Guest post: Stephen King e sua tradutora

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Crédito: Editora Suma

O mundo sombrio de Stephen King

Desde 2013, minhas aventuras por esse mundo ganharam uma nova dimensão; no entanto, já o frequento há muitos anos, desde bem antes de pensar em ser tradutora. Quando ainda adolescente, descobri o autor por acaso, em um conto publicado na revista Speak Up, e mesmo aos 14 anos fiquei tão fascinada com a capacidade do autor de se aventurar pela natureza humana usando elementos de terror que simplesmente tive que descobrir mais.

Esse conto se chamava “The Boogeyman” e foi publicado no Brasil com o título “O fantasma”, parte da coletânea de contos Sombras da noite (tradução de Adriana Lisboa). Três décadas se passaram e eu ainda acho esse conto uma das coisas mais incríveis que ele escreveu. Tenho certeza de que há pessoas pensando: “Natureza humana? O cara é escritor de terror!” Mas essa foi uma das descobertas mais incríveis que eu fiz e que tenho certeza de que muita gente não fez por preconceito: o terror do King não é de medinho, sustos e sangue (embora alguns desses elementos costumem estar presentes nas histórias). Porque, afinal, o que realmente pode dar medo não é um fantasma, um monstro, um alienígena. A coisa mais assustadora que existe no mundo é o homem.

Em 2013, recebi a proposta de traduzir It – A coisa, que é uma das obras icônicas do autor. É um calhamaço de pouco mais de mil páginas que conta sobre o horror que assola uma cidadezinha do estado do Maine, nos Estados Unidos, e um grupo de sete crianças que se juntam pra combatê-lo, com trechos se revezando num intervalo de quase três décadas, quando as mesmas crianças, agora adultas, voltam à cidade para o embate final. Para os desavisados, para os que conhecem apenas a capa, para quem viu o trailer do filme, parece a história de um palhaço assassino. Mas It aborda horrores muito mais sombrios: homofobia, violência doméstica, abuso infantil, abandono, racismo, tantos desses horrores humanos dos quais a gente sempre ouve falar e que são sempre contemporâneos e familiares.

O trabalho hercúleo de traduzir um original com 450 mil palavras trouxe frutos; logo vieram outros livros do autor, que eu já admirava tanto e conhecia tão bem. Mas conhecia mesmo? A sensação que tive foi de que comecei a examinar Stephen King com uma lupa, em vez de apenas com meus olhos. Comecei a desbravar nuances, detalhes, recursos, e a conhecer o autor por um viés diferente. A conta até o momento é de 11 livros, um conto gratuito disponível online aqui e o prólogo e o epílogo nunca publicados anteriormente de O iluminado (tradução de Betty Ramos de Albuquerque), que saíram na edição pertencente à coleção Biblioteca Stephen King. O trabalho continua firme, pois o King não para: em 2019, teremos mais.

Curiosamente, quando comecei a leitura, láááá na adolescência, o que mais me fascinava era mesmo o terror puro e simples; meu eu adolescente queria descobrir como sentir medo, os monstros que poderiam tirar meu sono. (Spoiler: não deu certo, eu não sinto medo de monstros.) Acredito que se não houvesse esse outro lado mais profundo nos textos dele, eu teria deixado seus livros para trás, como deixei alguns outros autores; mas a questão da natureza humana é a que mais me fascina agora e é o que me prende quando trabalho em um livro como Outsider, por exemplo, em que um policial eficiente e prático é obrigado a enfrentar suas crenças quando se depara com um assassinato brutal e um assassino improvável, ou como Belas adormecidas, que trata do papel da mulher na sociedade por meio das estruturas habituais e conflitantes de comunidades pequenas (no caso, uma prisão feminina e uma cidade) que são recorrentes do King. A propósito, poucos constroem personagens como o King, e poucos os matam como ele.

Para quem gosta de ler, mas nunca se animou a enfrentar os calhamaços habituais do autor, seja pelo tamanho ou pelo tema, sugiro que experimente. Vale começar por um dos pequenos que fogem da linha terror, como Joyland, ou pelos livros de contos, como Bazar dos sonhos ruins ou o próprio Sombras da noite, que são um ótimo portão de entrada para entender como funciona a cabeça e o estilo dele. Ah, e uma última dica: não usem os filmes baseados nas obras como parâmetro para avaliar os livros, pois eles raramente abordam o viés humano dos personagens que encontramos nas histórias.

Enquanto o autor continuar escrevendo, espero continuar traduzindo seus livros, até o dia em que, quem sabe, os horrores humanos estejam mais próximos da ficção sobrenatural do que da realidade do nosso cotidiano.

Sobre a autora
13346792_1198107916880645_2973286513876119150_nRegiane Winarski é formada em Produção Editorial pela ECO-UFRJ e tradutora de inglês para português desde 2009. Especializada em tradução literária para editoras como Suma, DarkSide, Rocco, Intrínseca, Record e outras, com mais de cem livros publicados. Trabalha com uma ampla variedade de gêneros, como fantasia, suspense/horror e romances para adultos e jovens adultos, de autores como Stephen King, Rick Riordan e David Levithan. Tradutora do premiado livro de 2017 “O ódio que você semeia”, de Angie Thomas, publicado pela Galera Record.

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Guest post: Boas práticas de interpretação

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Crédito: rawpixel, em Unsplash

Educar clientes de interpretação simultânea: mito de Sísifo ou oportunidade para fortalecimento de laços?

O convite da querida colega Caroline Alberoni para que eu escrevesse um post a ser publicado neste blog, um dos meus favoritos sobre tradução e interpretação, fez com que eu fosse confrontada com os seguintes desafios: medo da rejeição, writer’s block e dificuldade de escolher um tema. Caro leitor, se você está lendo este texto agora, isto significa que, desta vez, consegui vencer o medo, o writer’s block e escolher um tema a ser discutido, ainda que eu esteja chovendo no molhado.

A motivação para escolher esse tema é constatar que o trabalho de educar nossos clientes recomeça a cada solicitação de orçamento apresentada, mesmo quando se trata de clientes antigos. Por muito tempo, eu ficava frustrada por precisar educar clientes, tanto os novatos quanto os veteranos em contratação de serviços de interpretação simultânea, sobre nossas boas práticas. Sentia que explicar e defender nossas práticas de mercado se assemelhava muito à tarefa de Sísifo. O mito de Sísifo, pertencente à mitologia grega, resulta da punição póstuma a Sísifo por traição aos deuses. Na terra dos mortos, ele era obrigado a empurrar uma pedra até o lugar mais alto da montanha, de onde ela rolaria de volta ao ponto inicial. No passado, eu costumava sentir que, por mais que façamos o trabalho de explicar e ensinar as boas práticas do setor, ele nunca, de fato, termina. Além de achar que essa era uma experiência penosa e enfadonha.

Nos últimos meses, me esforcei para mudar a minha atitude com relação à maneira de explicar as boas práticas aos clientes. Em vez de reagir com o pensamento “Lá vem o cliente que não entende do mercado de interpretação querendo reinventar a roda”, comecei a pensar “Vou usar meus melhores argumentos e fazer referência à nossa associação profissional ABRATES (Associação Brasileira de Tradutores) e ao SINTRA (Sindicato Nacional dos Tradutores) para defender as boas práticas do mercado e ter uma negociação favorável a ambas as partes com garantia de boas condições de trabalho para a equipe de intérpretes”. Essa mudança de atitude fez com que eu passasse a ver o momento de educar os clientes como uma oportunidade para fortalecer meus laços com os contratantes em potencial. Tomei as seguintes atitudes nas situações detalhadas abaixo:

1. Argumento do cliente: não preciso de um profissional, só de uma pessoa que seja fluente em português e inglês

Atitude passada orientada pela perspectiva da tarefa de Sísifo (resposta por e-mail): “Sou plenamente qualificada para atender às necessidades do seu evento.”

Atitude presente orientada pela perspectiva de fortalecimento de laços (resposta por e-mail e contato telefônico para reforçar a mensagem do e-mail): “O evento tem valor estratégico para o posicionamento da sua empresa dento de seu setor de atuação. Portanto, é importante garantir a qualidade da mensagem a ser passada ao público que precisa da interpretação simultânea. Intérpretes profissionais são fundamentais para mediar a comunicação entre pessoas que não são fluentes nos mesmos idiomas. Conte com meus serviços de intérprete de conferências profissional para atender às necessidades de comunicação do evento.”

Resultado: orçamento aprovado e evento agendado.

2. Argumento do cliente: Não preciso de um profissional… ser fluente nas duas línguas é o suficiente, pois a reunião para divulgar o produto será superinformal

Atitude passada orientada pela perspectiva da tarefa de Sísifo (resposta por e-mail): “Ser fluente em duas línguas não qualifica uma pessoa a trabalhar bem como intérprete.”

Atitude presente orientada pela perspectiva de fortalecimento de laços (resposta por e-mail e contato telefônico para reforçar a mensagem do e-mail): “O momento de apresentação de um produto para clientes em potencial é único e merece planejamento esmerado em todos os detalhes, desde a montagem da lista de convidados até a escolha do buffet. Logo, um evento tão bem preparado será mais eficaz com o trabalho de intérpretes de conferência profissionais para servir como pontes de comunicação entre pessoas que não falam a mesma língua. Minha empresa está apta a oferecer os serviços de interpretação simultânea necessários ao sucesso do seu evento.”

Resultado: negociação interrompida.

3. Argumento do cliente: a interpretação dura apenas 4 horas, um intérprete sozinho dá conta

Atitude passada orientada pela perspectiva da tarefa de Sísifo (resposta por e-mail): “É contra a praxe dos intérpretes de conferência, segundo recomendação do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA), trabalhar sozinho por períodos superiores a 1 hora em conferências e 2 horas em acompanhamentos externos.”

Atitude presente orientada pela perspectiva de fortalecimento de laços (resposta por e-mail e contato telefônico para reforçar a mensagem do e-mail): “De acordo com a recomendação do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA), intérpretes devem trabalhar sozinhos por um tempo limite de 1 hora em conferências e 2 horas em acompanhamentos externos. Essa recomendação é resultado de estudos que comprovam queda de desempenho dos intérpretes e perda da qualidade da mensagem após os períodos citados acima. Dessa forma, para garantir a qualidade da comunicação no evento, é necessário que dois intérpretes trabalhem em revezamento.”

Resultado: orçamento aprovado, evento agendado e fidelização do cliente que contratou os serviços tanto em 2017 quanto em 2018.

4. Argumento do cliente: não há diferença de tarifa para contratação de 2 ou 6 horas de trabalho?

Atitude passada orientada pela perspectiva da tarefa de Sísifo (resposta por e-mail): “Em consonância com a recomendação do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA), a tarifa de interpretação simultânea cobre até 6 horas de trabalho e é indivisível.”

Atitude presente orientada pela perspectiva de fortalecimento de laços (resposta por e-mail e contato telefônico para reforçar a mensagem do e-mail): “Além da recomendação do Sindicato Nacional de Tradutores (SINTRA) para que a diária de interpretação simultânea contemple até 6 horas indivisíveis de trabalho, é importante lembrar que quando um cliente solicita uma reserva de agenda para mim, deixo de atender outros clientes em potencial para atender o cliente que fez a reserva. Simplesmente não ’encaixo’ dois ou mais clientes ao longo de um dia de trabalho. Portanto, a diária fica inalterada se o período de trabalho efetivo for inferior a uma jornada de 6 horas indivisíveis.”

Resultado: orçamento aprovado, evento agendado e fidelização do cliente que contratou os serviços tanto em 2017 quanto em 2018.

5. Argumento do cliente: seu orçamento está muito caro, poderia recomendar uma pessoa que cobre menos que você? Não precisa ser profissional… só ser fluente em português e inglês

Atitude passada orientada pela perspectiva da tarefa de Sísifo (resposta por e-mail): “O orçamento apresentado se coaduna com a recomendação do Sindicato Nacional dos Tradutores (SINTRA) e prevê a devida emissão de nota fiscal bem como o recolhimento de todos os encargos devidos.”

Atitude presente orientada pela perspectiva de fortalecimento de laços (resposta por e-mail e contato telefônico para reforçar a mensagem do e-mail): “Obrigada pelo posicionamento com relação ao orçamento apresentado. Neste link, você encontra o diretório de associados da Associação Brasileira de Tradutores (ABRATES): https://abrates.com.br/buscar-tradutores/. Esse diretório é uma boa ferramenta para que você possa entrar em contato com outros intérpretes de conferência profissionais. Caso opte pela contratação da minha empresa para prestação dos serviços, o orçamento apresentado anteriormente permanece válido pelos próximos 30 dias.”

Resultado: negociação interrompida.

 A despeito de ouvir questionamentos muito similares de clientes diferentes e de ter o sentimento de repetir o mesmo trabalho de educar os clientes a cada solicitação de orçamento, repetindo a metáfora do mito de Sísifo, hoje vejo com clareza que, quando nossos clientes questionam as práticas do nosso setor de atuação, temos a oportunidade de melhorar a qualidade da nossa comunicação com aquele cliente e, principalmente, fortalecer os laços profissionais com aquele contratante. Todos os argumentos de clientes citados acima foram úteis para que eu mudasse minha atitude e conseguisse manter conversas telefônicas e trocas de e-mail úteis para o cliente no sentido de oferecer melhor entendimento sobre o trabalho e as práticas dos intérpretes de conferência profissionais.

Sobre a autora
2018 06 RoBelinky ABRATES-9Rane Souza é intérprete, tradutora e professora de inglês e português para estrangeiros. No âmbito do magistério, ministra aulas particulares prioritariamente para adultos. No mercado de tradução escrita, atua principalmente nos segmentos editorial, tendo vertido ao inglês as obras Abrolhos Terra e Mar, de Rafael Melo (Editora Bambalaio, 2017) e Ver, de Antônio Bokel (Editora Réptil, 2017); e jurídico, com foco na tradução e versão de contratos. Como intérprete de conferências, trabalha nos mercados corporativos privados e do terceiro setor.

Guest post: Organização e produtividade

Bem-vindos de volta à série de publicações convidadas! Neste mês, tenho a honra de receber um colega de trabalho, profissional incrível que muito ajudou os tradutores durante sua passagem pela Abrates como diretor e presidente e ser humano exemplar que tenho o orgulho de chamar de amigo.

Bem-vindo, William!

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Foto de Emma Matthews, disponível em Unsplash

Vamos conversar um pouquinho sobre produtividade, qualidade de vida e organização?

Responda rápido: se você tem um trabalho pequeno que, pela sua experiência, não deve demorar mais que duas horas para ser feito, com prazo de cinco dias para a entrega, quando você começará a cuidar desse serviço?

Se você disse: “Imediatamente, mas vou parar sempre que houver uma notificação de mensagem no computador ou no celular, afinal, tem tempo de sobra para terminar e esse trabalho nem é tão grande assim, já conheço bem o assunto que esse cliente traduz, enfim, não tenho motivos para me preocupar.” Não se sinta só e leia o artigo.

Se sua resposta foi: “Na manhã do último dia do prazo, eu abro o arquivo e traduzo, não quero acostumar mal o cliente entregando muito antes do prazo. Tradução não é disque-pizza, e o cliente não vai valorizar meu trabalho se eu entregar mais rápido, vai pensar que é fácil de fazer.” Saiba que muitos tradutores e outros profissionais autônomos também pensam exatamente assim. Novamente, não se sinta só, mas leia este artigo. Leia agora.

Se respondeu que começará imediatamente e entregará ainda hoje, você faz parte de uma minoria muito disciplinada. Mas continue lendo. Tenho algumas dicas para você também.

Por que protelamos? Você sabe que tem o que fazer, sabe que tem um prazo, tem ideia de quanto tempo pode demorar para fazer, mas assume a postura do “tá tranquilo, tá tudo certo, tenho tudo sob controle”. A resposta para essa pergunta, no meu caso, foi: isso acontece porque você não tem uma rotina organizada e perde o foco com frequência.

Ter uma rotina organizada é fundamental para que você esteja no controle não só do trabalho, mas de todo o seu tempo. Eu sei, eu sei, disso você já sabia, mas o problema é colocar em prática a organização, é se habituar a ter uma agenda, uma estratégia para definir prioridades e até para decidir o que não precisa de sua atenção e deve ser deixado de lado. Porque sim, há coisas que você pode deixar de fazer, e elas não causarão nenhum impacto negativo em sua vida. Durante o período em que trabalhei na Abrates, precisei aprender a me organizar para conseguir responder às muitas demandas da associação, às necessidades inerentes de nosso trabalho, como prospectar novos clientes, manter-me atualizado e, principalmente, dar atenção aos amigos e à família que, durante esse período, ainda me presenteou com meu primeiro neto.

Não foi fácil me organizar e melhorar o foco, mas foi menos difícil do que imaginei.

Algo muito importante que você precisa saber: ninguém se torna organizado de um dia para o outro, apenas lendo sobre o assunto ou simplesmente fazendo um curso. Organização é aprendizado e construção de hábitos. É um processo lento, mas sempre passível de melhoria. A definição que mais me agrada, tirada de alguns dos muitos livros e artigos que li, é: organização é um processo de redução e seleção. Você reduz a quantidade de eventos que realmente precisam de sua atenção e seleciona quais terão sua atenção com prioridade. Há muitas ferramentas para ajudar nesse processo. Tenho algumas dicas para quem quer começar a se organizar. Dicas simples, mas muito eficientes.

A primeira é: registre em que você gasta seu tempo. Você certamente ficará surpreso ao descobrir que desperdiça boa parte de seu tempo na frente do computador com coisas que não fazem parte de sua rotina de trabalho. Você pode fazer isso com papel e caneta ou instalar algum software que registre quais os programas, sites e outras atividades realizadas no computador e por quanto tempo. Se você usa Mac, minha sugestão é o Timing. Para PC, ouvi dizer que o Toggl é uma boa opção. Instale uma dessas ferramentas em seu computador e use-o normalmente por uma semana. Provavelmente, você descobrirá que redes sociais, mensageiros e e-mails são os vilões que mais roubam tempo dos profissionais freelancers. Você pode estar pensando: mas preciso “me desligar um pouquinho” para ser mais produtivo, ter uma válvula de escape… O problema é que essa válvula precisa estar bem regulada e só deve ser aberta nos momentos certos. No meu caso, o ideal é que essa válvula esteja em outro lugar, não no computador. Uma caminhada, uma conversa com o porteiro, uma série ou desenho animado na TV. Qualquer coisa que faça você se levantar da cadeira e se movimentar pode melhorar não só sua produtividade, mas também sua saúde.

A segunda dica é sobre definição de prioridades. Uma das ferramentas mais básicas e práticas para quem quer se organizar é a Matriz de Eisenhower. Creditada ao general e ex-presidente norte-americano Dwight Eisenhower, que precisava tomar decisões rápidas durante a Segunda Guerra, ela ajuda a definir em que colocar seus esforços, o que delegar, o que agendar e o que simplesmente não fazer. Recomendo começar sua jornada de organização por ela, pela facilidade e custo zero de implementação: papel e caneta resolvem a maioria dos casos. Um vídeo bem claro sobre esta ferramenta você encontra aqui.

Outra forma de se organizar é desenvolver fluxos de trabalho. Documente em uma lista a sequência de passos que você executa para realizar trabalhos com eficiência. Mesmo para aqueles trabalhos que você já faz de olhos fechados, escrever um fluxo de trabalho pode ajudar a perceber onde você está perdendo tempo e o que poderia melhorar. Além disso, você também pode perceber a oportunidade de automatizar algo em seu processo. Não se esqueça de que o computador deve trabalhar para você, e não o contrário.

Uma dica importantíssima que ignorei por muito tempo: dormir bem. É quase impossível manter o foco e ser organizado se você não dá a seu cérebro o descanso de que ele precisa. Desenvolva uma rotina para relaxar e se recuperar para o dia seguinte. Dormir sempre no mesmo horário faz com que seu corpo se prepare melhor e tenha mais facilidade para entrar no sono. O que fiz quando comecei a implementar essa rotina foi usar o despertador de forma inversa: colocava um alarme no meu celular para tocar às 22h30. Assim que ele tocava, eu começava a me preparar para dormir. Não foi preciso muito tempo para que isso se tornasse rotina. Claro, como dizem por aí: there’s an app for that! E você pode usá-los para monitorar e entender melhor seu sono. Atualmente, uso o Pillow, para iOS. Se você usa Android, ouvi boas recomendações do Sleep as Android, que oferece 14 dias de avaliação gratuita.

Para encerrar, três dicas rápidas:

  • E-mails são importantíssimos, mas também podem consumir boa parte de nosso tempo. Para manter o foco, desligue as notificações e defina um horário rígido para lidar com eles. Para alguns endereços para os quais você precisa responder rapidamente, crie notificações usando filtros.
  • Se você usa o Gmail, aprenda a usar filtros e respostas predeterminadas.
  • Descubra qual tipo de música melhora sua produtividade. Eu uso o Focus@Will, serviço que usa neurociência e realmente funciona para mim.

Há muitas ferramentas e métodos que prometem melhorar a produtividade e a organização. Não existe um método que funciona para todo mundo e você pode descobrir que parte de um funciona bem, parte de outro ajuda bastante, que você não suporta tal método… O ideal é testar e descobrir o que funciona para você. Organização e produtividade são pessoais.

Agradeço minha amiga Carol Alberoni por este convite e espero ter colaborado um pouco com sua produtividade e organização. Qualquer dúvida, estou à disposição.

Sobre o autor
William_AvatarWilliam Cassemiro tem 47 anos, é pai orgulhoso de duas filhas e avô-babão do Luquinhas. Foi diretor e presidente da Associação Brasileira de Tradutores e Intérpretes, Abrates, de 2014 a 2018, e participou ativamente da organização de cinco Congressos Internacionais da Abrates, com público médio de 600 participantes. Organizou diversos cursos pela associação, participou de congressos em outros países, palestrou no Brasil, Inglaterra e Uruguai. Sua primeira formação foi em Eletrônica, ramo em que atuou em grandes empresas de Tecnologia, como Xerox e SEMP Toshiba. É tradutor profissional de inglês para português, com Bacharelado em Letras pela Universidade de São Paulo. Na Abrates, considera seu maior feito a implementação do Programa de Mentoria da associação, que orienta tradutores e intérpretes em início de carreira.

Guest post: Português e suas variantes

Sejam bem-vindos de volta a mais uma publicação convidada, queridos leitores!

Hoje, tenho o prazer de receber uma colega que divide a variante do português do outro lado do oceano, a portuguesa Tina Duarte.

Seja bem-vinda, Tina!

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Imagem fornecida pela autora

De braço dado

Não me recordo exactamente que idade tinha quando peguei pela primeira vez num livro de Jorge Amado, que me condenou a uma paixão eterna por um universo de personagens tão ricas e com tantos matizes, e pela forma, ora doce, ora crua, como as palavras tão bem desenhavam a história, mas creio que teria uns treze anos. Nessa altura, já conhecia Jorge Amado de nome, lembrava-me vagamente da Gabriela e do Seu Nacib[1] na televisão e já me tinha deixado encantar pelo “português com açúcar[2]” das histórias infantis de um disco de vinil, que uma amiga da família tinha trazido do Brasil, e que eu ouvia sempre com muita atenção, sentada ao lado do gira-discos.

Cresci e aqueles livros e aquelas personagens abriram a porta a um mundo desconhecido, que me fez querer conhecer escritores, cantores, músicos e artistas brasileiros. Para além da perspectiva diferente que uma cultura distinta da nossa nos garante, havia sempre a possibilidade de apreciar a língua, a forma como do outro lado do Atlântico se desconstruíam e verbalizavam emoções, se descreviam situações e realidades. Este gosto muito particular, hoje aliado ao exercício da minha actividade como tradutora, prevalece e continuo atenta à evolução e às diferenças que estas duas variantes da língua apresentam.

A língua portuguesa levada ao Brasil, a países africanos e regiões asiáticas por conta da expansão do território de Portugal, durante os Descobrimentos, tem 273 milhões de falantes, é língua oficial de nove países e uma região administrativa especial, sendo o Brasil o que regista um maior número de habitantes, tornando assim incontornável o seu contributo para a divulgação e importância da língua ao longo dos anos.

Esta nossa língua regista diferenças significativas entre o Português que se fala em Portugal e o Português que se fala no Brasil, quer a nível de ortografia, fonética, semântica, sintaxe e morfologia. Na base dessas diferenças, coexistem as diferentes influências que a língua foi absorvendo de um lado e do outro. Assim, denotamos a existência de inúmeros vocábulos derivados da língua tupi e o predomínio exercido pelo inglês (por proximidade geográfica aos Estados Unidos) no Português do Brasil, ao passo que, do lado de cá do Atlântico, será mais forte a influência de outras línguas românicas. A compreensão entre falantes portugueses e brasileiros não é certamente impossível, mas a comunicação formal, pela sua formulação mais estática e convencionada, será sempre mais facilitada do que uma conversação entre um português e um brasileiro que habitualmente não tenham contacto com a outra variante da língua.

Considero que a ideia veiculada por algumas pessoas da possibilidade de existência de um Português Universal, e que seria até uma das justificações para o Acordo Ortográfico de 1990 por se tratar de uma forma de unificação da língua, está totalmente desadequada da realidade. Estamos perante duas variantes da língua muito diferentes e que não apresentam qualquer tendência a, de alguma forma, convergirem.

Penso com frequência em imagens que ilustrariam o que são actualmente o Português de Portugal e o Português do Brasil: a de um jardineiro que plantou duas sementes de árvores iguais, em terrenos diferentes e deixou que crescessem, espraiassem os seus ramos e criassem os seus frutos, todos diferentes e, no fundo, todos iguais. Ou a de uma mãe que deu o braço à sua filha, jovem adulta, e ajudou-a a sair da sua cidade e a instalar-se numa outra cidade do outro lado do rio. Têm personalidades diferentes, vivem as suas vidas, seguem e absorvem tendências distintas, amadurecem e, no entanto, o laço que as une é indestrutível e inegável.

[1] Gabriela foi a primeira novela a ser transmitida em Portugal, em 1977, três anos após a Revolução do 25 de Abril, que pôs fim a mais de 40 anos de ditadura em Portugal.

[2] Termo que o escritor português Eça de Queirós terá utilizado para designar o Português falado e escrito no Brasil.

Sobre a autora
cópia_foto_out2016AZd_0751 (4)Licenciada em Tradução, Tina Duarte trabalha como tradutora freelancer desde 2006. Sócia e membro da Direcção da APTRAD – Associação Portuguesa de Tradutores e Intérpretes. Trabalhou anteriormente na área da exportação, deu aulas de inglês a adultos e foi fundadora e dinamizadora de uma organização relacionada com a defesa do património natural e construído.

Guest post: Live your passions!

Welcome back to our guest series!

Today I have the pleasure of hosting the dear Dolores Guiñazú, whom I have personally met during the ATA Conference last year.

Welcome, Dolores!

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Photo by rawpixel.com on Unsplash

Live your passions!

From a very early age, I pictured myself working, writing, translating and researching from an office very close to my future family and children, with the flexibility of being there fully present.

I was born in a small town in northeast Argentina, known for its reserves and wildlife, Resistencia, Chaco, close to the limits with Paraguay and Brasil. When I finished high school, I was firmed in my desire to become a Professional Translator and an Interpreter. The University in town did not offer my career, so I had to move to the “Big city”, to Buenos Aires, capital of Argentina, in order to pursue my dream.

Life was not easy at those times, as I missed a lot my family, my dear friends, my home, my daily life, everything! However, my career, new friends made and professors help me a lot in persevering and holding to my endeavor. As soon as I graduated from University, I began working as a Translator in many multinational corporations, like Pfizer, Coca Cola, Motorola, Santander Investment, among others. The experience was very fulfilling and worthy every second. All the new friends and colleagues whom I met throughout those years are deeply cherished. There, I began connecting the dots for my future daily job.

As I always wanted to keep on studying and improving my skills, I began a two-year MBA degree in the evenings, after my working schedule. In fact, I have always had two or more jobs at the same time. With my new pursuit, I pushed even harder, as this postgraduate course was difficult, very demanding, and required too many hours, whole weekends studying and being immersed in books and research papers. The experience was a blast. The professors, the best. And the experience of this association of my hometown University with Albany University was truly gorgeous. Once every two months, some teachers from US came to Argentina to teach us the latest trends and studies, the same as the University there. And all the courses were in English! I really enjoyed and seized this experience. We cannot forget the importance of continuous study, researching, reading new topics, new trends. Nowadays, more than ever, we cannot settle. The world needs us to stretch and keep on moving even further.

While at the MBA I met a new friend and she was the one who introduced me to my husband. The moment I met him, I knew he was the love of my life. I was not very young, and all my friends were already married and with kids. But, I truly believe there is a time and a moment for everything you really want to have. After getting married and while I was expecting my first son, I soon realized that one of the very first reasons why I have chosen my career had been the idea of being “my own boss”, of deciding my own times and choosing my projects. So, I made the big decision to quit my safe and awesome salary to begin working for my own Company. My dearest hubby helped me a lot in taking this huge step in my career. We are a team, and our income depended on this huge change. Changes, as always, are not easy. You have to hold on tight to your decision and move forward, not matter what. The team work I have always had and all the communities where I belonged have been really thought provoking and inspired me to raise the bar in all the projects and throughout all the years that went by.

Translation times changed a lot since my early beginnings, with a typewriter and millions of papers, liquid paper to erase mistakes, no Internet at all and with that, endless hours at libraries and researches done all over many different places and public entities. Being now in an almost paperless and extremely connected world (thanks, Internet!) makes our work in translation and communication easier and faster for all of us.

As women, some of us like the idea of having children and at the same time want to keep on doing what we love, keep on working and do the best to thrive in our careers. We know that we can accomplish our dreams. Dreams sometimes do not come true, but DECISIONS made at the right time and with deep passion and belief, DO COME TRUE.

My two boys, now at high school and my two girls at elementary school know what I do for a living, respect my working times as well as my clients and their different time zones, meaning phone calls and emails at any time and any day, and take pride in having a full time working mother. They are my inspiration and my example. Family life is hectic and breathtaking, I enjoy every minute of it. Time flies, really fast, and all of sudden my little beautiful babies are grown-up boys and girls of whom I am very proud of. I am very thankful and blessed for my life and the opportunities I have had so far. Life is a gift. Gratitude makes you feel supported and affirmed by your loved ones.

Doing what you love makes it all flow seamlessly, and you can barely distinguish when you are really working and when you are resting and having fun with your children. Passion shows in all details of our lives. Flexibility and teamwork are crucial. I am very thankful for my blessings and all the opportunities life gives me every day to keep on swimming and learning.

RESIST the urge to take the easy route. Your potential is not in your comfort zone.

Live your best life and expect more.

About the author
IMG_0002Dolores R. Guiñazú is a Certified Sworn (Court-Approved) English to Spanish Translator & Interpreter specializing in mindfulness, health care, marketing, legal & corporate communications. After graduation, she spent ten years working as an in-house translator for multinational corporations, such as Pfizer, Santander and Motorola in Argentina. Then, she continued working as a freelance translator, working in teams and with colleagues for Global Agencies as well as for direct clients all around the world. She holds an MBA in Marketing from USAL & Albany University in New York. And she is also a Spanish Copy Editor and Proofreader certified by Fundación Litterae and Fundación del Español Urgente (Fundéu). A member of the ATA (American Translators Association).

Guest post: Recomeçando na tradução

Bem-vindos de volta a mais uma publicação convidada! E a primeira convidada de 2018, Vera Antunes, fala sobre recomeços. Tópico perfeito para o segundo dia do ano, não acham?

Seja bem-vinda, Vera!

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Cortesia de Matt Ragland, disponível em Unsplash

Comecei a estudar inglês com 11 anos de idade. A princípio, o que eu queria mesmo era entender o que as pessoas falavam nas músicas. Fui muito incentivada pela minha mãe, que a toda hora dizia que a minha pronúncia era bonita… Coisas de mãe!

Tive o privilégio de ter um mestre de português, Alceu Taffari, que me ensinou a ter respeito pelos poetas, pela língua portuguesa, por gostar de ler e saber me expressar. Eu não tinha dúvidas do que queria fazer na faculdade: tradução! Entrei na Faculdade Ibero-Americana, que hoje não existe mais. Já nessa época dava aulas para crianças de inglês e português. Surgiu uma oportunidade de trabalhar numa multinacional e lá fui eu! Foram quase trinta anos trabalhando em diversos setores, como instituições financeiras, indústrias, ONGs. Entre todas as minhas atribuições, tinha sempre uma tradução a ser feita, uma apresentação para passar para o inglês ou vice-versa. Paralelamente, quando dava, eu fazia um trabalho ou outro de tradução. Nunca deixei a tradução e ela nunca me deixou… Sempre buscando novas conquistas.

Em 2013, eu resolvi mudar tudo na minha vida, dar uma reviravolta, ter controle da minha agenda, poder me dedicar inteiramente à tradução.

Resolvi voltar à minha paixão de corpo e alma! Precisei sair da minha zona de conforto e voltar a entender esse mundo da tradução de forma mais intensa, afinal, tudo evolui de forma tão rápida! O que eu acho muito importante e, de certa forma, um ponto positivo para mim, é que nesse mundo corporativo e de ONGs no qual eu transitei, envolvi-me em diversos assuntos com temas diferentes, diferentes termos, que me ajudam muito hoje em dia nas traduções. Nessa nova etapa, digo que é muito bom ter amigos, tanto antigos quanto aqueles que acabamos de encontrar, principalmente amigos que não te enxergam como uma concorrente. Uma grande e importante amiga, fundamental nesse meu processo de “retorno”, assim que soube do “meu grande plano”, foi a primeira a me dar a mão, passou dicas, links e se preocupou com vários detalhes que eu ainda não havia considerado nesse retorno. Estou falando de Melissa Harkin. Ela foi a pessoa que me fez pensar em participar da Conferência Anual da ATA 2017 (American Translators Association), me contou um pouco sobre o congresso, o que levar, o que fazer, como funciona, fazer contatos. Realmente, a conferência é intensa, várias palestras com assuntos variados, diversos tradutores do mundo todo, troca de cartões, informações. A outra pessoa é a Caroline Alberoni, que acabei conhecendo no Congresso. Ela me deu a oportunidade de observá-la, saber como ela faz, a rotina de trabalho, e hoje me surpreendeu com esse convite de contar um pouquinho sobre o meu retorno ao mercado da tradução.

Nessa retomada, participei de diversos webinars, fiz contatos, fiz um curso sobre LinkedIn, li e leio muito, troco ideias, sigo blogs e, principalmente, não tenho medo de acreditar no meu potencial. Depois de passar cerca de duas semanas do meu retorno do congresso, estou retomando esses contatos, fazendo contatos com agências, com colegas que trabalham nas organizações nas quais trabalhei, contatos com tradutores que não conheço, mas com os quais posso trocar experiências, enfim, estar presente. Lógico que, se eu parar, sentar e for analisar como a tradução era e como é hoje, dá um frio na barriga recomeçar, mas um frio que vale a pena, que me faz ler mais, estudar mais e me sentir viva. Acreditar que estou no caminho certo, que nada no começo é fácil e que cada um começa de uma forma, no seu tempo, não importa quando. Em dezembro, completei 31 anos de formada. Acredito no talento, na oportunidade, no profissionalismo. E assim sigo essa nova etapa… acreditando!

Sobre a autora
24824679_1734676826562586_493433951_nVera Antunes é tradutora freelance formada pela Faculdade Ibero-Americana, com mais de 15 anos de experiência em tradução. Trabalhou em diferentes setores, tais como: bancos, indústria de bens de consumo, indústria química e ONGs antes de se dedicar integralmente à tradução. Essas experiências anteriores formaram sua especialidade em tradução. Sua lista de serviços inclui legendagem, revisão, pós-edição e transcrição.

Guest post: Os estudos de gênero e a tradução

Bem-vindos de volta a mais uma publicação convidada!

Hoje tenho o prazer de receber uma colega que faz um trabalho incrível e interessantíssimo com estudos de gênero. E é claro que eu não poderia deixar de convidá-la para escrever sobre isso aqui no blog, não é mesmo? Espero que gostem.

Seja bem-vinda, Graziele!

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Foto de Vanessa Serpas disponível em Unsplash

A tradução e os estudos de gênero: o papel político e cultural da linguagem

A questão de gênero tem sido um tema recorrente nos meios de comunicação em massa e mídias sociais recentemente. Temas como violência de gênero e feminicídio, assédio sexual, etc. cada vez mais ganham destaque e são alvos de muita discussão. A visita ao Brasil da filósofa norte-americana Judith Butler, referência no campo de estudos de gênero, é um exemplo dos impactos sociais deste debate. As acusações de pregação de uma suposta “ideologia de gênero”, dirigidas à filósofa, dão o tom de uma percepção moral que alguns setores da sociedade demonstram diante do debate de gênero. Partindo do princípio de que essa ideologia seria contrária a certos valores morais e tradicionais da família, esses setores, entre acusações e ameaças, causaram muita comoção e discussões calorosas sobre gênero. Mas afinal, o que é gênero e o que significa estudar gênero? E o que gênero tem a ver com tradução?

Os estudos de gênero nasceram muito próximos do movimento feminista nos Estados Unidos nos anos 1960, quando questões como o papel da mulher ganharam destaque. No entanto, é importante ressaltar que a questão de gênero não se restringe a feminino e masculino, mas também incorpora a transgressão de gênero, pessoas que não necessariamente se encaixam no binário mulher e homem. Portanto, ao tratar-se de problemáticas relacionadas a gênero, é fundamental ter em mente que ele não se restringe a questões relacionadas somente à mulher e ao homem.

O conceito gênero enquanto ferramenta analítica e de pesquisa amplia discussões relacionadas a política, cultura e sociedade no geral. Portanto, do ponto vista teórico, não se restringe a aspectos morais ou a opinião pessoal de pesquisadores e pesquisadoras. Ele parte do princípio de que gênero é uma construção social e, por isso, varia dependendo do contexto socioeconômico de cada sociedade. Sendo assim, a inserção de gênero enquanto categoria central da pesquisa abriu espaço para novas perguntas na produção acadêmica: como questões de feminidade e masculinidade são entendidas em cada sociedade? Como eles são perpetuados ao longo de gerações e quais as consequências? Como gênero, raça, classe, nacionalidade, religião, sexualidade, etc. se interseccionam? E como as configurações de poder são definidas nesse contexto? Como a globalização muda o entendimento e o significado de gênero?

Nesse sentido, a linguagem usada para responder a essas perguntas desempenha um papel extremamente crítico, ou seja, pode impactar, em alguma medida, as percepções que os sujeitos e grupos sociais naturalizam. Uma das questões mais proeminentes no campo é o uso de palavras neutras que rompam com o binário mulher e homem. Isso ocorre especialmente no caso de idiomas como o português, em que se costuma usar o gênero linguístico masculino para generalizar grupos. Essa escolha no atual contexto tem um significado político e cultural. Por muito tempo, a voz de grupos marginalizados na sociedade, como mulheres, homossexuais, negros, transgêneros, foi desconsiderada e/ou apagada da história, da ciência e da política. Por isso, existe um esforço de se repensar a linguagem e o que ela representa, dando espaço para que esses grupos escolham as palavras com as quais eles se identificam. Essa escolha, por mais simbólica que possa parecer, abre espaço para a discussão do significado e da escolha de determinado termo. Por exemplo, na minha dissertação do mestrado, eu escolhi usar a palavra “mulata” em vez de “mulato” ou ainda “mulatx/mulat@” quando eu me referia a essa categoria no geral, pois analisei diversas propagandas usadas para a promoção turística do Brasil, nas quais o corpo da mulher cisgênero foi usado extensivamente. Essa foi uma escolha pensada e que visou ressaltar e criticar a exploração de um grupo social específico nesse projeto.

A tradução desempenha um papel importante nesse contexto, impulsionada especialmente pelo transnacionalismo das instituições, sejam elas públicas e/ou privadas. Desse modo, e como já discutido muito na indústria, não basta apenas o conhecimento linguístico do idioma, mas também socioeconômico e cultural dos idiomas a serem traduzidos. Especialmente nas traduções de negócios, marketing e conteúdos sociais, localizar e adaptar o conteúdo para o público-alvo é um dos maiores desafios do tradutor de modo que o significado político da linguagem não seja ignorado. No campo da pesquisa, a tradução é fundamental para a realização de estudos envolvendo grupos sociais que não falam o mesmo idioma. Seja na coleta de dados ou na tradução de artigos científicos, a escolha dos termos usados deve ser pensada cuidadosamente, pois eles não necessariamente apresentam a mesma conotação, muitas vezes nem existindo em determinados contextos, podendo inclusive impactar o resultado de pesquisas científicas.

Por fim, o tradutor deve estar ciente de sua responsabilidade social, política e cultura na manutenção ou não de formas de pensamentos existentes. Pesquisar tem o potencial de evitar muitas dessas questões. Afinal, a tradução, assim como a linguagem, tem o poder de unir diferentes povos e abrir canais de comunicação antes não existentes.

Sobre a autora
picGraziele Grilo tem bacharelado em Ciências Políticas pela UNICAMP e acaba de concluir o mestrado em Estudos de Gênero pela Towson University (EUA). Sua dissertação foi na área de gênero, política, raça e turismo no Brasil. Também se interessa muito pela atual crise mundial de refugiados. Acaba de auxiliar na criação, além de participar ativamente, de um projeto com alunos de ensino médio refugiados da África e Oriente Médio, que visou utilizar as artes como meio de expressão e ativismo para esses alunos, em um contexto no qual o idioma pode ser barreira na comunicação. Atua como tradutora freelance desde 2012 nos idiomas português, inglês e espanhol. É torcedora do São Paulo Futebol Clube, ama Pearl Jam e se aventurar na cozinha.
Contato: trad.gragrilo@gmail.com
LinkedIn: Graziele Grilo

 

Guest post: Plain language and translation

Welcome back, dear readers!

Missed me and my wonderful contributors? I have just returned from a much-deserved 20-day vacation, during which time I did not work at all nor post on social media and on the blog. However, before and after those 20 days, of course things were/are hectic, so that is why I have been absent from the blog. Bear with me for a while, and I promise it will be worth it. I have been working in the background, inviting people, having post ideas, so I will come back with our regular editorial calendar at full speed.

And now let’s return in great style with a dear and talented colleague I had the pleasure of meeting at last IAPTI’s Conference, in Buenos Aires, Argentina, in April, Joanna Richardson.

Welcome, Joanna!

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Image provided by the author

Plain Language and Translation: Think of the Reader

My work: plain language instructor for professionals

While not actually working as a translator, my job for the past 15 years at Argentina’s largest law firm, teaching lawyers how to write in plain English and editing their published work, has kept me closely in contact with the difficulties that professionals face when writing in English as a second language.

Translating complex legal texts into English, and making them understandable for foreign clients is a daily challenge, but don’t worry, plain language can help!

What is plain language?

A communication is in plain language if its wording, structure, and design are so clear that the intended audience can easily find what they need, understand what they find, and use that information.

Source: International Plain Language Federation

 How did it all start?

Quintilian was talking about plain language back in Roman times. But the modern plain language movement kicked off in the 1970s, when grassroots consumer rights associations started to ask their governments to improve their documents. In the UK, in 1974, two elderly ladies died of hypothermia after not being able to fill in a form for fuel subsidies: the Plain English Campaign, still going strong, came into being as result of this tragedy. In the USA the New York Tax Law was revised into plain language in 1978 in response to consumer pressure.

Plain language around the world

Today, the UK is a leading example of this trend and the government website gov.uk has won awards for both design and plain language. In the USA, the Plain Writing Act was enacted in 2010 and around the world, both English-speaking and other, there are many instances of plain language legislation and its positive effects for citizens, and how it saves money for both private and public institutions. The two NGOs: Clarity and PLAIN (Plain Language Association International) have many examples of plain language worldwide on their websites. And the Center for Plain Language, a US-based NGO, also has many examples.

The EU is one international organization that has been aware of this problem for some time. In 1998 they published a booklet on clear translations called Fight the Fog, but the situation deteriorated as the EU grew and took on more languages. In 2011 the booklet was updated by plain English expert Martin Cutts, author of the Oxford Guide to Plain English, and was published in 23 of the EU’s languages: How to write clearly. This booklet can be downloaded free here and has lots of tips on how to avoid EU-speak and improve translations. But even so, it is not mandatory in the EU so many of the suggestions go unheeded. For many languages this is still their only plain language resource.

Plain language for translators

We are not talking about plain language in literature, but official government documentation, forms, contracts and legal writing, the sort of things that citizens have to deal with every day on and offline. These kinds of documents are often written in very complex language and when they are translated, things only go from bad to worse.

Who are these kinds of official documents written for?

The people who have to read them are pushed for time and these days, generally reading them on a small screen. We need to think of our readers today, particularly when translating. Getting the message over to the reader without losing their attention is a constant challenge. And plain language is a great tool.

Bear in mind these 8 recommendations for plain language in translation:

  1. Write short sentences – even if this means chopping up an excessively long sentence and rewriting it into 2 or 3 sentences.
  2. Use active voice – the passive voice is useful but is always longer and less direct. It fails to mention the doer, so can be ambiguous.
  3. Avoid nominalizations – like information or application. Use the verb form like inform or apply to make your writing stronger.
  4. Avoid sexist language – in English it is not acceptable to use the male pronoun to refer to both genders and the modern tendency is non-binary, using the gender-neutral pronoun they in the singular.
  5. Use everyday words – and if you must use jargon, explain it.
  6. Avoid the negative – it is not a clear way of thinking.
  7. Use personal pronouns – address your reader directly.
  8. Avoid shall which has an ambiguous meaning that lends itself to confusion. Use must for obligation and the present tense when something is simply a statement.

So, next time you are translating a government form or a financial document, first think of your reader and translate it into plain language!

What an insightful post, Joanna! Thanks a lot for your kind and rich contribution!

About the author
joanna-richardsonJoanna Richardson
 is a British national who has made Buenos Aires, Argentina her home.
With a background in literature and translation, since 2002 Joanna has taught plain English writing skills to Spanish-speaking lawyers at Argentina’s leading law firm, Marval, O’Farrell & Mairal.
More recently she has applied her expertise from the clear communications field to coach professionals in public speaking.
Joanna enjoys creative writing and making chutney in her spare time.
Website: www.plainenglish.com.ar
Contact: plainenglishargentina@gmail.com
Twitter: @jomrichardson

 

 

Guest post: Os benefícios da massagem

O que massagem tem a ver com tradução? Tem tudo a ver!

Há alguns anos, tive dores musculares horríveis que só a massagem resolveu. Foi quando a Denise entrou na minha vida. Desde então, não fico sem massagem pelo menos uma vez por mês. Por isso, resolvi convidá-la para escrever no blog. Espero que gostem.

Seja bem-vinda, Denise! 🙂

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Crédito: rawpixel.comUnsplash

Você conhece a massoterapia?

Bom, com certeza, já deve ter ouvido falar de massagem!

Pois é! A massoterapia vem sendo cada vez mais utilizada e muitos são seus benefícios. Mas a pergunta é: o que é e como surgiu essa técnica?

Desde que a humanidade surgiu, apareceu também a massagem. Isso porque o toque é a forma mais primitiva e intuitiva de cuidar do corpo. Quando sentimos ou batemos qualquer parte do corpo, nossa reação é de friccionar ou segurar o local afetado tentando diminuir a dor.

A origem da palavra “massoterapia” vem do grego antigo, que traduzido significa “amassar”, ou seja, massagem é a manipulação de tecidos moles do corpo com fins terapêuticos. As culturas antigas utilizavam, também, óleos e ervas medicinais durante os métodos de tratamento como forma de promover bem-estar geral e de proteger o corpo de lesões e infecções por meio de fricções. O Do-In, originário da China, é a técnica mais antiga de massagem, tendo sido a precursora de várias outras através do tempo. Como exemplo, podemos citar o Shiatsu, Ayurveda, Tuiná, massagem clássica, Shantala etc. Há registros de desenhos grafados em túmulos, murais e cerâmicas sobre o uso das técnicas de massagem com mais de 5.000 anos na China, Japão, Egito e Pérsia. Entretanto, os chineses foram os primeiros a reconhecer e sistematizar as propriedades curativas da massagem, tendo o livro mais antigo sobre o assunto: o Nei Ching, conhecido como “Livro do Imperador Amarelo”, escrito em 2.800 a.C.

Benefícios/Indicações

A massagem não é apenas para relaxamento. Ela é muito utilizada para alívio de dores musculares e tensionais, mobiliza o sistema linfático e vascular periférico, melhorando a circulação sanguínea, regulando a pressão arterial e eliminando toxinas e resíduos metabólicos, restabelece e mobiliza as articulações ao promover melhora nos movimentos e nutrição destas, promove o bom funcionamento de órgãos e vísceras, reduz o estresse e a ansiedade por meio da liberação da dopamina (neurotransmissor responsável pela sensação de bem-estar), além de proporcionar maior elasticidade da pele.

Não há contraindicações da massagem, sendo indicada inclusive para bebês, crianças, idosos e gestantes.

Dicas

Muitas pessoas têm procurado a massagem como forma de tratar e aliviar dores provocadas por Lesões por Esforço Repetitivo (LER), tendinites, tensões musculares, normalmente ocasionadas por estresse no trabalho, má postura ou sobrecarga de peso. Pessoas que trabalham muito tempo sentadas costumam sofrer muito com isso. Problemas nos punhos e ombros e dores na região lombar são os mais comuns. Por isso, seguem algumas dicas de como aliviar essas tensões temporariamente. Lembrando: sempre procure um profissional para avaliar e tratar o seu caso.

  • Usando uma bolinha (dessas com cravinhos), faça movimentos circulares leves nos braços e nas mãos. Pode-se, também, usar essa mesma bolinha para massagear os ombros, os pés (pise sobre a bolinha e deslize o pé sobre ela), costas (use uma bolinha mais firme e maior, como uma bolinha de tênis, coloque-a na parede e pressione suas costas contra ela, movimentando levemente sobre o local dolorido).

 

  • Alongue-se! A cada 1 ou 2 horas, faça intervalos para um alongamento. Não precisa fazer todos de uma vez, mas escolha uma região e faça um alongamento de pelo menos 15 segundos. Por exemplo, alongar pescoço: segure a cabeça inclinada para um lado, sentindo o alongamento por 15 segundos, e depois troque o lado por mais 15 segundos.

 

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  • Quando for passar algum creme corporal nas pernas, comece pelos tornozelos e vá deslizando para cima. Assim, já estará estimulando a circulação dessa região.

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Apesar de todas essas dicas, não dispense uma massagem profissional. Além de aliviar as tensões e as dores, você se sentirá relaxado, tranquilo e com certeza vai querer voltar para mais algumas sessões. E aí, vai uma massagem hoje?

Sobre a autora
Foto-0020Denise Fertrin R. Franco é fisioterapeuta graduada pela Fundação Hermínio Ometto. Especialista em Osteopatia pelo Colégio Brasileiro de Osteopatia (CBO Piracicaba). Massoterapeuta e Instrutora de Pilates na clínica Espaço Vitali e estúdio Poise Pilates.

Guest post: YNAB para freelancers

Sem bem-vindos de volta a mais uma publicação convidada!

Neste mês, nosso convidado, o tradutor e intérprete Felipe Cichini Simões, fala sobre as vantagens e como usar o aplicativo YNAB (You Need A Budget) para controlar suas finanças.

Bem-vindo, Felipe!

Ou pra quem recebe em dias irregulares

Este artigo pressupõe que você já sabe como o YNAB funciona ou já tem pelo menos alguma intimidade com o método e quer adequar seu funcionamento pro seu estilo de vida de receitas com entrada irregular, seja você freelancer ou algum profissional com fluxo de entradas semelhante. Caso contrário, comece lendo sobre o método aqui.

Se você não recebe um salário regrado todo mês, ter e manter um orçamento é ainda mais valioso pra organizar suas finanças e não fazer lambança com seus pagamentos. A lógica é mais ou menos a mesma, mudando a frequência com que ela é aplicada: você continua seguindo o ciclo de (1) inserir os recebimentos quando eles entram; (2) dar uma função pra cada centavo; (3) gastar de acordo com o que você orçou; (4) reajustar conforme necessário.

A pergunta que você precisa fazer sempre é: “O que essa grana precisa pagar antes de eu receber de novo?” Isso vai te dar a real dimensão das suas prioridades financeiras até que entre a grana do próximo freela. Pra isso, acredito que algumas dicas que eu desenvolvi no meu próprio orçamento possam ser úteis.

Organize suas categorias por prioridade

Sabendo o que você precisa pagar primeiro, fica mais lógico já ir fazendo o orçamento do boleto que chega primeiro. Uma boa maneira de ter essa visão é colocar o dia de vencimento de cada conta entre parênteses depois do nome da categoria e reordenar de acordo:

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Imagem fornecida pelo autor

Observe que a categoria Impostos tem dois vencimentos, mas eu ordeno pela data mais baixa. Assim, você sabe de cara o que vence primeiro e evita atrasar pagamentos. Reordenar os grupos de categorias (na figura acima, Contas) também ajuda a visualizar em primeiro lugar o que tem mais prioridade. É uma maneira de separar o supérfluo do essencial. Digamos que você tenha recebido o suficiente pra custear suas contas e entra o pagamento de um segundo freela nesse mesmo mês. Suas contas já estão cobertas, você segue o barco e orça o restante das suas categorias, repetindo o ciclo 1234 acima sempre que entrar mais dinheiro.

A regra adicional do freelancer, regra 5

Essa regra foi desenvolvida por mim, mas acho que é igualmente essencial se você tem um fluxo irregular de receitas: crie um fundo contra essas irregularidades.

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Imagem fornecida pelo autor

A ideia é que você abasteça essa categoria com sobras de receitas de um mês bom para gastar dinheiro dela num mês abaixo do esperado. No meu caso, ela tem esse nome esquisito, Fundo contra a renda variável, mas que funciona pra eu me lembrar de me proteger contra uma eventual ausência de receita prolongada. E lembre-se de que essas sobras vão se acumulando com o tempo, então qualquer centavo é muito válido na hora de acumular pra uma eventual emergência ou pra viver com mais tranquilidade quando aquele cliente enrolar pra pagar.

Definir uma meta de saldo de categoria é interessante pra saber quanto falta pra chegar lá.

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Imagem fornecida pelo autor

Quem é freelancer sabe que isso acontece sem a gente se programar. Já fiquei três meses sem nenhum trabalho e gastei todas as minhas reservas que tinha poupado no ano anterior (curiosamente, foi logo antes de eu me dedicar a aprender a usar o YNAB). Isso me serviu de exemplo, e hoje eu estimo que preciso de três meses de gastos guardados nesse fundo pra ter tranquilidade plena, mas isso vai variar de acordo com seu contexto e é algo que você vai ter de estimar e decidir por conta própria.

Com a categoria selecionada, no painel à direita do YNAB, você consegue definir uma meta (GOALS, imagem acima) de atingir um saldo específico praquela categoria (primeira opção) sem data específica. Se você sabe que há um período de baixa atividade na sua profissão, use a segunda opção e concentre-se em chegar até aquele saldo até o mês anterior da época das vacas magras.

Pra ser 100% honesto, até hoje eu ainda não cheguei a acumular os três meses, porém, também não cheguei a precisar. O YNAB ajuda tanto na organização, você enxerga seu dinheiro de maneira totalmente diferente, fora que a regra 4 (envelheça seu dinheiro) já seria semelhante a se preparar pra vários meses de gastos com antecedência. Mas eu percebi que esse fundo tem uma função de conforto psicológico importante: eu vejo que estou amparado e fico mais tranquilo!

Envelhecer seu dinheiro significa que o que está sendo gasto hoje foi recebido há 35 dias (nesse caso).

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Imagem fornecida pelo autor

Recapitulando: priorize e economize. Tudo isso pode soar impossível de atingir, mas com o passar do tempo dá pra perceber que você vai conseguir programar seus gastos com cada vez mais antecedência (a regra 4 começa a funcionar praticamente sozinha). E respeitando a regra 2, você não é pego de surpresa e desenvolve gradualmente essa tranquilidade financeira. Não é algo que acontece do dia pra noite, mas que você desenvolve em meses e anos de orçamento, disciplina, planejamento, organização. Aí termina e recomeça. E com organização a gente vai muito mais longe e com muito mais tranquilidade na profissão, conseguindo orientar o foco pra onde ele realmente é necessário.

Sobre o autor
Felipe_foto-perfilFelipe Cichini Simões é intérprete e tradutor profissional com mais de 10 anos de experiência em tradução escrita, localização de aplicativos e interpretação de conferências e eventos ao vivo, sommelier de cerveja e gestor bem-sucedido das finanças pessoais há mais de 4 anos. Site: http://mantrad.com.br