aqui a publicação (em inglês) no blog, assista/ouça aqui a entrevista que fiz com a Márcia para o podcast e acesse o site (link acima) para mais informações. Não deixe também de seguir o evento nas mídias sociais: Facebook, Twitter e YouTube.

Agora, sim, vamos ao que interessa: como participar.

Sorteio de uma inscrição gratuita

Para participar do sorteio, basta preencher este formulário (também disponível na parte inferior desta página) com seu nome, sobrenome e endereço de e-mail. É rápido e simples.

O sorteio será no dia 14 de agosto, às 9h (horário de Brasília). O ganhador será divulgado aqui no blog, e a publicação será compartilhada nas redes sociais minhas e do evento.

Desconto de 20% para 10 seguidores

É simples: os 10 primeiros seguidores que comentarem abaixo, aqui mesmo nesta publicação, ganharão um desconto de 20% no valor da inscrição, pagando apenas US$ 60,00 cada um. Valendo!

Importante: caso queira aproveitar o desconto, não deixe de comentar abaixo, mesmo se inscrevendo para o sorteio e/ou se atingirmos os 10 comentários. Caso o ganhador do sorteio seja um dos 10 primeiros a deixar um comentário, seu desconto será transferido para a 11ª pessoa que comentar.

Esta é sua chance de assistir a palestras incríveis de grandes nomes nacionais e internacionais da tradução, como Paula Arturo, Jost Zetzsche, Kirti Vashee, Barry Olsen, sem sair do conforto da sua casa ou do seu home office e economizando! Portanto, comente abaixo e preencha o formulário.

Atenção: é preciso ser tradutor, intérprete, dublador, legendador ou outro profissional relacionado à tradução; ou aluno de um curso relacionado a uma dessas profissões. Comentários e formulários de pessoas aleatórias não serão considerados.

Boa sorte, queridos!


¡Tenemos regalos!

Como Carol’s Adventures in Translation y mi podcast TradTalk fueron los canales oficiales de lanzamiento de ConVTI, las queridas Márcia Nabrzecki y Gio Lester, organizadoras del evento, decidieron amablemente ofrecer, como agradecimiento, 1 inscripción gratuita para el evento y 10 descuentos de 20% para mis seguidores: ¡ustedes! ¿No les parece increíble?

Si se perdieron la divulgación y no saben de qué se trata todo eso, ¡paren un minuto! Lean aquí la publicación (en inglés) del blog, vean/escuchen aquí la entrevista que le hice a Márcia para el podcast (en portugués) y visiten la página (link arriba) para obtener más información. Además, no dejen de seguir el evento en las redes sociales: Facebook, Twitter y YouTube.

Ahora sí, vamos a los que nos interesa: cómo participar.

Sorteo de una inscripción gratuita

Para participar en el sorteo, basta completar este formulario. Es rápido y fácil.

El sorteo será el día 14 de agosto, a las 9 h (hora de Brasilia). El ganador será anunciado aquí en el blog, y la publicación será compartida en mis redes sociales y las del evento.

20% de descuento para 10 seguidores

Es fácil: los 10 primeros seguidores que hagan un comentario abajo, aquí mismo en esta publicación, ganarán un 20% de descuento del valor de la inscripción, solo pagarán U$ 60,00 cada uno. ¡Ya empezó!

Importante: si quieres aprovechar el descuento, deja tu comentario aquí abajo, aunque también te inscribas para el sorteo y/o lleguemos a los 10 comentarios. Si el ganador del sorteo es uno de los 10 primeros que dejan un comentario, el descuento será transferido al 11º que haya comentado.

Es tu oportunidad para ver ponencias increíbles de grandes nombres nacionales e internacionales de la traducción, como Paula Arturo, Jost Zetzsche, Kirti Vashee, Barry Olsen, ¡sin salir de la comodidad de tu casa o tu home office y ahorrando! Así que, deja tu comentario aquí abajo y completa el formulario.

Atención: es necesario ser traductor, intérprete, doblador, subtitulador o profesional relacionado con la traducción; o alumno de algún curso relacionado con una de estas profesiones. Los comentarios y formularios de personas ajenas al sector no serán considerados.

¡Buena suerte, queridos!

 

Guest post: Paixão pela tradução

Sejam bem-vindos de volta, queridos leitores!

A ordem das publicações foi trocada este mês. Não se preocupem! A série de entrevistas Greatest Women in Translation será publicada na próxima segunda-feira, dia 10. 😉

Hoje tenho a honra de receber uma pessoa querida que acabou se tornando uma grande amiga. Seguidora assídua do blog, tive o prazer de conhecê-la pessoalmente no ano passado. Além de ser uma pessoa incrível, de coração imenso, é também, como é de se esperar de pessoas incríveis, uma profissional competentíssima, apaixonada pela tradução.

Seja bem-vinda, Sil!

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Fonte: Unsplash

Sobre a alegria de estudar e trabalhar com o que se gosta

Bom, este não é um texto sobre especificidades da tradução, mas sobre a paixão que todos têm (ou passam a ter) quando se envolvem com essa área. Quando a Caroline me convidou para escrever, eu já era leitora assídua aqui do blog desde 2014. Foi quando a conheci na Semana do Tradutor da UNESP, uma das melhores edições do evento, em minha opinião! Por isso, eu fiquei um pouco insegura, porque não atuo como freelance há algum tempo e acabaria sendo mais emocional do que profissional. Mas, inspirada no post da Giulia Carletti, Translation lets you be everything you want to be, aceitei o convite, e este é um post sobre como a tradução me motiva e me faz feliz.

Quando terminei a graduação em Letras nos anos 90, não se ouvia falar sobre tradução na universidade, e eu também não sabia que gostava da área e nem que podia estudá-la. Como eu não me encaixava nas linhas de pesquisa oferecidas no mestrado, decidi me dedicar às aulas como professora de inglês. Mas, lembro-me de várias situações em que eu tentava convencer algum aluno de que aquela frase do resumo ficaria muito literal no abstract e perderia o sentido se fosse traduzida como ele queria ou ainda que a letra daquela música não teria sentido se não invertêssemos a estrutura da frase. Era difícil convencer os alunos, mas eu amava estar ali, tentando explicar tudo isso.

Alguns anos depois, mudei-me para Florianópolis e decidi voltar a estudar. Fui pra UFSC. Procurando alguma linha de pesquisa que me motivasse, soube que iria abrir um programa de pós-graduação em estudos da tradução – a PGET. Lembro como se fosse hoje quando eu falei: “Tradução! É isso!” Era o que eu queria fazer. Eu já trabalhava como freelance para uma agência e estudar o que eu tinha como profissão era tudo o que eu queria! Amei cada minuto na PGET porque a tradução me completava e encantava e me fascinava cada dia mais.

Hoje sou professora em um curso de licenciatura em letras e meu objetivo maior tem sido compartilhar com os alunos o que é traduzir e ser tradutor. Digo isso porque muitos deles, apesar de o curso ter como foco a formação docente, acabam atuando como tradutores (e até intérpretes) sem ter conhecimento da profissão. Já outros dizem que a tradução não agrega nada à carreira docente. No entanto, a tradução está presente em muitos momentos em sala de aula: muitos tradutores também são professores, e uma profissão não exclui a outra.

Mas sou insistente. Compartilho questões da prática, mercado, blogs, sites, exercícios, teorias, enfim, questões que eu sei que farão a diferença em algum momento da vida deles. Para os que são flexíveis a ponto de encarar o desafio de estudar e praticar tradução, os resultados têm sido bastante positivos: alguns TCCs já defendidos, um encontro anual sobre tradução, promovo palestras com tradutores nas aulas, um grupo de pesquisa, pequenos projetos de tradução em sala… E tudo o que eu espero são alunos mais conscientes sobre o papel e a singularidade do ato de traduzir. Tudo isso me traz uma única certeza: a tradução foi e é a melhor escolha que eu poderia ter feito pra mim. E assim se faz o caminho, ao andar, como diria o poeta Antônio Machado: sigo como tradutora voluntária, professora e admiradora dos amigos e colegas que fazem da tradução um caminho real e possível.

Sobre a autora
silSilvana Ayub é graduada em letras, artes plásticas e comércio exterior. Tem pós-graduação em estudos da tradução pela PGET–UFSC. Já foi freelance, hoje é voluntária. Queria ser comissária, mas, por ser baixinha, não conseguiu. Queria ser arquiteta, mas a matemática sumiu. É 50% curitibana e 50% florianopolitana, professora de inglês e tradução em Curitiba. Gosta de culinária e aprecia um bom café e uma boa conversa. Desistiu do Facebook e não se arrepende, mas responde a e-mails com relativa rapidez. Pode escrever, se quiser: sil-in-sc@uol.com.br

Tradução como ferramenta de ensino

Sejam bem-vindos de volta, queridos leitores!

Hoje temos mais uma tradução parte da parceria do blog com a UTFPR. Esta é a segunda tradução da aluna deste mês, a Débora França de Oliveira. E a tradução de hoje é da publicação da convidada Tammy Bjelland, Translation as a teaching tool.

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Fonte da imagem: Unsplash

A tradução é um assunto que pode ser controverso quando se trata do ensino de línguas, mas como professora de idiomas, alguns dos melhores e inesquecíveis momentos pedagógicos vieram com o uso da tradução no ensino.

O uso da tradução em sala de aula com turmas de nível básico a intermediário é contraprodutivo, pois faz com que os alunos acreditem que toda língua tem uma palavra ou ideia equivalente em sua língua de destino, o que todo tradutor (e professor de idiomas!) sabe que está longe de ser verdade. Porém, pode ser difícil evitar completamente a tradução com alunos de níveis iniciais, especialmente quando se trata de adultos, visto que já são capazes de se expressar empregando um vocabulário mais sofisticado. Demonstrar os problemas que uma tradução mais “literal” pode causar pode ser uma boa ferramenta de ensino em níveis básicos e intermediários, para indicar não apenas a complexidade das L1 e L2, mas também a importância de entender o contexto e a cultura, juntamente à gramática e ao léxico das duas línguas.

Os benefícios pedagógicos da tradução são ainda mais significativos em níveis avançados, como ferramenta para explorar as complexibilidades da língua e da cultura de textos que variam em tipo, perspectiva e propósito. Muitas das minhas memórias como professora universitária vêm do ensino da tradução em turmas nos EUA e na Espanha. Após alcançar certo nível de proficiência dos alunos, aulas dedicadas à tradução podem mostrar não só o processo de tradução em si, mas também orienta os alunos a se aprofundar mais no significado das palavras e ideias, além da diversidade de interpretação em vários níveis e estágios de compreensão e tradução.

Um tipo de texto que funcionou muito bem para demonstrar a diversidade de interpretação foram pequenos textos literários. Poemas e contos foram ideais, principalmente quando tínhamos acesso a uma série de traduções diferentes para o mesmo texto. Ao estudar várias traduções profissionais de um mesmo texto, os alunos podem apontar quais ideias foram interpretadas de maneiras diferentes e trabalhar de trás para frente para encontrar uma melhor forma de entendimento do contexto e do significado do texto em si. Esse exercício em si já confirma que a simples pergunta “O que esta palavra significa na língua _____?” pode ser bastante problemática e não deve ser o foco de nenhuma aula de língua. Pensar na comparação direta entre duas línguas nos leva a uma simplificação excessiva e a pular lacunas de significado, dois erros comuns que podem ser suavizados utilizando cuidadosamente a tradução como abordagem pedagógica.

Além do valioso aprendizado sobre a diversidade de interpretações e complexidade das línguas, a tradução como ferramenta pedagógica confere aos alunos as habilidades necessárias para traduzir efetivamente. Quando atividades como a que citei são utilizadas em sala de aula, normalmente, é a primeira vez que os alunos veem e analisam, lado a lado, textos traduzidos profissionalmente comparados com o texto fonte. Essa é uma oportunidade única para o professor apresentar o profissional por trás da tradução e discutir os requisitos e desafios que fazem parte da área da tradução.

Portanto, enquanto alguns professores de língua ainda temem o uso da tradução em suas aulas, na minha experiência, há vários benefícios ao incorporar a tradução em turmas de adultos de nível avançado. Uma atividade bem planejada utilizando a tradução pode aprofundar a compreensão das línguas, promovendo a valorização de opiniões e interpretações diferentes, além de educar os alunos sobre a profissão de tradutor.

Sobre a tradutora
Foto_DeboraDébora França de Oliveira
é estudante de Letras – Português e Inglês na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Apaixonada pela língua inglesa. Tem grande interesse na área da tradução.

Traduzir jogos? Muito Fácil!

Sejam bem-vindos de volta, queridos leitores!

Hoje temos mais uma tradução parte da parceria do blog com a UTFPR. Esta é a primeira tradução da aluna deste mês, a Débora França de Oliveira. E a tradução de hoje é da publicação da convidada Paula Ianelli, Translating Games? That must be piece of cake!

Online-Games

Ei, ei! Calma aí!

A localização de jogos parece bastante atraente se você gosta de jogar, mas tem tantos desafios quanto traduzir um texto para qualquer outra área – afinal, é tradução! Isso fica claro nas equipes que localizam jogos para diferentes línguas: a esmagadora maioria é de linguistas altamente qualificados, profissionais experientes que trabalham em tempo integral com tradução e/ou têm formação acadêmica na área.

“Mas o que pode ser tão desafiador nisso?” Pra começo de conversa, todo processo de localização de jogos abrange várias etapas que podem ou não envolver diretamente a equipe de localizadores, mas que, com certeza, impactam nosso desempenho. Ao contrário do que se pensa, um jogo é localizado enquanto é produzido e não após seu término, ou seja, tudo é interligado. Além disso, não é um trabalho que envolve somente o localizador e o cliente final. É algo que envolve centenas de pessoas, desde o criador do jogo até roteiristas, produtores, designers, engenheiros, produtores de trilha sonora, equipes de marketing, atores, gerentes de projeto, tradutores, revisores, testadores e o último integrante da equipe de impressão que produz a capa do jogo uma semana antes de ele ser lançado. Isso tudo pode parecer um tanto exagerado, mas essa rede complexa exerce um impacto direto em como nós trabalhamos e no que o público-alvo verá ao final desse trabalho.

As etapas da localização de um jogo rendem um tópico à parte. Aqui vamos falar dos desafios mais comuns enfrentados por localizadores de jogos. O primeiro deles é o favorito do tradutor:

 Contexto (ou deveríamos dizer a falta dele?)

O contexto pode ser algo bem complicado na localização de um jogo. Ao contrário do que se pensa, os tradutores não traduzem o jogo enquanto jogam. Geralmente, não há contextualização visual durante o processo de tradução. Isso significa que trabalhamos com textos, assim como a maioria dos tradutores, mas a dificuldade vem agora: às vezes, nossos textos não são nada lineares.

Isso pode acontecer por uma série de fatores. Por questões confidenciais, alguns clientes misturam frases de diferentes lotes ou textos para evitar o vazamento de alguma cena. Pode haver, também, atualizações com palavras aleatórias que o tradutor deve adivinhar – ou se perguntar – qual é o contexto. Outra prática frequente é a de lotes não lineares: pode ser que façamos a tradução do último estágio do jogo logo no início do projeto, quando ainda não sabemos exatamente do que se trata.

Em The Last of Us, por exemplo, Joel e Ellie estão conversando com Tess. Ela sai da cena e o diálogo que segue é:

Ellie: “When is she coming back?”
Joel: “Later.”

Bem direto, certo? A tradução, no entanto, é um tanto enigmática:

Ellie: “Quando ela vai voltar?”
Joel: “Até mais.”

Sabemos que isso é simplesmente uma questão de contexto. “Later” pode ser uma expressão de despedida, sendo assim traduzido como ”Até mais”. Assim, podemos supor educadamente que o tradutor recebeu essa linha sem contexto, não é? Isso nos leva a outra questão recorrente:

Os jogadores dependem da sua tradução

Partindo do princípio de que jogos não são baseados apenas em histórias, mas também em ações e instruções, a maneira como o jogo é traduzido afeta diretamente a performance do jogador. Digamos que um personagem precisa encontrar um item que garantirá a ele seguir na direção certa, e as instruções são:

“Find a compass and return to the island.”

Vocês sabem aonde isso vai chegar, certo? Se a tradução falar para encontrar um compasso, os jogadores irão em uma busca interminável a um objeto diferente. E eles ficariam muito bravos! Essa é uma das razões pela qual um localizador de jogos deve ser bem cuidadoso: além de criar um texto que corresponda ao original, tenha um bom ritmo, seja curto o suficiente para caber na tela, tenha gramática e ortografia perfeitas, seja atraente etc., nós ainda temos que fazer com que as instruções sejam claras e que a história seja corente ao longo do jogo.

E são muitos jogadores

Como plataformas móveis e mídias sociais crescem em países desenvolvidos e em desenvolvimento, o número de jogadores aumenta a cada dia – e o Brasil é um grande mercado.

Por um lado, a demanda por localizadores de jogos está em sua maior alta. Por outro, muitos jogadores cresceram acostumados a jogar sem legenda – e provavelmente já entendem inglês – e vigiam nossos passos de perto.

Não me interpretem mal, eles são boas pessoas. Mas nem sempre gostam de mudanças, sabe? E cresceram acostumados a escolher a opção multiplayer, não a versão multijogador.

Podemos discutir se devemos ou não traduzir esse tipo de termo em outro momento. A questão é que localizadores de jogos estão sempre convivendo com o desafio de encontrar traduções convincentes para cada terminologia específica mantida em inglês há mais de 20 anos. Requer tempo e esforço encontrar boas soluções e fazer com que as pessoas se acostumem a elas.

Certo. Isso é tudo?

Não necessariamente. Discutimos aqui apenas três dos principais desafios encontrados pelos tradutores de localização de jogos, mas existem outros desafios menores que merecem atenção:

  • Ao traduzir um jogo, normalmente trabalhamos em equipes de tradutores e revisores, o que dificulta a padronização de termos e estilos.
  • Precisamos ser bastante experientes com computadores para trabalhar com diferentes ferramentas CAT, tanto on-line quanto off-line. E, geralmente, ainda temos aquelas tags amadas, portanto, cuidado nunca é demais.
  • Os prazos normalmente são bem apertados, porque depois da tradução ainda há a revisão, garantia de qualidade, testes, lengendagem etc., e todos querem ter certeza de que o jogo já tenha legendas na data de lançamento.

Espera-se ainda que sejamos versáteis: eu posso traduzir um jogo repleto de gírias e palavrões na segunda-feira, na terça-feira, um enigma para crianças de 5-9 anos e uma história medieval épica na quarta-feira – fica evidente que esse é um dos maiores prazeres de se trabalhar nessa área!

Pra terminar, a localização de jogos é uma área maravilhosa se você é tradutor profissional e adora jogos e desafios. Mas, pense duas vezes antes de traduzir seus jogos favoritos: spoilers, spoilers em todo lugar!

Sobre a tradutora
Foto_DeboraDébora França de Oliveira é estudante de Letras – Português e Inglês na Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Apaixonada pela língua inglesa. Tem grande interesse na área da tradução.

Guest post: Trabalho com agências

Sejam bem-vindos de volta à nossa série de convidados!

Hoje recebemos a Gisley Rabello Ferreira, fundadora da Wordlink Traduções e membro do Comitê de Administração do Programa de Mentoria da Abrates.

Bem-vinda, Gisley!

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Source: Unsplash

Nossos clientes: como anda o relacionamento entre LSPs e agências globais de tradução

Uma das principais dúvidas do tradutor profissional é: devo trabalhar para clientes diretos ou agências de tradução? Sem dúvida, trabalhar para clientes diretos é mais lucrativo, mas muitas vezes pode significar ter que realizar mais tarefas fora do escopo da tradução propriamente dita: orçamento, preparação de arquivos, DTP (diagramação e formatação), revisão final, entre outras. As agências pagam menos, mas, realiza todas as tarefas colaterais do projeto, e o tradutor pode se concentrar em seu maior talento: traduzir. Nas duas situações, há prós e contras, e cabe a cada profissional priorizar o tipo de cliente a que se adapta melhor. Assim, é preciso entender quem são nossos clientes, o papel deles na cadeia de fornecimento do mercado e onde nós, fornecedores linguísticos, nos colocamos nessa cadeia.

Trocando em miúdos, no mercado de tradução, há dois principais tipos de clientes: os clientes diretos e as agências de tradução. Os clientes diretos são pessoas físicas ou empresas que contratam profissionais independentes ou empresas e agências de tradução para projetos de tradução. As agências de tradução podem ser empresas globais, que atuam com inúmeros idiomas e têm escritórios em vários países, ou pequenas empresas de tradução, que trabalham com um número limitado de idiomas e prestam serviços tanto para clientes diretos quanto para agências globais. Mas, como assim? Agências que trabalham com agências? Complicado? Nem tanto. As agências pequenas, além de serem clientes dos tradutores independentes, são também fornecedores linguísticos para clientes diretos e agências globais, o que as coloca nas duas posições do mercado: contratante (agência) e contratado (LSP, language services provider).

As pequenas empresas/agências de tradução são estruturadas de modo a atender muito bem tanto a clientes diretos quanto a agências de tradução globais. Aos clientes diretos, elas dão todo o suporte necessário em projetos de tradução completos (desde o orçamento detalhado até o produto finalizado, seja ele um website, um vídeo legendado ou um simples documento), já que têm uma carteira de colaboradores diversificada, contando com colaboradores de tradução, revisão, editoração, legendagem, entre outros. Para agências de tradução globais, essas empresas fornecem o que chamamos de TEP (translation, editing, proofreading), que nada mais é do que a tradução revisada e verificada em seu formato final: três etapas do processo garantidas por um único fornecedor, além de uma infraestrutura de gerenciamento de projetos e qualidade personalizada.

Qual é a vantagem para as agências globais em se relacionarem com pequenas empresas fornecedoras de tradução? Apesar de as agências globais contarem com muitos profissionais independentes de tradução e revisão para seus fluxos de trabalho em projetos de tradução, contratando-os como tradutores, revisores, especialistas em controle de qualidade, líderes de projeto e muitas outras funções, elas contam também com as pequenas agências de traduções baseadas nos países onde se fala a língua-alvo contratada. O papel dessas pequenas empresas como LSPs é, além de fornecer TEP, dar apoio de infraestrutura e fluxo de trabalho, principalmente em projetos de contas grandiosas, para os quais é difícil conseguir tantos recursos com o perfil específico da conta e gerenciar um controle de qualidade eficiente. As pequenas agências de tradução então atuam como parceiras das agências globais, auxiliando na formação e no treinamento de equipes de tradução e revisão, controlando a qualidade com um profissional fixo para aplicar LQAs, gerenciar glossários, tirar dúvidas da equipe, servir de intermediário entre cliente e tradutores etc. e contando com uma equipe de gerentes de projetos dedicados especialmente aos trabalhos dessas contas.

Mas, para as pequenas agências, é vantagem ter esses clientes? Se a agência global pagar o preço justo para essa parceria tão importante e complexa, vale. Como sabemos, no Brasil temos uma carga tributária muito grande para pessoas jurídicas. Isso é um fator que não chega a impedir, mas que torna bem complexa a contratação de funcionários para desempenhar algumas funções que requerem um comprometimento maior com o trabalho. Trabalhar com profissionais independentes (ou freelancers, como muitos gostam de chamar) para essas funções é uma saída, mas, como esses profissionais têm inúmeros clientes, fica complicado exigir um compromisso de quase exclusividade. Ainda assim, é vantagem trabalhar com agências globais, não só pela receita, mas também pela oportunidade de aprender cada vez mais sobre as mais novas ferramentas e tendências do mercado. Dependendo da parceria que as empresas de tradução têm com as agências globais, seus funcionários e colaboradores recebem treinamento, lidam com os seus clientes diretos em algumas tarefas e até viajam para outros países para testar produtos e realizar projetos específicos. Por outro lado, pode ser difícil para a pequena empresa lidar com os volumes desse tipo de cliente, pois manter uma carteira de colaboradores disponíveis é um desafio. E, em geral, as agências globais especificam volumes mínimos semanais em contrato, então, é preciso se preparar bem para cumprir o combinado, aliando prazo e qualidade.

Para o tradutor independente, ter uma pequena agência de tradução como cliente é trabalhar com profissionais que, acima de tudo, entendem perfeitamente o papel dos tradutores e as dificuldades que eles têm em projetos específicos. É a chance de trabalhar com quem também já passou e passa por essas dificuldades e provavelmente já tem soluções para algumas delas. E, se não tem, certamente vai se esforçar para buscá-las, pois o seu objetivo é o mesmo que o do tradutor: manter o cliente feliz.

No frigir dos ovos, a verdade é só uma: estamos todos no mesmo barco. Assim, precisamos todos – tradutores, revisores, agências – deixar os preconceitos de lado e tentar manter uma relação saudável, sempre com muito diálogo sobre o papel de cada parte nesse relacionamento e sobre tarifas, o verdadeiro tabu entre nós. Tenhamos em mente que nossos objetivos são iguais, portanto, se tivermos uma boa convivência, todos lucramos, tanto em receita quanto em conhecimentos. Para chegar a esse ponto, é preciso refletir bastante sobre o que cada parte representa no mercado e procurar enxergar e, principalmente, praticar parcerias nessas relações, em vez de concorrências.

Sobre a autora
GisleyGisley Rabello Ferreira
 é tradutora, revisora, transcreator e especialista em controle de qualidade nos pares inglês > português brasileiro e espanhol > português brasileiro, principalmente para as seguintes áreas: TI, técnica, comercial, e-learning, localização, saúde e beleza, marketing. É falante nativa de português brasileiro e tem vasta experiência com a língua inglesa e espanhola. É bacharel e licenciada em inglês e literaturas americana e inglesa (UERJ), com pós-graduação em tradução nos idiomas inglês e português (PUC-RJ), e bacharel em espanhol e português e suas respectivas literaturas (UERJ). Atuou de 1990 a 2000 no mercado como tradutora interna em multinacionais americanas do setor de TI e como freelancer em projetos de setores variados para várias agências nacionais. Em abril de 2001, fundou a Wordlink Traduções e ampliou sua área de atuação, passando a oferecer pacotes completos de soluções linguísticas, utilizando as ferramentas e os aplicativos mais modernos do mercado, para clientes nacionais e internacionais. Hoje, também atua como gerente de projetos sênior, além de supervisionar toda a equipe da empresa.

Guest post: Pesquisa terminológica em tradução

Bem-vindos de volta à série de publicações convidadas!

Hoje seria dia da série de entrevistas, mas, impreterivelmente neste mês, invertemos a ordem. Portanto, a série de entrevistas será no dia 10.

É com imenso prazer que recebo um grande amigo, meu veterano, aqui no blog.

Seja bem-vindo, Deni!

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Source: Unsplash

O Google ou um corpus? Quem tirará minhas dúvidas?

Agradeço minha amiga Caroline Alberoni pela oportunidade de escrever para o seu blog. Ela já havia feito o convite há algum tempo, e desde então venho tentando pensar em um tema que possa ser interessante para os seus leitores. Nesse ínterim, propus para os meus alunos do curso de Tradução da UNILAGO que traduzissem uma publicação convidada como atividade da minha disciplina de Prática de Tradução. Essa, certamente, foi uma experiência muito proveitosa para os alunos e para mim!

Para a escolha do tópico que abordo nesse texto, retornei aos meus anos de graduação em Tradução e fui tentar resgatar o que havia fundamentalmente mudado na minha dinâmica como tradutor. Lembro-me que no início dos anos 2000, a Internet já fazia, de certa forma, parte de nossas vidas, e buscadores como o Yahoo, Cadê e AltaVista nos ajudavam a encontrar o que precisávamos naquele mundo de informações que já parecia ser um mar sem fim. Entretanto, foi o Google que popularizou as pesquisas que não eram exatamente uma busca por uma página, mas se tratava apenas de uma averiguação de frequência. Lembro-me de já usá-lo, nos meus exercícios de tradução (sobretudo de versão), para me certificar de uma regência, uma ortografia ou a formalidade ou informalidade no uso de uma palavra ou expressão.

Alguns anos depois, a quantidade de informações indexadas pelo Google aumentou enormemente. Dadas as diferentes tipologias de textos que são indexados, o Google foi “se especializando” e hoje é possível procurar apenas em notícias, textos acadêmicos e livros. No caso desses últimos, o Google ainda criou uma ferramenta chamada n-gram viewer (não disponível para o português), por meio da qual é possível contrastar a frequência de uma dada palavra ou expressão num período de tempo e ainda comparar com outra palavra ou expressão.

Para exemplificar o quão interessante pode ser o uso dessa ferramenta, tomemos uma publicação parte de uma recente série sobre gramática e uso, em que Michael Rundell, editor-chefe do dicionário da língua inglesa Macmillan, trata do uso de “different from” e “different to”. Com base em uma observação em corpus, ele conclui que “different to” é raramente usado no inglês americano, mas é comum no inglês britânico. Fui verificar o que o Google n-gram viewer tinha a dizer a respeito, com base em ocorrências em livros publicados de 1800 a 2008, e chegamos às mesmas constatações de Michael Rundell: “different from” é bem mais recorrente em ambas as variantes da língua inglesa (sempre foi), mas parece estar ganhando (discretamente) fôlego na literatura, nos últimos anos. Fiquemos de olho.

No exemplo que acabo de dar, tanto o Google quanto o corpus proporcionaram uma conclusão semelhante. Nesse sentido, noto que tenho encorajado meus alunos a valerem-se da Internet como forma de auxiliarem suas tarefas na disciplina de Prática de Tradução, mas com um olhar duvidoso sobre tudo o que esse mundo de informações apresenta. O grande volume de textos que vemos publicados on-line, hoje, tornou difícil até mesmo dizer o que, de fato, foi escrito por falantes nativos da língua e o que é produto de tradução (automática ou não). É na tentativa de tornar tais pesquisas mais confiáveis e representativas dos usos da língua que o corpus se mostra útil.

Caberia aqui uma rápida definição do que vem a ser um corpus (palavra latina, cujo plural é corpora). Trata-se de um grande conjunto de textos, selecionados segundo alguns critérios (para que o corpus servirá? Qual será sua extensão? Que tipos de textos farão parte dele?), em formato digital, de modo a extrair-se dele informações linguísticas relevantes. No meio acadêmico, esse tópico vem sendo tratado já há algum tempo, mas tem ganhado cada vez mais força com a Internet e com a grande capacidade de armazenamento e processamento dos computadores atualmente. Se antes, para criar um corpus, era necessário um árduo trabalho de digitalização de textos impressos, hoje é possível compilar um corpus a partir de textos que já se encontram disponíveis na Web, de maneira rápida e automatizada, e que podem servir para propósitos diversos. Um tradutor, por exemplo, diante de um trabalho sobre meliponicultura ou mineralogia, além de recursos como dicionários e sites especializados pode recorrer a um corpus compilado especificamente para a tradução de um texto e extrair dali termos atuais, se pensarmos que tal corpus foi constituído a partir de textos recentes, encontrados na Internet.¹

Mas por que não utilizar, simplesmente, o buscador do Google para fazer essa mesma tarefa? Afinal, compilar um corpus exige que se faça a seleção dos textos e que eles sejam armazenados com certa sistematicidade (em arquivos que sejam legíveis por programas específicos que processam corpus). É preciso ter em mente, contudo, que uma busca no Google, hoje, pode retornar resultados que não correspondem, muitas vezes, à realidade de usos. É justamente a vastidão de textos que são indexados por um motor de busca como o Google que desabona a sua utilização quando estamos em dúvida sobre um certo termo ou um uso. Os textos ali presentes podem ter origens que não são exatamente as mais confiáveis (a menos que estejamos buscando no Google Livros, como exemplifiquei acima).

Recentemente, em um exercício com meus alunos de Prática de Tradução, o termo “recycling containers” apareceu no texto de partida, o que gerou uma certa variedade de opções nos textos de chegada. A tradução mais frequente foi “recipiente de reciclagem” (três ocorrências); “contêiner de reciclagem” e “container de reciclagem” foram, cada um, a opção de dois alunos; uma aluna apresentou “contentor de reciclagem”, em seu texto (o que parece ser também a tradução do Google Tradutor para “recycling container”).

Ao recorrer ao Google, é possível verificar que “recipiente de reciclagem” é a opção mais frequente, seguida de “contentor de reciclagem”. Embora “recipiente de reciclagem” me parecesse uma possibilidade plausível, eu não estava satisfeito com essa tradução. “Contentor de reciclagem” estava fora de questão, mas como mediador-professor da disciplina, eu deveria motivar minhas decisões e expô-las aos alunos. Intuitivamente, pensei em “lixeira de reciclagem” como uma tradução apropriada, mas a frequência do Google indicava que esse termo era menos frequente que “recipiente de reciclagem”².

É aqui que o uso de um corpus parece-me apropriado e mostra vantagens sobre o Google. Utilizei um corpus que está gratuitamente disponível na Web e faz parte de um conjunto de recursos disponibilizado pela Linguateca³. Mais especificamente, utilizei o corpus CHAVE que, por sua vez, faz parte do AC/DC, um conjunto de corpora, convenientemente armazenados e acessíveis de um mesmo local. O CHAVE conta com textos jornalísticos da Folha de S. Paulo e do jornal português Público. A escolha recaiu sobre esse corpus, pois, eu gostaria de atestar que “contentor” era uma palavra mais utilizada em Portugal.

Duas buscas confirmaram minha hipótese, mas, para tanto, foi necessário especificar que uma busca deveria retornar apenas resultados dos textos brasileiros e a outra, apenas textos portugueses. Para tanto, adicionei à busca a restrição [variante=“BR”] e [variante=“PT”]⁴, respectivamente. Conforme previa, não houve uma ocorrência sequer de “contentor” no português brasileiro; já na variante portuguesa, foram 930 resultados.

Era, então, o momento de embasar a minha escolha (“lixeira de reciclagem”) para a tradução de “recycling containers”. O Google, como já antevi, não me ajudaria, pois, dava como vencedor “recipiente de reciclagem”. Apelei, assim, para um outro corpus, disponível on-line, o ptTenTen. Esse corpus encontra-se armazenado na ferramenta Sketch Engine (veja nota de rodapé 1) e contém alguns bilhões de palavras (o que é bastante significativo). Além disso, o ptTenTen, assim como o CHAVE, permite que se façam buscas nas variantes brasileira e portuguesa ou separadamente.

Minha breve pesquisa confirmou, numericamente (ainda que com números baixos), o que eu suspeitava: “lixeira de reciclagem” é o termo mais frequente entre aqueles apresentados como opção de tradução para “recycling container”, conforme o quadro abaixo.

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Vale ressaltar, reafirmando o que digo acima sobre o grande volume de informações na Internet hoje (e que acaba sendo indexado pelo Google), que percebi que muitos dos resultados para a busca “contentor de reciclagem” eram páginas de sites como Alibaba ou sites gerados com o auxílio de tradução automática, além dos textos que haviam sido escritos em outras variedades não brasileiras do português.

Com essa experiência de tradução que aqui apresento, busco fomentar uma reflexão sobre um aspecto da competência do tradutor, isto é, como a prática tradutória tem sido afetada de modo a favorecer o texto final, minimizando esforços e tempo, tão caros num mundo onde o tradutor nunca foi tão necessário. A utilização de corpora parece, num primeiro momento, acrescentar mais um trabalho às já muitas tarefas do tradutor, todavia, esse exemplo, ainda que simples, mostra que nossa intuição pode ser confirmada ou refutada com dados mais confiáveis.

¹ Uma ferramenta que pode auxiliar um tradutor nesse sentido é o Sketch Engine, um processador de corpus que funciona on-line e que a partir de algumas palavras-chave (o termo correto aqui seria “seeds”) busca a Web e compila um corpus com base nessas palavras-chave. O Sketch Engine é capaz de processar corpora de diversas línguas e oferece recursos diversos, desde uma lista de frequência de palavras presentes no corpus até as chamadas word sketchs, em que é possível ver padrões de coocorrência de palavras. A ferramenta pode ser acessada em https://www.sketchengine.co.uk.

² No momento em que escrevo esse texto “recipiente de reciclagem” ocorre 74 mil vezes, enquanto “lixeira de reciclagem” tem 20,5 mil ocorrências.

³ A Linguateca é um um centro de recursos para o processamento do português que conta com o apoio de diversos pesquisadores no Brasil e em Portugal. Os recursos da Linguateca podem ser acessados em http://www.linguateca.pt.

⁴ Essas restrições de busca e tantas outras tornam o uso de corpora interessante. O corpus precisa conter informações (nesse caso, a que variante do português pertence o texto) e essas são adicionadas manualmente ou automaticamente. Outro tipo de informação útil e que é possível adicionar automaticamente são as categorias gramaticais das palavras. Um corpus anotado com esse tipo de informação permite buscas mais interessantes do que aquelas que o Google oferece. Por exemplo, podemos pesquisar por “casa” como forma verbal de “casar” em vez do substantivo.

Muito obrigada por ter aceitado meu convite e dedicado seu tempo em escrever algo tão interessante e útil para o blog, Deni! Foi um grande prazer recebê-lo aqui.

About the author
facebook08Deni Kasama é formado em Tradução pela UNESP de São José do Rio Preto, onde recententemente concluiu também seu doutorado. Atualmente, é docente na União das Faculdades dos Grandes Lagos (UNILAGO), além de atuar como tradutor e revisor freelancer de textos acadêmicos. Suas pesquisas recentemente têm se concentrado nas contribuições da Linguística de corpus para a Tradução e a Lexicografia.