Guest post: Tradução do português para o espanhol

Sejam bem-vindos de volta a mais uma publicação de convidado!

Hoje, recebo a Sonia Rodríguez Mella, do blog Traducir Portugués e tradutora de espanhol e português.

10 erros comuns de tradução do português para o espanhol

Antes de mais nada, muito obrigada por ter me convidado para participar do seu blog. Para mim, é realmente uma honra.

Como você sabe, sou uma apaixonada pela língua “brasileira”.

Na Argentina, trabalho muito como tradutora e revisora dos pares espanhol <> português e gostaria de compartilhar com você e seus seguidores minha experiência, o que eu aprendi como revisora de espanhol.

Ninguém deseja enganar na hora de fazer uma tradução, mas o tradutor é um ser humano, portanto, não é perfeito. Sempre pode haver algum errinho em seu trabalho e, por isso, as traduções devem ser revisadas, sempre.

Os erros que eu vejo com frequência quando reviso traduções do português para o espanhol são de diferentes tipos. Realizei aqui, em decorrência disso, uma pequena seleção:

1) USO DA PREPOSIÇÃO A

O uso de preposições é difícil tanto em espanhol quanto em português. Sempre é bom ter por perto uma boa gramática e ler muitos textos de bons autores para consolidar de forma consistente o conhecimento.

O mundo das preposições, por si só, levaria à escrita de, pelo menos, um artigo, ou inclusive um livro dedicado ao tema. É por isso que aqui vou dar apenas alguns exemplos:

Encontrei Alicia na porta do cinema.
Incorreto: Encontré Alicia en la puerta del shopping.
Correto: Encontré a Alicia en la puerta del shopping.

Vou estudar português.
Incorreto: Voy estudiar portugués.
Correto: Voy a estudiar portugués.

Ela tem um filho doente.
Incorreto: Ella tiene un hijo enfermo.
Correto: Ella tiene a un hijo enfermo. (Doenças são consideradas passageiras.)

Ela tem um filho cego.
Incorreto: Ella tiene a un hijo ciego.
Correto: Ella tiene un hijo ciego. (A cegueira é permanente.)

2) PRONOME RELATIVO E CONJUNÇÃO QUE

Estes são erros que os nativos também cometem.

No primeiro caso, na verdade, o gerúndio não está bem usado e, portanto, a escrita certa exige o uso do pronome relativo que. No segundo caso, trata-se da conjunção que.

Neste caso, o uso do gerúndio não é correto:

Ele devolveu uma carteira contendo todos os documentos.
Incorreto: Él devolvió una billetera conteniendo todos los documentos.
Correto: Él devolvió una billetera que contenía todos los documentos.

Ela tinha certeza de que não passaria na prova.
Incorreto: Ella estaba segura que no aprobaría el examen.
Correto: Ella estaba segura de que no aprobaría el examen.

3) TRADUZIR “MUITO” POR MUCHO (SEMPRE)

Em espanhol, a palavra “muito(a)” pode ser traduzida como muy ou como mucho(a), dependendo da construção da frase.

Muy: antes de adjetivos e advérbios.
Mucho(a): antes de substantivo singular e depois de verbo.

Atenção! Há exceções…

Mucho é usado:

  • antes dos advérbios: antes, después, más e menos.
  • antes dos adjetivos: mejor, peor, menor e mayor.

Exemplos:

Ella es muy linda.
Él llegó muy tarde.
La traductora sabe mucho.
El traductor llegó mucho antes.
Este diccionario es mucho mejor que el anterior.

4) USO INCORRETO DO HÍFEN

Em português, o hífen é muito usado, mas, no espanhol, as regras de uso do hífen são muito diferentes.

América Latina para os latino-americanos.
Incorreto: América Latina para los latino-americanos.
Correto: América Latina para los latinoamericanos.

Conclusão de uma metanálise publicada em janeiro.
Incorreto: Conclusión de un meta-análisis publicado en enero.
Correto: Conclusión de un metaanálisis/metanálisis publicado en enero.

Nesse último caso, por exemplo, trata-se de uma palavra que o DRAE não registra. Porém, o dicionário de Fernando Navarro inclui apenas “metanálise”, mas a Fundéu aceita as duas formas.

5) ACENTUAÇÃO DE MONOSSÍLABOS

Em português, os monossílabos tônicos são sempre acentuados, mas, no espanhol, de modo   geral, os tônicos e os átonos não são acentuados, exceto nos casos de acento diferencial:

Termo Classificação Termo Classificação
De Preposição (de) Verbo (dê)
El Artigo (o) Él Pronome (ele)
Mas Conjunção (mas) Más Advérbio, adjetivo ou pronome; conjunção (mais)
Mi Adjetivo possessivo (meu) Pronome pessoal (mim)
Se Pronome (se) Verbo (sei)
Si Conjunção (se) Advérbio (sim)
Te Pronome (te, lhe) Substantivo (chá)
Tu Possessivo (teu, seu) Pronome pessoal (tu)

Também são acentuados os monossílabos posicionados entre sinais de interrogação e admiração.

Exemplos:

¿Qué hora es?
¿Cuál quiere?
¿Cuán grande era?
¿Quién era?

6) USO DO SINAL DE PORCENTAGEM

Em português, o sinal de porcentagem vem depois do número, sem espaço. Em espanhol, entre o número e o sinal de porcentagem deve ter um espaço: 20 %. Só não tem espaço se for o caso do espanhol dos EUA.

7) ABUSO DA VOZ PASSIVA

Em português, usa-se muito a voz passiva, mas, em espanhol, ela deve ser evitada.

Nessa loja, são vendidos os bolos mais gostosos de SP.
Incorreto: En esa tienda son vendidas las tortas más ricas de São Paulo.
Correto: En esa tienda se venden las tortas más ricas de São Paulo.

8) FORMATO DAS HORAS

Em espanhol, as horas são escritas de diferente forma, dependendo do local.

Espanhol da América Latina (LA), da Espanha, internacional (XL) e da Argentina:

10:00 h – 22:00 h

Espanhol do México (MX) e dos EUA:

10 a. m. – 10 p. m. (com espaço)

9) FORMATO DOS NÚMEROS

Em espanhol, os números são escritos de diferente forma, dependendo do local.

Espanhol da América Latina (LA), da Espanha, internacional (XL) e da Argentina:

  • Quatro dígitos: sem vírgula, por exemplo, 1000
  • Mais de quatro dígitos: com espaço, por exemplo, 10 000
  • Uso de decimais: com vírgula, por exemplo, 0,75

Espanhol do México (MX) e dos EUA:

  • Quatro dígitos: sem vírgula, por exemplo, 1,000
  • Mais de quatro dígitos: com espaço, por exemplo, 10,000
  • Uso de decimais: com vírgula, por exemplo, 0.75

10) ARTIGO ANTES DE NOMES DE EMPRESAS

Em português, é habitual o uso do artigo antes do nome de uma empresa. Isso não ocorre em espanhol.

A Odebrecht foi responsável pela construção do edifício.
Incorreto: La Odebrecht fue responsable de la construcción del edificio.
Correto: Odebrecht fue responsable de la construcción del edificio.

Tudo tem um limite; por isso, registrei apenas dez tipos de erros, mas a lista é muito maior.

Espero que você tenha gostado e que seja útil para os tradutores que seguem você nas redes.

Mais uma vez, muito obrigada por ter me dado esta oportunidade.

Sobre a autora
foto soniaSonia Rodríguez Mella é contadora, tradutora de português e autora do Diccionario ACME Español-Portugués/Portugués-Español, publicado pela Editorial Acme Agency, da Argentina, e supervisionado pela Editora Nova Fronteira, do Brasil. Trabalha de forma autônoma desde 1993. Antes dividia seu tempo entre as duas profissões, mas, em 2005, decidiu dedicar todos os seus esforços à área de tradução. Em 2010, criou o blog www.traducirportugues.com.ar e mantém uma página no Facebook, Traducciones de Portugués, que está atingindo os 9.000 seguidores. No blog e nas redes, ela transmite regularmente suas experiências relacionadas com os idiomas espanhol e português. Em 2017 e 2018, participou do Congresso Internacional da Abrates, associação da qual é membro.

Guest post: Trabalho com agências

Sejam bem-vindos de volta à nossa série de convidados!

Hoje recebemos a Gisley Rabello Ferreira, fundadora da Wordlink Traduções e membro do Comitê de Administração do Programa de Mentoria da Abrates.

Bem-vinda, Gisley!

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Source: Unsplash

Nossos clientes: como anda o relacionamento entre LSPs e agências globais de tradução

Uma das principais dúvidas do tradutor profissional é: devo trabalhar para clientes diretos ou agências de tradução? Sem dúvida, trabalhar para clientes diretos é mais lucrativo, mas muitas vezes pode significar ter que realizar mais tarefas fora do escopo da tradução propriamente dita: orçamento, preparação de arquivos, DTP (diagramação e formatação), revisão final, entre outras. As agências pagam menos, mas, realiza todas as tarefas colaterais do projeto, e o tradutor pode se concentrar em seu maior talento: traduzir. Nas duas situações, há prós e contras, e cabe a cada profissional priorizar o tipo de cliente a que se adapta melhor. Assim, é preciso entender quem são nossos clientes, o papel deles na cadeia de fornecimento do mercado e onde nós, fornecedores linguísticos, nos colocamos nessa cadeia.

Trocando em miúdos, no mercado de tradução, há dois principais tipos de clientes: os clientes diretos e as agências de tradução. Os clientes diretos são pessoas físicas ou empresas que contratam profissionais independentes ou empresas e agências de tradução para projetos de tradução. As agências de tradução podem ser empresas globais, que atuam com inúmeros idiomas e têm escritórios em vários países, ou pequenas empresas de tradução, que trabalham com um número limitado de idiomas e prestam serviços tanto para clientes diretos quanto para agências globais. Mas, como assim? Agências que trabalham com agências? Complicado? Nem tanto. As agências pequenas, além de serem clientes dos tradutores independentes, são também fornecedores linguísticos para clientes diretos e agências globais, o que as coloca nas duas posições do mercado: contratante (agência) e contratado (LSP, language services provider).

As pequenas empresas/agências de tradução são estruturadas de modo a atender muito bem tanto a clientes diretos quanto a agências de tradução globais. Aos clientes diretos, elas dão todo o suporte necessário em projetos de tradução completos (desde o orçamento detalhado até o produto finalizado, seja ele um website, um vídeo legendado ou um simples documento), já que têm uma carteira de colaboradores diversificada, contando com colaboradores de tradução, revisão, editoração, legendagem, entre outros. Para agências de tradução globais, essas empresas fornecem o que chamamos de TEP (translation, editing, proofreading), que nada mais é do que a tradução revisada e verificada em seu formato final: três etapas do processo garantidas por um único fornecedor, além de uma infraestrutura de gerenciamento de projetos e qualidade personalizada.

Qual é a vantagem para as agências globais em se relacionarem com pequenas empresas fornecedoras de tradução? Apesar de as agências globais contarem com muitos profissionais independentes de tradução e revisão para seus fluxos de trabalho em projetos de tradução, contratando-os como tradutores, revisores, especialistas em controle de qualidade, líderes de projeto e muitas outras funções, elas contam também com as pequenas agências de traduções baseadas nos países onde se fala a língua-alvo contratada. O papel dessas pequenas empresas como LSPs é, além de fornecer TEP, dar apoio de infraestrutura e fluxo de trabalho, principalmente em projetos de contas grandiosas, para os quais é difícil conseguir tantos recursos com o perfil específico da conta e gerenciar um controle de qualidade eficiente. As pequenas agências de tradução então atuam como parceiras das agências globais, auxiliando na formação e no treinamento de equipes de tradução e revisão, controlando a qualidade com um profissional fixo para aplicar LQAs, gerenciar glossários, tirar dúvidas da equipe, servir de intermediário entre cliente e tradutores etc. e contando com uma equipe de gerentes de projetos dedicados especialmente aos trabalhos dessas contas.

Mas, para as pequenas agências, é vantagem ter esses clientes? Se a agência global pagar o preço justo para essa parceria tão importante e complexa, vale. Como sabemos, no Brasil temos uma carga tributária muito grande para pessoas jurídicas. Isso é um fator que não chega a impedir, mas que torna bem complexa a contratação de funcionários para desempenhar algumas funções que requerem um comprometimento maior com o trabalho. Trabalhar com profissionais independentes (ou freelancers, como muitos gostam de chamar) para essas funções é uma saída, mas, como esses profissionais têm inúmeros clientes, fica complicado exigir um compromisso de quase exclusividade. Ainda assim, é vantagem trabalhar com agências globais, não só pela receita, mas também pela oportunidade de aprender cada vez mais sobre as mais novas ferramentas e tendências do mercado. Dependendo da parceria que as empresas de tradução têm com as agências globais, seus funcionários e colaboradores recebem treinamento, lidam com os seus clientes diretos em algumas tarefas e até viajam para outros países para testar produtos e realizar projetos específicos. Por outro lado, pode ser difícil para a pequena empresa lidar com os volumes desse tipo de cliente, pois manter uma carteira de colaboradores disponíveis é um desafio. E, em geral, as agências globais especificam volumes mínimos semanais em contrato, então, é preciso se preparar bem para cumprir o combinado, aliando prazo e qualidade.

Para o tradutor independente, ter uma pequena agência de tradução como cliente é trabalhar com profissionais que, acima de tudo, entendem perfeitamente o papel dos tradutores e as dificuldades que eles têm em projetos específicos. É a chance de trabalhar com quem também já passou e passa por essas dificuldades e provavelmente já tem soluções para algumas delas. E, se não tem, certamente vai se esforçar para buscá-las, pois o seu objetivo é o mesmo que o do tradutor: manter o cliente feliz.

No frigir dos ovos, a verdade é só uma: estamos todos no mesmo barco. Assim, precisamos todos – tradutores, revisores, agências – deixar os preconceitos de lado e tentar manter uma relação saudável, sempre com muito diálogo sobre o papel de cada parte nesse relacionamento e sobre tarifas, o verdadeiro tabu entre nós. Tenhamos em mente que nossos objetivos são iguais, portanto, se tivermos uma boa convivência, todos lucramos, tanto em receita quanto em conhecimentos. Para chegar a esse ponto, é preciso refletir bastante sobre o que cada parte representa no mercado e procurar enxergar e, principalmente, praticar parcerias nessas relações, em vez de concorrências.

Sobre a autora
GisleyGisley Rabello Ferreira
 é tradutora, revisora, transcreator e especialista em controle de qualidade nos pares inglês > português brasileiro e espanhol > português brasileiro, principalmente para as seguintes áreas: TI, técnica, comercial, e-learning, localização, saúde e beleza, marketing. É falante nativa de português brasileiro e tem vasta experiência com a língua inglesa e espanhola. É bacharel e licenciada em inglês e literaturas americana e inglesa (UERJ), com pós-graduação em tradução nos idiomas inglês e português (PUC-RJ), e bacharel em espanhol e português e suas respectivas literaturas (UERJ). Atuou de 1990 a 2000 no mercado como tradutora interna em multinacionais americanas do setor de TI e como freelancer em projetos de setores variados para várias agências nacionais. Em abril de 2001, fundou a Wordlink Traduções e ampliou sua área de atuação, passando a oferecer pacotes completos de soluções linguísticas, utilizando as ferramentas e os aplicativos mais modernos do mercado, para clientes nacionais e internacionais. Hoje, também atua como gerente de projetos sênior, além de supervisionar toda a equipe da empresa.