Traduzindo por uma causa

Sejam bem-vindos de volta, queridos leitores!

Hoje temos mais uma tradução parte da parceria do blog com a UTFPR. A aluna tradutora deste mês é a Cristiane Slugovieski. E a tradução de hoje é da publicação da convidada Elis Portela, Translating for a cause.

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Fonte: Picjumbo, por Viktör Hanacek

Ser um bom tradutor é um trabalho árduo, mas é também um grande privilégio. Exige muito estudo, leitura, escrita, prática e aprendizado com os erros e com a experiência. Mas no fim, todo esse trabalho nos dá acesso a uma quantidade enorme de informações, além de uma base que nos permite conhecer mais sobre outras culturas. Somos leitores, pesquisadores e nos comunicamos incansavelmente, e sempre trabalhamos para entender o ponto de vista das outras pessoas, da melhor maneira possível, para compartilhá-lo com diferentes públicos. Mas depois de um tempo trabalhando diariamente com tradução, às vezes, não valorizamos esse acesso à informação e acabamos restringindo demais nossas habilidades quando, na verdade, poderiam ser utilizadas para conscientizar e ensinar as pessoas sobre assuntos importantes. Se prestarmos bastante atenção, podemos identificar muitas causas que valem a pena ser difundidas, mas que permanecem restritas a pequenas comunidades ou grupos devido a barreiras linguísticas. Sabemos que tanto a língua quanto as informações são ferramentas que podem ser utilizadas para dividir e privar pessoas ou, inversamente, uni-las ao redor de uma causa ou crença em comum.

Além de trabalhos remunerados, os tradutores podem escolher quais informações consideram importantes divulgar e ser voluntários para compartilhá-las. Podemos nos beneficiar muito trabalhando com assuntos que impactam a vida de outras pessoas e – por que não? – o mundo em que vivemos. No mínimo, nos beneficiamos por desenvolver a compreensão do leitor acerca de diferentes temas e comunidades. Existem muitas associações humanitárias e de caridade que dependem principalmente de doações, e não têm orçamento para tradução, precisando da nossa ajuda. (A propósito, uma distinção importante deve ser feita: como muitos profissionais, fico realmente chateada quando grandes empresas convocam voluntários ou utilizam crowdsourcing para traduzir seus materiais de graça. Não faz sentido tradutores qualificados trabalharem apenas para empresas lucrativas. Também fico chateada com grandes websites que recrutam alunos de cursos de inglês para “traduzirem” seus conteúdos de graça e acabam passando uma imagem ruim da nossa área. Mas essa é a minha opinião.)

Para vocês terem uma ideia, selecionei materiais de sites de algumas organizações que dependem de voluntários para serviços de tradução, para termos noção do que fazem e talvez nos inspirar a fazer algo:

  • No site The Rosetta Foundation (que se dedica a “aliviar a pobreza, apoiar o cuidado à saúde, desenvolver a educação e promover a justiça por meio do acesso igualitário a informação e ao conhecimento em todos os idiomas”), por exemplo, podemos ler depoimentos inspiradores de tradutores sobre trabalhos voluntários e projetos dos quais participam e com os quais se sentem orgulhosos. Vejamos o exemplo de um desses depoimentos:

Ações úteis e de grande ajuda no mundo devem ser ampliadas por meio da língua e não impedidas por ela. Organizações sem fins lucrativos fornecem serviços inestimáveis à sociedade e acredito que seja importante contribuir para esses esforços sempre que possível. Traduzir é uma contribuição modesta, mas pode fazer uma grande diferença.

  • No site Translators Without Borders, observamos a contagem de 15.868.825 palavras já traduzidas e doadas (no momento da elaboração deste artigo). Na página “About Us” está escrito:

Conhecimento é poder.  Conhecimento salva vidas, tira as pessoas da pobreza, garante mais saúde e nutrição, cria e mantém economias. O acesso a informação é fundamental. Barreiras linguísticas custam vidas. Grupos humanitários, que trabalham em situações de crise, encaram uma missão crucial para disseminar conhecimento na língua daqueles que precisam de informações.

O Global Voices pretende agregar, contextualizar e ampliar a comunicação global online – realçando locais e pessoas que outras mídias muitas vezes ignoram. Nós trabalhamos para desenvolver ferramentas, instituições e relações que possam contribuir para que todas as vozes, em todos os cantos, possam ser ouvidas.

O Global Voices Online criou o Projeto Lingua, que “busca ampliar as Vozes Globais em outros idiomas além do inglês, com a ajuda de tradutores voluntários”. Esses são apenas alguns exemplos nos quais podemos dedicar nosso tempo e conhecimento, mas há muitos outros. Cada um de nós pode encontrar uma causa com a qual se identifica e se envolver com ela!

Sobre a tradutora
Imagem1Cristiane Slugovieski estuda Licenciatura em Letras Português/ Inglês na UTFPR, onde também faz parte do TradLin, grupo de pesquisa e Estudos em Tradução. Reside em Curitiba-PR e pode ser encontrada no Facebook.

Reavendo alguns fatos sobre a nossa profissão

Aqui está mais uma tradução da aluna Gabriella Strapasson. Desta vez, da publicação da convidada Emeline Jamoul, Reclaiming the truth about our profession.

Quer saber mais sobre essa parceria do blog com a UTFPR? Leia aqui.

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Trata-se de uma verdade universal que tradutores freelance são criaturas incompreendidas. Apesar de existirmos há milhares de anos e provavelmente exercermos um dos trabalhos mais antigos do mundo, as pessoas parecem não ter consciência da nossa existência e muito menos da nossa finalidade.

Se alguma vez você disse a alguém o que faz, tenho certeza de que se deparou com algumas reações impagáveis. As pessoas sempre supõem certas coisas a respeito da nossa escolha profissional: se você trabalha como freelancer é porque tem medo do mundo real (hey, nós também temos responsabilidades!) ou porque, por acaso, é bilíngue.

Sou tradutora freelance há 1 ano e meio e, nesses 18 meses, o número de comentários absurdos que escuto sobre minha profissão só aumenta. Aqui vão alguns, que vocês já devem ter escutado!

  1. Traduzimos somente obras literárias
    Aos olhos da maioria, tradutores só traduzem um tipo de texto: literatura. Ano passado, minha médica perguntou o que eu estava fazendo já que havia me formado. Quando eu disse que era tradutora freelance, ela me olhou admirada e perguntou quais livros eu tinha traduzido. Infelizmente, tive de decepcioná-la, pois grande parte dos tradutores não tem o privilégio de traduzir literatura, mesmo sendo o sonho da maioria!
  2. Tradutores e intérpretes são a mesma coisa
    Estremecemos quando ouvimos que alguém está procurando um profissional para “traduzir” uma reunião. Que blasfêmia!
  3. “Sério… O que você faz de verdade?”
    Claro, porque trabalhar em casa, de pijama, é muito bom pra ser verdade. 🙂
  4. “Você só vai traduzir manuais de instrução”
    Uma das minhas professoras do ensino médio me disse isso uma vez. Ainda lembro desse dia porque nos perguntaram o que queríamos ser quando crescer. Eu estava em dúvida entre jornalista, tradutora ou professora. Vocês podem imaginar como eu era inocente com 13 anos de idade, tanto que acreditei quando ela disse que eu traduziria manuais de instrução para o resto da vida ou…
  5. “Trabalhar na União Europeia”
    Isso, é claro, era para poucos, mas admito que nessa ela passou perto. E quanto às traduções de documentos de marketing? E contratos internacionais? E interpretação em hospitais? Há um mundo de possiblidades que vão muito além da tradução de manuais de instruções e interpretação de assuntos da comunidade europeia.
  6. “Trabalhar em casa não é a mesma coisa que trabalhar em um escritório” (leia-se num tom condescendente)
    Na verdade, trabalhar em casa é muito melhor. 🙂

E a lista continua… Mas o que podemos fazer a respeito dessas ideias equivocadas sobre a nossa profissão? Se analisarmos os comentários acima, percebemos que o problema é o mesmo: desconhecimento. Nossa responsabilidade também é promover a conscientização a respeito do que realmente é ser um tradutor freelancer, pois muitas pessoas realmente se interessam pelo nosso trabalho, e isso não é algo ruim.

Sempre que percebo alguma dúvida em meu interlocutor, em vez de simplesmente dizer “Eu só traduzo textos do inglês para o francês”, aprofundo meu ponto de vista, argumentando. Geralmente me perguntam o que e para quem eu traduzo, o que mostra nitidamente o total desconhecimento sobre a finalidade da tradução e sobre como ela é feita. Nada melhor do que dar uma boa, e precisa, primeira impressão sobre essa profissão fascinante. E você, leitor, quais tipos de comentários já ouviu sobre sua profissão?

Sobre a tradutora
GabriellaGabriella Strapasson é formada em Licenciatura em Letras Português/Inglês (UTFPR). Trabalha como tradutora in-house há seis meses com o par inglês > português e também é professora de inglês. Faz pós-graduação em Tradução de Inglês na Estácio de Sá e está se especializando nas áreas de Finanças, TI e Jurídica. É integrante do TradLin – UTFPR, um grupo de pesquisa sobre Estudos da Tradução. Reside em Curitiba-PR e pode ser encontrada no Facebook e LinkedIn.

Eu, a tradução e a área da saúde: uma história de amor

Bem-vindos! Sei que ando em falta com vocês, mas espero conseguir me redimir com esta novidade! É com imenso prazer que lanço uma parceria do blog com o grupo de pesquisa de tradução da UTFPR e a queridíssima Profa. Silvana Ayub!

O projeto de pesquisa “Traduzindo a tradução” é conduzido pelo grupo de pesquisa TradLin (Tradução e Línguas) da UTFPR, sob orientação da Profa. Silvana Ayub, e conta  com licenciandos em letras português e inglês que se interessam  pelo universo tradutório. Seu objetivo é oportunizar aos alunos a prática tradutória por meio de textos que envolvem questões sobre a profissão, o profissional tradutor e suas escolhas, decisões, ações e competências. Todo o material traduzido é constituído por textos publicados aqui no blog, selecionados e gentilmente cedidos pela Caroline Alberoni. As atividades práticas enfatizam o emprego e análise de estratégias tradutórias, registro de protocolos verbais, proofreading, estudos e análise sobre o processo de produção textual e representações culturais. Os resultados práticos envolvem encontros anuais, locais, para falar de tradução e muita gente que se descobre apaixonada pela área!

Neste mês de abril, publicarei duas traduções da aluna Gabriella Strapasson, a primeira, hoje, da convidada Carolina Ventura, Me, my translations and the Public Health field: a love story, e a segunda, em alguns dias. Também teremos mais duas traduções nos meses de maio e junho.

Espero que gostem!

Agradeço imensamente à Profa. Silvana Ayub a honra de fazer parte desse projeto de pesquisa e a tradução das publicações do inglês para o português.

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Antes de mais nada, gostaria de agradecer à minha amiga e colega tradutora Caroline Alberoni pela oportunidade de compartilhar minha experiência com vocês. Esta é a primeira vez que faço algo desse tipo e posso dizer que estou curtindo cada momento, pois ESCREVER em vez de TRADUZIR é muito bom para dar uma variada no trabalho.

Decidi ser tradutora quando tinha 20 anos. Em 1991, no primeiro ano do curso de graduação em biologia da Universidade de São Paulo (USP), compreendi o motivo de estar tão descontente desde o início do curso: eu tinha feito a escolha errada.

Eu não queria ser bióloga. Eu queria estudar línguas. Na verdade, queria continuar estudando inglês como fiz nos últimos dez anos em uma escola particular de idiomas. Mas não queria ser professora e, sim, tradutora. Então, larguei o curso de biologia e, em 1992, comecei a graduação em Língua Inglesa e Literatura na PUC-SP. Me formei em tradução e, nesses 20 anos de trabalho, nunca mais tive dúvidas a respeito dessa minha decisão.

Posso dizer que escolhi a minha carreira, mas o campo de especialização me escolheu. No primeiro ano da faculdade, meu pai, professor do departamento de saúde da USP, perguntou se eu poderia traduzir para o inglês o artigo de uma colega professora para publicação em uma revista internacional.

Aceitei o desafio, a autora gostou do resultado e então ela e meu pai começaram a me indicar sempre que uma oportunidade surgia. Dizem que indicação boca a boca é mais eficiente do que propaganda, e eu concordo plenamente.

O interessante é que, desde o começo da carreira, a direção da tradução também me escolheu: 99% das traduções que faço são do português para o inglês e 1% do inglês para o português.

Portanto, traduzo artigos acadêmicos da área da saúde do português para o inglês há 20 anos. Você deve se perguntar: “Você não se cansa?”. Não!

Dentro dessa área, você traduz um artigo a respeito da mortalidade perinatal nos hospitais de São Paulo em um dia, noutro, um estudo sobre o tratamento da malária em mulheres grávidas da região amazônica e, no final da semana, outro artigo acerca das contribuições da medicina antroposófica para a integralidade da formação médica.

Além de aprimorar o conhecimento sobre um tema que me interessa (afinal de contas, não teria escolhido biologia se não gostasse de ciências da saúde), gosto de contribuir para a visibilidade internacional da pesquisa brasileira. Gosto de imaginar o papel que desempenho quando artigos sobre as conquistas (e também os fracassos) do Brasil na área da saúde são publicados em revistas internacionais.

Traduzo também outros tipos de textos, principalmente nas áreas de educação, linguística aplicada, comunicação e administração. Essa variedade de assuntos faz com que não me sinta entediada, porém, nada me dá mais prazer do que traduzir um artigo da área da saúde.

Quando trabalho com textos de outras áreas, passo muito tempo pesquisando antes de começar a traduzir, mas quando traduzo um texto sobre saúde, tudo o que faço é sentar, ligar o computador e traduzir! Presto serviços para dois tipos de clientes, sempre como freelancer: pessoas que desejam enviar seus artigos para publicação em revistas internacionais e revistas científicas que têm suas próprias equipes de tradutores.

Nos últimos anos, tenho trabalhado regularmente para seis revistas brasileiras, nos seguintes temas: saúde, educação e comunicação; enfermagem; saúde e atividade física; crescimento e desenvolvimento humano; administração de empresas; e, cidades e metrópoles brasileiras. O pagamento é feito de três maneiras: os autores dos artigos me pagam diretamente pela tradução; a revista é bilíngue e paga pelas traduções; a revista e o autor pagam 50% do custo cada. Infelizmente, os pagamentos feitos pela instituição responsável pelas revistas podem levar muito mais tempo do que o esperado. Mas, quem disse que seria sempre um mar de rosas?

Se eu uso algumas ferramenta CAT? Até agora, não! Como esse é um assunto atual, me sinto na obrigação de abordá-lo.

Já fiz alguns cursos, porém, não as utilizo porque traduzir artigos implica em respeitar o estilo acadêmico, o estilo da área (por exemplo, artigos da área da saúde são escritos de uma maneira diferente daqueles da linguística aplicada, tantos em relação ao estilo quanto de jargão) e, ainda, o estilo idiossincrático do autor. Dentro desse contexto, penso que as ferramentas CAT não sejam muito úteis.

Além disso, meus serviços não são contratados por agências, ou seja, não preciso entregar memórias de tradução, nem nada similar. Perguntei para alguns colegas que trabalham comigo nessas revistas e eles também não acreditam que seja necessário usar essas ferramentas. Nenhum cliente nos pediu para traduzir seus artigos usando o TRADOS ou memoQ. Por enquanto, nosso trabalho pode continuar a ser como o de um “artesão das palavras” e acredito que o Google Tradutor não substituirá nosso trabalho tão cedo. É claro, a necessidade é a mãe das invenções e é mais do que provável que logo tenhamos que nos adaptar a essa nova realidade.

Bem, essa é a “história de amor” que eu queria compartilhar com vocês! Espero que tenham gostado e fiquem à vontade para postar qualquer dúvida ou comentário.

Sobre a tradutora
GabriellaGabriella Strapasson é formada em Licenciatura em Letras Português/Inglês (UTFPR). Trabalha como tradutora in-house há seis meses com o par inglês > português e também é professora de inglês. Faz pós-graduação em Tradução de Inglês na Estácio de Sá e está se especializando nas áreas de Finanças, TI e Jurídica. É integrante do TradLin – UTFPR, um grupo de pesquisa sobre Estudos da Tradução. Reside em Curitiba-PR e pode ser encontrada no Facebook e LinkedIn.

A competência do tradutor

Sejam bem-vindos de volta, queridos leitores! 😀

Interrompemos a programação normal do blog para publicar a tradução de uma de nossas publicações convidadas. Em dezembro de 2014, a querida Lynne Bowker escreveu o texto Translators and the need for speed. Hoje, é com imenso prazer que recebo no blog a turma de tradução da Unilago, orientada pelo professor (e querido amigo) Deni Kasama.

Sejam muito bem-vindos! 🙂

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Estou muito animada para escrever uma publicação convidada para o blog da Caroline, que eu conheci na XXXIV Semana do Tradutor, no Brasil, em setembro. A Caroline disse que eu tinha liberdade para escolher qualquer tema relevante para tradutores ou relacionado a tradução, contanto que ele ainda não tivesse sido abordado em nenhuma publicação anterior. Assim, como boa tradutora e pesquisadora, primeiro li diligentemente as publicações anteriores (eu tentei ler mesmo aquelas em português!). E estou realmente feliz por ter feito isso. Por um lado, sinto que conheço a Caroline um pouco melhor. Descobri que ela gosta de Alice no País das Maravilhas, o que significa que ela tem algo em comum com Warren Weaver, um dos meus heróis pessoais no domínio da tradução. Esse Weaver é o do “Weaver’s Memorandum“, o documento que deu início a uma investigação séria sobre tradução automática. Independentemente de você ser ou não um fã de tradução automática, o Dr. Weaver era uma pessoa impressionante em vários aspectos.

Descobri também que fazemos aniversário na mesma semana em janeiro, o que significa que a Caroline é do signo de capricórnio. Não me admira que ela seja tão dedicada, trabalhadora e profissional, e também uma excelente pessoa, generosa e cheia de outras qualidades. 🙂 Obrigada, Caroline, pela oportunidade de conhecê-la melhor e escrever uma publicação convidada para o seu blog.

Ao ler as publicações anteriores, observei alguns temas recorrentes, como “formação de tradutores”, “conhecimento vs habilidades” e “produtividade”. Decidi tentar estender a discussão de algumas dessas ideias, enquadrando-as no contexto de minha própria experiência como professora de tradução na Universidade de Ottawa, no Canadá.

A questão é saber se um programa de formação de tradutor deve se concentrar em conhecimento (que tende para a teoria ou o que Don Király (2000) denomina “competência tradutória”) ou habilidades (que tendem mais para as atividades não linguísticas que oferecem suporte à tradução ou o que Király classifica sob a categoria de “competência do tradutor”). Convencionalmente, as universidades têm dado preferência para o conhecimento, alegando que as habilidades são efêmeras demais. Por exemplo, um professor universitário pode argumentar que, no que diz respeito à tradução auxiliada por computador, o que é importante para se aprender em sala de aula são os conceitos subjacentes e não o passo a passo da utilização de um software, que pode estar desatualizado ou fora de moda quando o aluno se formar. Em vez disso, o foco de uma educação universitária está no desenvolvimento da análise crítica, em aperfeiçoar a avaliação e refinar o julgamento. Acho que poucas pessoas poderiam argumentar contra esse enfoque. A tradução é uma tarefa desafiadora, e fazê-la bem exige uma séria reflexão. Aprender a fazê-la bem, mais ainda!

No entanto, as universidades não podem ignorar o fato que, depois que se formam, esses alunos precisam atuar num ambiente de trabalho profissional. Uma área na qual os recém-formados por vezes encontram dificuldade é no cumprimento dos prazos apertados, que são uma realidade na profissão de tradutor.

Em muitos cursos de formação de tradutores, o enfoque é colocado firmemente em incentivar os alunos a refletir de maneira integral, analisar profundamente e pesar cuidadosamente as opções antes de se comprometer com uma estratégia de tradução, escolha terminológica ou expressão. Não há dúvida que os alunos devem cultivar essas habilidades analíticas deliberadas, e a eles deve ser dado o tempo para desenvolvê-las. Contudo, no mundo profissional, pode haver menos tempo para cuidadosas reflexões. Em vez disso, a tradução deve vir rapidamente, se não automaticamente. Portanto, faz sentido que se adicione uma aprendizagem autêntica e contextualizada que teste e melhore a capacidade de tradução dos alunos sob pressão de tempo. É uma maneira a mais de preparar os alunos para o mundo do trabalho e para que eles experimentem a tradução de uma forma diferente e sob outras circunstâncias.

Dessa forma, tomei uma decisão consciente de tentar introduzir uma espécie de “treino de velocidade” nas aulas que dou. Pela primeira vez este ano, numa aula do 3º ano sobre  escrita profissional, peço aos alunos que comecem cada aula preparando um resumo de um texto mais longo. Os textos em questão tratam de temas populares, de interesse geral para os estudantes no Canadá (por exemplo, a Estação Espacial Internacional, os campeonatos mundiais de beisebol, a descoberta de um barco afundado do século XIX, no Ártico). Cada texto tem aproximadamente 600 palavras, e os alunos têm de 15 a 20 minutos para resumir esse conteúdo em cerca de 200 palavras. Os alunos recebem um feedback semanal, embora os exercícios nem sempre sejam avaliados com notas. Isso tira a pressão e permite que os alunos desenvolvam essas habilidades num contexto de baixo risco.

A ideia geral por trás desse exercício de sumarização com “treino de velocidade” é que ela pode permitir que os estudantes aperfeiçoem uma série de habilidades e reflexos que também são úteis para a tradução: a capacidade de analisar e compreender o significado rapidamente, de extrair ideias-chave e a estrutura de um texto, de organizar ideias e de transmitir ideias com precisão, bem como reconhecer e evitar distorções na transferência de informação. Com a introdução do treino de velocidade num contexto de escrita, eu espero que os alunos possam aperfeiçoar sua capacidade para tomar decisões rapidamente, e eles podem, em seguida, estender isso para um contexto bilíngue numa fase posterior da formação.

Os alunos foram questionados, no meio do semestre, para determinar se acharam ou não o exercício relevante. No geral, os comentários foram positivos. Eles afirmaram ter observado um valor genuíno em aprender a trabalhar de forma mais rápida e realmente acharam que estavam melhorando essas habilidades com prática regular de velocidade de escrita. Haverá outra avaliação no final do semestre, e vai ser interessante ver como os pensamentos deles evoluíram.

Enquanto isso, da perspectiva de um professor, também observei melhorias. Em primeiro lugar, no início do semestre, alguns alunos foram incapazes de concluir o exercício. No entanto, agora que estamos nos aproximando do final do semestre, os alunos são capazes de terminar dentro do prazo estipulado. Eles estão ficando mais rápidos! No que diz respeito à qualidade, o fluxo de informação tem melhorado significativamente. Os últimos resumos lidos fluem como textos reais, em vez de uma coleção de sentenças independentes. Os alunos também estão apresentando um trabalho melhor em diferenciar entre as ideias-chave e o conteúdo mais periférico.

Então, minhas perguntas para vocês, leitores, são as seguintes: Você já fez algum “treino de velocidade” formal como parte de sua formação? Se não, você acha que teria sido útil? Você tem sugestões de outras maneiras em que o “treino de velocidade” poderia ser incorporado num programa de formação de tradutor? Você tem sugestões de outros tipos de habilidades de “competência do tradutor” profissional que poderiam ser utilmente incorporadas em um programa de formação de tradutor?

Alguns professores de tradução estão realmente interessados em ajudar os alunos a construir uma ponte entre a teoria e a prática, mas, para fazer isso com sucesso, precisamos da contribuição de profissionais que já estejam atuando! Estou ansiosa para ouvir suas opiniões! E obrigada, novamente, à Caroline pela oportunidade de escrever esta publicação convidada.

Muitíssimo obrigada ao Deni, pela ideia de traduzir o excelente texto da Lynne como trabalho bimestral da disciplina, e aos alunos, pela dedicação e pelo interesse. Foi um grande prazer recebê-los no blog.

About the translators
thumb_IMG_9940_1024Os alunos da disciplina de Prática de Tradução II (2015) do curso de Bacharelado em Letras com habilitação em Tradução e Interpretação em Língua Inglesa da União das Faculdades dos Grandes Lagos (UNILAGO) é formado pelos alunos Adriana Ramos, Alexandre Souza, Ana Flávia Peres, Bruna Fioroto, Danilo Figueiras, Higor de Morais, Ingrid Pereira, Janaine Nogueira, Jaqueline Nogueira, Pâmela Constantino, Priscila Geromini, Rafaela Ramires, Rogério de Souza, Teresa Dambi e Victor Marchini. A disciplina é ministrada pelo professor Deni Kasama.

Feedback: bom mesmo quando é ruim

Começamos uma nova semana com mais uma tradução. Esta é a segunda colaboração da Paula Caniato. Desta vez, a tradução é da publicação do César Faria, Feedback: Good Even When Bad.

Era uma sexta-feira quente, 16h, e eu tinha acabado de desligar meu notebook depois de uma semana bastante movimentada, dividindo meus dias entre meus dois empregos na época: professor de inglês e tradutor iniciante. Tudo o que eu queria era um tempo para relaxar e descansar um pouco, recarregar as baterias para o segundo turno. Foi aí que meu celular tocou…

Para minha surpresa, era a coordenadora de controle de qualidade da única agência para a qual eu costumava prestar serviços na época. Embora fizesse parte dos meus contatos no Skype, eu nunca tinha falado com ela. Bem, depois de ela ter se identificado, meu sangue gelou, me deu um frio na barriga e eu sabia que não podia esperar nada de bom.

E eu estava certo. Ela se apresentou muito gentilmente e me pediu para abrir o Skype a fim de que pudéssemos conversar sobre um arquivo que eu tinha traduzido alguns meses antes. Era um arquivo .ppt grande e complexo sobre fundos de investimento que deveria ser traduzido da noite para o dia, portanto, eles me ofereceram uma ótima taxa de urgência. Não fazia mais de seis meses que eu estava trabalhando como tradutor, mas senti que conseguiria fazer o trabalho decentemente, já que minha produtividade era boa na época. Eu estava totalmente errado. Quase perdi o prazo, muitos erros foram apontados, o cliente final retornou o arquivo com várias reclamações e um desconto foi aplicado como penalidade.

Não tinha como eu me sentir mais frustrado com uma situação tão desagradável. Entretanto, a coordenadora de controle de qualidade foi bem simpática e compreensiva. Ela me disse, gentilmente, que eu poderia aprender com a experiência e usá-la para melhorar minhas habilidades e minha atenção. Até então, eu não tinha recebido nenhum tipo de feedback e, principalmente por ser negativo, esse serviu para me colocar em um estado de muita atenção e cautela antes, durante e depois de qualquer trabalho de tradução. Posso afirmar com certeza que minhas preocupações com relação à qualidade começaram a ser construídas e desenvolvidas devido a esse evento tão traumático.

O tempo passou e, agora, grande parte do meu trabalho consiste em coordenação e edição/revisão de projetos. Para muitos deles, tenho que fornecer um feedback para os tradutores envolvidos. Como sempre me lembro da maneira extremamente educada que minha antiga coordenadora de qualidade lidou com a situação mencionada acima (e já que aquilo também me fez crescer profissionalmente), eu gostaria de compartilhar algumas dicas para tradutores, especialmente iniciantes, sobre como lidar com feedbacks:

  • Leia todas as correções e sugestões e crie um arquivo separado com elas. Sempre tenho um arquivo de feedbacks por cliente e um arquivo principal com todos os feedbacks que recebo. Isso pode ajudar você a aprender com especialistas ou clientes de campos muito específicos. Você sempre terá uma carta na manga se ocorrer um problema de terminologia/consistência em um projeto futuro para o mesmo cliente.
  • Se você não concorda com algo, questione. Naturalmente, se você acredita que está certo, fará uma pesquisa mais aprofundada para provar seu ponto de vista. Faça isso com educação e não se esqueça de incluir boas fontes. Na nossa profissão, não há lugar para arrogância. Todos nós sabemos que o tempo é curto e decisivo e, como seres humanos, erros podem acontecer, mesmo por parte daqueles que deveriam corrigi-los.
  • Depois de receber, ler e concordar com o que foi escrito sobre seu trabalho, não vire as costas, esqueça sobre ele e volte para suas traduções. É sempre bom responder à mensagem. Preparar listas de erros, indicando correções, sugerindo maneiras de melhorar o estilo, entre outras coisas, é muito estressante e demorado. Particularmente, não gosto muito de ser responsável por dar um feedback negativo para alguém, mas tenho que fazê-lo. É bom quando a pessoa avaliada informa que tudo foi entendido e que a próxima vez será melhor.

Por fim, todos nós sabemos que tradução é uma atividade que requer aprendizado constante. Nunca saberemos tudo e devemos aprender com nossos erros. Estou totalmente ciente de que a última frase foi um completo clichê, mas acredito que todas essas ideias sejam essenciais para nos tornar mais cuidadosos e responsáveis quando um trabalho nos for designado.

Obrigado, Carol, pela oportunidade. Ficarei extremamente feliz em ler comentários e outras histórias relacionadas a esse tópico. Sintam-se a vontade para me enviar um e-mail: cesarhf.translator@gmail.com

Muito obrigada por mais uma colaboração para o blog, Paula! 🙂

About the translator
DSC04193Paula Caniato acabou de se formar no curso de Bacharelado em Tradução (UNESP). Seus pares de idioma são inglês > português brasileiro e espanhol > português brasileiro. No início de 2014, ela decidiu começar a traduzir profissionalmente e foi contratada por uma agência de Campinas. Hoje, Paula está se especializando nas áreas de TI e marketing e também sonha com um futuro no mercado editorial. Ela reside em São José do Rio Preto – SP e pode ser encontrada em http://about.me/paulacaniato.

Tradução de quadrinhos

Estamos de volta com as traduções de publicações do blog. Hoje temos uma nova tradutora, a Carolina Sertório, que traduziu a publicação da convidada Tatiana Yoshizumi, Comics Translation, do inglês para o português.

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Quando a Carol me convidou para escrever uma publicação para o blog dela, conversamos um pouco sobre o que eu poderia escrever: as tarefas de uma editora-assistente ou a tradução de histórias em quadrinhos. Como este é um blog sobre tradução, decidimos que seria mais interessante escrever sobre o segundo tópico.

Como tudo começou

Traduzir não é necessariamente a tarefa de um editor. No entanto, minha equipe é pequena (somos apenas nove), a editora para a qual trabalho é internacional, portanto, tive a oportunidade de traduzir. Comecei traduzindo álbuns de figurinhas, que é bem simples, passei a traduzir algumas páginas de livros e, por fim, quadrinhos (que é bem divertido!).

Cheguei a traduzir quadrinhos italianos, conhecidos como Fumetti, e A Hora de Aventura (quadrinho baseado em um desenho de mesmo nome). 

Comparação com outros tipos de tradução

Ao traduzir quadrinhos, podemos usar e combinar várias técnicas usadas em outros tipos de traduções:

Tradução literária: a tradução de quadrinhos é bem parecida com a tradução literária, principalmente levando em conta os diálogos. Normalmente, usamos uma linguagem informal, tentando simular a linguagem oral.

Localização de jogos: dependendo do gênero dos quadrinhos que você estiver traduzindo, há diversas gírias. Além disso, é necessário levar em consideração o contexto e as imagens que devem corresponder com o texto.

Tradução técnica: os personagens podem usam termos técnicos e é preciso pesquisá-los para encontrar a tradução mais adequada no seu idioma. Também é possível que seja necessário pesquisar um assunto específico. Por exemplo, durante uma de minhas traduções, precisei aprender sobre a Colonização Italiana da Etiópia.

Poemas: pode ser necessário escolher entre significado e forma, caso você prefira traduzir as palavras e “perder” uma piada ou manter a piada e traduzir literalmente.

Principais desafios

Agora quero apresentar os principais desafios que enfrentei até hoje.

  1. O primeiro, é equilibrar a linguagem oral com a escrita. Geralmente, tentamos usar a linguagem oral nas falas dos personagens para soar mais natural, portanto, usamos abreviações, gírias, contrações ou mesmo uma gramática errada. No entanto, sempre há um limite. É preciso criar um padrão.
  2. Cada personagem tem uma forma peculiar de falar e você é o responsável por transferir isso para o seu idioma, recriar essa maneira particular, criar um padrão e um vocabulário para determinado personagem.
  3. É necessário estar atento à arte. O texto deve corresponder ao que foi desenhado. Isso quer dizer que, se você estiver traduzindo um texto e optar por trocar as palavras para criar uma piada, está tudo bem. Porém, se estiver traduzindo quadrinhos e a palavra estiver ilustrada, você não poderá alterá-la.

Muito a ser discutido

Eu poderia escrever sobre várias outras coisas e dar outros exemplos, mas acredito que consegui transmitir uma ideia geral sobre como é a tradução de quadrinhos de acordo com a minha visão.

Espero que tenham gostado da publicação e, caso queriam saber mais, deixem um comentário ou entrem em contato!

Obrigada por lerem e, muito obrigada, Carol, pelo convite!

Obrigada pela colaboração com o blog, Carolina! Parabéns pelo ótimo trabalho!

Sobre a tradutora
IMG_20141222_131923Carolina Sertório ama viajar, voluntariar e praticar Muay Thai! Tradutora & Intérprete profissional (inglês <>português) formada pela Universidade Nove de Julho em 2010 e instrutora de idiomas desde 2007. Para mais informações, clique em About.me ou LinkedIn.

Tradução audiovisual: legendagem x dublagem

Hello, dear readers! How was your weekend? Ready to start another week? Well, before you do, why not enjoy another translation? Or during your lunch/break time, depending where you are.

Esther Dodo, our frequent translator, has translated the guest post Audiovisual translation: subtitling vs dubbing (by Valentina Ambrogio) from English to Brazilian Portuguese.

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Se há uma coisa que aprendi na minha experiência como tradutora audiovisual é que jamais serei capaz de assistir a filmes estrangeiros (ou a qualquer programa de TV) como costumava fazer. Sim, porque agora presto atenção a todos os detalhes relacionados a tradução! Imaginem como o meu namorado se sente quando começo a reclamar das traduções mal feitas ou dos erros de segmentação das legendas, quando a única coisa que ele gostaria de fazer é relaxar depois de um longo dia.

Deixe-me explicar um pouco sobre a minha especialização.

O que é tradução audiovisual? 

Tradução audiovisual (TAV) é a tradução de qualquer material de áudio, visual ou audiovisual para facilitar a distribuição dele em um mercado diferente. Quando falamos em TAV, normalmente nos referimos à dublagem, legendagem, localização e acessibilidade da mídia (audiodescrição, legendagem para deficientes auditivos).

A maior parte do meu trabalho é com legendagem e dublagem, portanto, falarei mais sobre essas duas áreas e a minha experiência com elas.

Legendagem

As legendas ajudam o público entender a “parte falada” de um filme enquanto ouve os diálogos originais. A prática generalizada de legendagem feita por fãs fez com que as pessoas acreditassem que ela é uma tarefa fácil. Sinto muito desapontá-los, mas não é! Como qualquer outra especialização no segmento da tradução, o profissional precisa de treinamento adequado, e a existência de cursos certificados na área é uma clara indicação disso. A legendagem não é apenas uma mera tradução (o que é, então?), e o legendador deve, por exemplo, tomar alguns cuidados com:

  • Quantidade de caracteres – normalmente, cada linha não pode ter mais que 40 caracteres, e cada legenda pode conter até, no máximo, duas linhas.
  • Duração – o espectador deve ter tempo para ler todas as legendas que aparecerem na tela. O tempo médio de duração é de 1,50 a 2 segundos para legendas bastante curtas (com uma ou duas palavras) e até 6 segundos para as mais longas.
  • Sincronização –o diálogo do filme e a presença das legendas na tela devem ser correspondentes.

No entanto, a tradução audiovisual não se limita apenas a traduzir diálogos. Existem outros tantos elementos importantes (como placas, letras, textos na tela e outros textos escritos) que são frequentemente fundamentais para a trama e, portanto, devem ser traduzidos. Isso se torna um problema quando existem trechos de diálogos importantes e, ao mesmo tempo, uma placa relevante surge na tela. Em casos assim, o legendador deve fazer uma escolha importante e omitir o que ele considera menos relevante para o desenrolar do enredo. As boas legendagens são como vestidos feitos sob medida: eles servem perfeitamente, mas o papel do alfaiate não é visível. 

Dublagem 

Dublagem é a tradução com ajuste (ou melhor, adaptação) nos diálogos para os movimentos labiais do ator (sincronização de lábios), que também é um dos maiores obstáculos do processo de dublagem. Certa vez, li que a dublagem é como uma ilusão de que os personagens falam na língua alvo. Na dublagem, a abordagem de tradução é muito diferente do que na legendagem. Por exemplo, o tradutor deve fornecer o máximo de indicações possíveis para o ator que fará a dublagem, como:

  • Nome do personagem;
  • Pausas curtas ou longas;
  • Diálogos dentro e fora da tela, mesmo dentro da própria frase.

Essas são apenas algumas delas, existem muitas outras. A tradução

final se parece muito como um roteiro de cinema, mas com muito mais detalhes. Outros fatores a serem considerados são os movimentos corporais e os elementos não verbais. A dublagem ocorre na fase de pós-produção. Ela envolve toda uma equipe de especialistas, motivo pelo qual seus custos são consideravelmente mais altos do que os da legendagem.

Legendagem ou dublagem?

Existe uma longa discussão em curso sobre os prós e contras dessas duas técnicas bastante diferentes. Resumindo, por um lado, a legendagem permite que o espectador desfrute dos diálogos originais, o que é bom tanto para o aprendizado da língua quanto pelo simples fato de poder apreciar as vozes originais e todas as diferentes nuances delas.

Além do mais, é mais rápida do que a dublagem, acelerando, assim o acesso à mídia. Por outro lado, nem todo mundo gosta de assistir a um bom filme com legenda, que é considerada um elemento de distração. Essa situação é mais comum em países onde a dublagem é a prática mais comum.

Na Itália, algumas das maiores empresas de dublagem, administradas por um número pequeno de famílias, são responsáveis por 80% do total dos filmes e trabalhos correlatos de dublagem, incluindo a parte tradutória. O resultado é que todos os filmes não apenas falam a mesma língua, como também têm as mesmas vozes. Essa, na minha opinião, é uma das maiores desvantagens da dublagem. Não me leve a mal, os dubladores são verdadeiros profissionais. Eles são impecáveis e tão bons quanto os atores, mas acredito que a dublagem interfere muito na essência dos filmes.

Bem, eu defendo a legendagem. Meu último trabalho de legendagem envolveu adaptações de filmes para festivais internacionais de cinema. A tradução de filmes estrangeiros faz  com que eu tenha contato com diferentes culturas e estilos culturais de filmes diversos. Às vezes, sinto-me verdadeiramente conectada com esses filmes e fico bastante triste quando o trabalho chega ao fim (é nesse nível que amo esse trabalho). Existe sensação melhor do que essa?

About the translator
Esther PicEsther Dodo é paulistana, formada em Administração de Empresas, tradutora freelancer e, atualmente, está prestes a obter certificação como tradutora no par inglês-português na New York University (NYU). Reside nos EUA desde 2001. Entre em contato com ela peloLinkedIn e pelo Facebook.

A formação acadêmica realmente faz diferença?

Let’s welcome the week and the new month with another English to Brazilian Portuguese translation? The post Does an academic background really make a difference? was translated by Paula Caniato.

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Este é um assunto um pouco controverso na área de tradução. Os que têm formação acadêmica dizem categoricamente que ela é essencial. Já os que não a têm dizem que não é. Com bacharelado e mestrado em tradução, tenho que admitir que sou suspeita para falar. Se você for como eu, provavelmente gostará desta publicação. Porém, se você não tiver formação acadêmica, não desista: continue lendo. Se eu conseguir fazer você mudar de ideia, ótimo! Caso contrário, você pode compartilhar esta publicação como a coisa mais absurda da qual já ouviu falar. 😉

O que acontece é que, infelizmente, para tornar-se um tradutor você não precisa necessariamente ter curso superior. Se alguém domina (ou não) dois idiomas, essa pessoa pode trabalhar como tradutora (entenda que não estou discutindo qualidade e profissionalismo aqui, só o fato de que praticamente qualquer um pode ser tradutor). Simples assim. Se é justo ou não, isso é assunto para outra discussão. O fato é que, já que a formação acadêmica não é obrigatória, às vezes as pessoas se recusam a “gastar” tempo e dinheiro sentandas em uma cadeira, lendo e escrevendo muito, e praticando tradução.

Afinal, para que estudar tradução? Darei algumas razões:

  1. O conhecimento teórico que você aprende ajudará a construir seu “eu” tradutor, sua identidade como profissional que conhece toda a história e as teorias por trás da arte de transformar um monte de palavras em uma língua em um lindo texto bem-trabalhado em outra.
  2. Você terá prática de sobra em traduzir vários tipos de texto. Isso ajudará a ter pelo menos uma ideia de qual caminho seguir. Além disso, essa prática ensina alguns truques, o que fazer e o que não fazer.
  3. Aulas de gramática. Elas podem parecer bobas e inúteis, mas acredite: você não sabe tudo e comete erros gramaticais dos quais nem está ciente.
  4. Aulas de cultura e literatura nos seus dois idiomas de trabalho. E, dependendo da sua especialização, ainda há outras aulas. Por exemplo, meu mestrado foi em Estudos da Tradução com Comunicação Intercultural, portanto, tive, entre outras, aulas de Comunicação Interpessoal e de Tradução de Culturas.
  5. Você acaba aprendendo mais do que esperava. Aprendi italiano no meu bacharelado (para tradução, inclusive) e grego no meu mestrado (Ab initio para tradução).
  6. Oferece reconhecimento e legitimidade.

Essas razões são convincentes? Bem, algumas pessoas dizem que o ruim nesses cursos é que eles não oferecem uma ideia prática do mercado. É verdade. Entretanto, questiono se esse é realmente o papel da universidade. A universidade só orienta você. Não é responsabilidade dela dar todas as informações necessárias para você ser um profissional bem-sucedido. Esse é seu trabalho. Vivendo e aprendendo, na prática. Além disso, é melhor ser introduzido ao mercado com todos os conhecimentos que apontei acima do que com nenhum.

No final, não há desvantagens em fazer um curso superior (em qualquer área). Conhecimento nunca é demais.

Alguns outros artigos relacionados:
How (Not) to Be a Professional Translator and 6 Tips to Help You Become One
The (un?)importance of translation-specific degrees to translation
Masters in Translation

Qual é sua opinião sobre esse assunto? Você tem uma formação acadêmica em tradução? Concorda com a minha opinião? Tem algum outro ponto (bom ou ruim) que você acrescentaria?

Thank you, Paula, for your contribution to our blog! 🙂

About the translator
DSC04193Paula Caniato está no último ano do curso de Bacharelado em Tradução (UNESP). Seus pares de idioma são inglês > português brasileiro e espanhol > português brasileiro. No início de 2014, ela decidiu começar a traduzir profissionalmente e foi contratada por uma agência de Campinas. Hoje, Paula está se especializando nas áreas de TI e Marketing e também sonha com um futuro no mercado editorial. Ela reside em São José do Rio Preto – SP e pode ser encontrada em http://about.me/paulacaniato.

Não espere que as coisas caiam do céu. Vá à luta e corra atrás delas!

Let’s start the last week of October with a new translation from English into Brazilian Portuguese by Esther Dodo, our frequent contributor to translating the blog posts. This time, the post Don’t wait for things to fall from the sky. Go and get it! was the chosen one. Enjoy!

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Esta publicação sobre a importância de ter ou não formação acadêmica suscitou um saudável debate sobre a relevância de ter um curso superior em tradução ou não e, consequentemente, o que os cursos universitários estão deixando a desejar. Portanto, desta vez, decidi falar sobre essa “lacuna”.

Lembro-me bem do meu primeiro projeto. Foi para uma agência de tradução, era uma apresentação em PowerPoint. Como era iniciante, eu ainda não tinha nenhuma ferramenta CAT, portanto, além de traduzir, tive que arrumar a formatação. Sejamos realistas: o PowerPoint não é o melhor amigo do tradutor, principalmente quando o coitado (o tradutor, quero dizer) é totalmente inexperiente.

Entretanto, até aqui, tudo estava indo bem.

O problema é que havia imagens não editáveis no arquivo. Entrei em pânico. O prazo de entrega era curto, foi durante um final de semana, e eu não tinha a mínima ideia de como traduzir aquelas imagens! Eu não sabia o que fazer. Não era possível entrar em contato com ninguém da agência para pedir ajuda, pois era sábado à noite. Acabei inserindo a tradução sobre a imagem.

Resumo da história: o projeto voltou porque eu obviamente não sabia (e como deveria saber?) que as imagens não editáveis deveriam ser traduzidas nos comentários. Naquela ocasião, foi exatamente isso que pensei: “Como eu deveria saber? Ninguém nunca me falou a respeito disso!”

É isso mesmo, o bacharelado e o mestrado em tradução não ensinarão os aspectos práticos necessários para quando você estiver trabalhando como tradutor.

Seria isso um problema? Seria isso algo que os cursos carecem? Não tenho certeza.

Normalmente, os professores universitários são acadêmicos, pesquisadores, não tradutores profissionais. As aulas são práticas e teóricas, mas não direcionadas ao ato tradutório em si. Você traduz e, no máximo, aprende uma coisa ou outra sobre essa ou aquela ferramenta CAT. Nada mais. Você não aprende sobre gerenciamento de projetos e como lidar com eles, não aprende nada sobre contabilidade, muito menos sobre branding/publicidade.

Como aprendemos sobre tudo isso? Praticando. Ou participando de aulas extracurriculares, cursos, congressos, eventos, palestras, lendo blogs, participando de grupos profissionais, perguntando, pesquisando, etc. Em outras palavras, buscando por si próprio, não esperando que as coisas caiam do céu.

Isso não é algo complicado. Na verdade, a internet faz com que tudo seja muito simples. Você só precisa estar disposto a dedicar um tempo para as mídias sociais.

Aqui estão algumas dicas sobre como aprender a fazer isso:

  • Siga as pessoas (tradutores, agências, empresas) nas mídias sociais (Facebook, Twitter, Google+, LinkedIn, etc). Também há grupos específicos para tradutores no Facebook dos quais você pode participar. Eles oferecem boas dicas e discussões, além de permitir que você faça suas próprias perguntas para os outros membros.
  • Siga blogs de tradutores. Você encontrará todos os tipos de informações úteis em publicações de blogs.
  • Participe de eventos de tradução, como congressos, simpósios, etc. As mídias sociais podem ajudá-lo a se atualizar com os eventos que serão realizados próximos de você.
  • Aproveite seu curso ao máximo. Veja se sua universidade oferece atividades extracurriculares que possam lhe interessar.
  • Por último, mas não menos importante, interaja com pessoas, crie redes de contatos. Faça perguntas quando tiver alguma dúvida. Sempre tente aprender com a experiência dos outros.

Na verdade, seria perfeito se as universidades oferecessem palestras práticas sobre como administrar o nosso trabalho e como lidar com clientes, ou se houvesse uma especialização em gerenciamento na área tradutória. Mas como esse não é o caso (ainda?), temos que fazer a nossa parte e tentar buscar as respostas por conta própria.

Artigo relacionado:
Story of a Translator Student: You are in ControlofYour Life

Qual é sua opinião sobre esse assunto?

Thanks for another great contribution to our blog, Esther! Looking forward to your other translations. 🙂

About the translator
Esther PicEsther Dodo é paulistana, formada em Administração de Empresas, tradutora freelancer e, atualmente, está prestes a obter certificação como tradutora no par inglês-português na New York University (NYU). Reside nos EUA desde 2001. Entre em contato com ela peloLinkedIn e pelo Facebook.

In-house or freelance translating? It’s up to you!

Hi, dear followers! How are you doing? I know I’ve been absent from the blog – it’s been three weeks since my last weekly post. I’m sorry! Working a lot, no time left for writing, unfortunately! 😦 This week is less busy, so I promise there will be a post on Thursday. Stay tuned!

For now, we have another translated post. This time, from Portuguese into English, for a change. The source is Traduzir in-house ou traduzir como freelancer? Só depende de você! Today’s translator is Viviane Real.

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When I got Carol’s invite to take part in her guest posts, I immediately decided to talk about how I see the possibilities of ”working freelance” vs ”working for a translation company”’. However, only after learning that translator Mariana Sasso had chosen the same topic and after reading her text did I start to think about how to approach different aspects from those she had already tackled in her post. So, in this text I’ve tried to talk about the same subject from a different point of view and I hope I was able to pull it off. 🙂

The first time I came across these two kinds of professional possibilities was right after I got my Master’s degree and entered the translation market.  An agency was offering both internal positions and freelance opportunities. Since I didn’t have any experience and was eager to get in the market, I applied for both. I ended up being selected for one of their internal positions so my first experience was as an in-house professional translator.

The experience as an in-house translator was, undoubtedly, invaluable, since it allowed me to take my first steps in the profession and to learn how the technical translation market works. I can also say that this job helped me to complement the sound education my BA in Languages specialized in Translation provided me. Back then, in my opinion, one of the biggest advantages of working in-house was the stability and safety provided by formal employment. In fact, I used to be quite wary of the possibility of working and making a living as a freelancer. I used to think to myself, ””Is it possible to make enough money working from home? What if there is no work? What if there are no clients? What if…?”.

I worked at the company for almost a year and when I left, my second professional experience started: this time as a freelancer. To my surprise, the fears of being self-employed I used to have before soon became meaningless, because right from the start, I can say that there was always frequent and uninterrupted work. Soon, I came to notice some aspects that, in my opinion, are advantages over in-house work. As a freelancer, I could truly dedicate myself to what I like the most: translating! That might seem obvious, but it isn’t. As an in-house translator, besides translation itself, professionals are also responsible for several stages through which the text must go until and after its final delivery to the client: revision (comparing the original to the translation), proofreading (reading of the translated text only), implementation of updates/corrections/alterations/client feedback, etc. These changes are not motivated only by problems with terminological or linguistic quality. For instance, the client frequently asks for changes in the source after the translation has started or even after delivery, thus an update is necessary so that it matches the new source. Some other times, even though the client or reviser often recommends important alterations that improve the overall quality of the final text, there are situations when the suggested changes are questionable in terms of relevance, such as replacing a noun phrase with a verb phrase – ”chocolate cake” becomes “chocolate flavored cake”, and it is up to the in-house professional to accept/reject and implement or not these modifications (bearing in mind that in case of rejection, it is necessary to justify the decision). It is important to highlight that I don’t think these post-translation stages are less important, and I believe that enjoying or not these other tasks depends on the translator profile. Now I know I am one of those professionals who don’t like them. Thus, one of my first and happiest discoveries as a freelancer was that I could just translate and feel free to refuse working with revision, implementation, updating, etc.

For four and a half years, I worked as a freelancer. During this period, I started and kept solid partnerships with some companies and was also able to focus on technical areas I like the most, namely IT and marketing.  After that, I felt the need for a change, for doing something different so I started to consider the possibility of getting back to in-house translation. Even though there were not many problems with the freelance translator routine and work remained plentiful, the “wind of change” was blowing again and I decided to follow it.

I got back to working as an internal translator for another company. I can say that, in this second in-house experience, I missed the time when, as a freelancer, I used to ask to take a look at a text before accepting the job and if it was a gyratory crusher’s hydraulic pump, I could simply refuse it and wait until something less “overtly technical” came along. This time, besides the impossibility of refusing texts about themes I was not quite familiar with and the endless demands for alterations in translation that I mentioned before, another side of working for an agency started to really get to me: the lack of subject variety in the material to be translated. I reckon it is appropriate to mention the importance of text variety in order to keep the technical translator’s work routine a healthy one. In my opinion, translators rest from one translation not only after it’s delivered and they can take a day off. When we start working on another text about a whole different subject, in a way, we are taking a break from the previous one. However, in a translation agency, such variety is rather limited, for the company has their client portfolio and naturally, those with the highest demands will take up most of the staff time. Generally, texts from the same client tend to be about the same subject. So, for a few more months I implemented countless relevant and non-relevant alterations and translated the same old things all day every day, until I realized that life as an in-house translator was not fit for me anymore or I wasn’t cut out for it, or both. In less than a year, I decided to go back to my freelancer life and that is how I do business today.

It’s crystal clear to me that affinity (or lack of it) for freelance or in-house work is really a matter of personal preference, without absolute advantages or disadvantages, just like Mari Sasso stressed on her post. In spite of the benefits, such as interpersonal relationships with coworkers and guarantee of frequent work provided by the company contract (which Mari Sasso also pointed out), in order to assure my own satisfaction and good professional performance, the most crucial facts are having the power to decide whether or not to translate a particular text; being able to dedicate exclusively to tasks I enjoy and knowing that I will always profit from subject variety. Nevertheless, I admit that another professional might have a totally distinct experience, appreciating the advantages of life in a company, which surely are real.

Currently, even when I am capable of understanding very clearly that I ”wasn’t born” to be an in-house translator, I see that both experiences I’ve had as such in addition to both freelance experiences were equally necessary and relevant to make me come to this conclusion. I believe that, if I hadn’t given myself the right to change when I was longing for it, even though I was satisfied with being a freelancer, then I might still be flirting with the idea of getting back to working in-house. In other words, I believe that some “certainties” are just conquered after we give ourselves the right to try out different options and possibilities. Therefore, for beginning translators who are still entering the market or for those who know only one of these sides, I’d say it’s necessary to experiment with both in order to find out which one suits your professional profile better.

Thank you, Viviane, for kindly volunteering to translate a post for our blog! 🙂

About the translator
10721040_755978441140302_412829723_nViviane has a degree in Pedagogy by the University of São Paulo. She holds a Cambridge Proficiency as well as CELTA and DELTA certificates which have helped her build a 13 year career in English Language Teaching. In 2013, she felt it was time for a change and started a course at PUC-SP to become an Interpreter and this year, she joined the DBB course for translators. Nowadays, she is a freelance translator living in Jundiaí, SP, Brazil.