A competência do tradutor

Sejam bem-vindos de volta, queridos leitores! 😀

Interrompemos a programação normal do blog para publicar a tradução de uma de nossas publicações convidadas. Em dezembro de 2014, a querida Lynne Bowker escreveu o texto Translators and the need for speed. Hoje, é com imenso prazer que recebo no blog a turma de tradução da Unilago, orientada pelo professor (e querido amigo) Deni Kasama.

Sejam muito bem-vindos! 🙂

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Estou muito animada para escrever uma publicação convidada para o blog da Caroline, que eu conheci na XXXIV Semana do Tradutor, no Brasil, em setembro. A Caroline disse que eu tinha liberdade para escolher qualquer tema relevante para tradutores ou relacionado a tradução, contanto que ele ainda não tivesse sido abordado em nenhuma publicação anterior. Assim, como boa tradutora e pesquisadora, primeiro li diligentemente as publicações anteriores (eu tentei ler mesmo aquelas em português!). E estou realmente feliz por ter feito isso. Por um lado, sinto que conheço a Caroline um pouco melhor. Descobri que ela gosta de Alice no País das Maravilhas, o que significa que ela tem algo em comum com Warren Weaver, um dos meus heróis pessoais no domínio da tradução. Esse Weaver é o do “Weaver’s Memorandum“, o documento que deu início a uma investigação séria sobre tradução automática. Independentemente de você ser ou não um fã de tradução automática, o Dr. Weaver era uma pessoa impressionante em vários aspectos.

Descobri também que fazemos aniversário na mesma semana em janeiro, o que significa que a Caroline é do signo de capricórnio. Não me admira que ela seja tão dedicada, trabalhadora e profissional, e também uma excelente pessoa, generosa e cheia de outras qualidades. 🙂 Obrigada, Caroline, pela oportunidade de conhecê-la melhor e escrever uma publicação convidada para o seu blog.

Ao ler as publicações anteriores, observei alguns temas recorrentes, como “formação de tradutores”, “conhecimento vs habilidades” e “produtividade”. Decidi tentar estender a discussão de algumas dessas ideias, enquadrando-as no contexto de minha própria experiência como professora de tradução na Universidade de Ottawa, no Canadá.

A questão é saber se um programa de formação de tradutor deve se concentrar em conhecimento (que tende para a teoria ou o que Don Király (2000) denomina “competência tradutória”) ou habilidades (que tendem mais para as atividades não linguísticas que oferecem suporte à tradução ou o que Király classifica sob a categoria de “competência do tradutor”). Convencionalmente, as universidades têm dado preferência para o conhecimento, alegando que as habilidades são efêmeras demais. Por exemplo, um professor universitário pode argumentar que, no que diz respeito à tradução auxiliada por computador, o que é importante para se aprender em sala de aula são os conceitos subjacentes e não o passo a passo da utilização de um software, que pode estar desatualizado ou fora de moda quando o aluno se formar. Em vez disso, o foco de uma educação universitária está no desenvolvimento da análise crítica, em aperfeiçoar a avaliação e refinar o julgamento. Acho que poucas pessoas poderiam argumentar contra esse enfoque. A tradução é uma tarefa desafiadora, e fazê-la bem exige uma séria reflexão. Aprender a fazê-la bem, mais ainda!

No entanto, as universidades não podem ignorar o fato que, depois que se formam, esses alunos precisam atuar num ambiente de trabalho profissional. Uma área na qual os recém-formados por vezes encontram dificuldade é no cumprimento dos prazos apertados, que são uma realidade na profissão de tradutor.

Em muitos cursos de formação de tradutores, o enfoque é colocado firmemente em incentivar os alunos a refletir de maneira integral, analisar profundamente e pesar cuidadosamente as opções antes de se comprometer com uma estratégia de tradução, escolha terminológica ou expressão. Não há dúvida que os alunos devem cultivar essas habilidades analíticas deliberadas, e a eles deve ser dado o tempo para desenvolvê-las. Contudo, no mundo profissional, pode haver menos tempo para cuidadosas reflexões. Em vez disso, a tradução deve vir rapidamente, se não automaticamente. Portanto, faz sentido que se adicione uma aprendizagem autêntica e contextualizada que teste e melhore a capacidade de tradução dos alunos sob pressão de tempo. É uma maneira a mais de preparar os alunos para o mundo do trabalho e para que eles experimentem a tradução de uma forma diferente e sob outras circunstâncias.

Dessa forma, tomei uma decisão consciente de tentar introduzir uma espécie de “treino de velocidade” nas aulas que dou. Pela primeira vez este ano, numa aula do 3º ano sobre  escrita profissional, peço aos alunos que comecem cada aula preparando um resumo de um texto mais longo. Os textos em questão tratam de temas populares, de interesse geral para os estudantes no Canadá (por exemplo, a Estação Espacial Internacional, os campeonatos mundiais de beisebol, a descoberta de um barco afundado do século XIX, no Ártico). Cada texto tem aproximadamente 600 palavras, e os alunos têm de 15 a 20 minutos para resumir esse conteúdo em cerca de 200 palavras. Os alunos recebem um feedback semanal, embora os exercícios nem sempre sejam avaliados com notas. Isso tira a pressão e permite que os alunos desenvolvam essas habilidades num contexto de baixo risco.

A ideia geral por trás desse exercício de sumarização com “treino de velocidade” é que ela pode permitir que os estudantes aperfeiçoem uma série de habilidades e reflexos que também são úteis para a tradução: a capacidade de analisar e compreender o significado rapidamente, de extrair ideias-chave e a estrutura de um texto, de organizar ideias e de transmitir ideias com precisão, bem como reconhecer e evitar distorções na transferência de informação. Com a introdução do treino de velocidade num contexto de escrita, eu espero que os alunos possam aperfeiçoar sua capacidade para tomar decisões rapidamente, e eles podem, em seguida, estender isso para um contexto bilíngue numa fase posterior da formação.

Os alunos foram questionados, no meio do semestre, para determinar se acharam ou não o exercício relevante. No geral, os comentários foram positivos. Eles afirmaram ter observado um valor genuíno em aprender a trabalhar de forma mais rápida e realmente acharam que estavam melhorando essas habilidades com prática regular de velocidade de escrita. Haverá outra avaliação no final do semestre, e vai ser interessante ver como os pensamentos deles evoluíram.

Enquanto isso, da perspectiva de um professor, também observei melhorias. Em primeiro lugar, no início do semestre, alguns alunos foram incapazes de concluir o exercício. No entanto, agora que estamos nos aproximando do final do semestre, os alunos são capazes de terminar dentro do prazo estipulado. Eles estão ficando mais rápidos! No que diz respeito à qualidade, o fluxo de informação tem melhorado significativamente. Os últimos resumos lidos fluem como textos reais, em vez de uma coleção de sentenças independentes. Os alunos também estão apresentando um trabalho melhor em diferenciar entre as ideias-chave e o conteúdo mais periférico.

Então, minhas perguntas para vocês, leitores, são as seguintes: Você já fez algum “treino de velocidade” formal como parte de sua formação? Se não, você acha que teria sido útil? Você tem sugestões de outras maneiras em que o “treino de velocidade” poderia ser incorporado num programa de formação de tradutor? Você tem sugestões de outros tipos de habilidades de “competência do tradutor” profissional que poderiam ser utilmente incorporadas em um programa de formação de tradutor?

Alguns professores de tradução estão realmente interessados em ajudar os alunos a construir uma ponte entre a teoria e a prática, mas, para fazer isso com sucesso, precisamos da contribuição de profissionais que já estejam atuando! Estou ansiosa para ouvir suas opiniões! E obrigada, novamente, à Caroline pela oportunidade de escrever esta publicação convidada.

Muitíssimo obrigada ao Deni, pela ideia de traduzir o excelente texto da Lynne como trabalho bimestral da disciplina, e aos alunos, pela dedicação e pelo interesse. Foi um grande prazer recebê-los no blog.

About the translators
thumb_IMG_9940_1024Os alunos da disciplina de Prática de Tradução II (2015) do curso de Bacharelado em Letras com habilitação em Tradução e Interpretação em Língua Inglesa da União das Faculdades dos Grandes Lagos (UNILAGO) é formado pelos alunos Adriana Ramos, Alexandre Souza, Ana Flávia Peres, Bruna Fioroto, Danilo Figueiras, Higor de Morais, Ingrid Pereira, Janaine Nogueira, Jaqueline Nogueira, Pâmela Constantino, Priscila Geromini, Rafaela Ramires, Rogério de Souza, Teresa Dambi e Victor Marchini. A disciplina é ministrada pelo professor Deni Kasama.

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3 thoughts on “A competência do tradutor

  1. Pingback: Guest post: Pesquisa terminológica em tradução | Carol's Adventures in Translation

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