Guest post: Literary translation (in Portuguese)

Better late than never, right? After a busy day with four deadlines, it’s time to welcome today’s guest, Reginaldo Francisco, who will talk about literary translation.

Welcome, Reginaldo!

Child Studying Under Tree. Courtesy of FreeDigitalPhotos.net, by jannoon028.

Traduzindo literatura

Decidi ser tradutor quando tinha dezessete anos.

Na época, analisando o guia de profissões da UNESP, logo concluí que o curso de Tradução da UNESP de São José do Rio Preto, oficialmente chamado de Bacharelado em Letras com Habilitação de Tradutor, tinha sido feito para mim, ou eu para ele. A imagem e o texto sobre o curso na época não eram esses do link acima, mas acho que minha identificação não seria diferente com a apresentação atual. Apaixonado por leitura e escrita desde criança, curioso por quase tudo, especialmente por línguas estrangeiras, tendo aprendido inglês sozinho desde os treze/quatorze anos, vi que tinha encontrado exatamente o que gostaria de passar minha vida fazendo.

Para encurtar a história, que seria suficiente para outro post — ou para um blogue próprio —, estudei muito, passei no vestibular, mudei da cidadezinha de Cabrália Paulista, na região de Bauru, para São José do Rio Preto, e formei-me tradutor nos idiomas inglês e italiano. Ao longo da graduação e nos primeiros anos que se seguiram, tendo de me sustentar e “pagar as contas”, fui bolsista, professor, garçom, secretário, mas nunca abandonei a meta de ser tradutor.

Aos poucos fui conseguindo os primeiros trabalhos, divulgando meus serviços, melhorando meus preços (e nesse ínterim também fiz o mestrado em Estudos da Tradução na Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC). Os primeiros trabalhos, e a parte principal da minha atividade ainda hoje, foram de tradução técnica, vertente da profissão pela qual também me apaixonei, mas nunca deixei de tentar entrar no ramo mais restrito da tradução literária.

A primeira tradução de literatura veio em 2008, por indicação de um amigo e colega de sala da época da graduação que não pôde aceitar o serviço por estar comprometido com as próprias atividades como professor de idiomas. Tratava-se da tradução para o italiano de três pequenos volumes de poesia do poeta paulista Aguinaldo de Bastos, com direito a citações de trechos do poema “Navio negreiro”, do Castro Alves, que também tive de verter. Trechos, aliás, bem longos: juntando-os ao final, vi que tinha traduzido 60 % do poema. Um grande desafio, bastante incomum, que teve um resultado satisfatório especialmente pela colaboração com a revisora, Silvia Marianecci, tradutora italiana nativa. Porém, acabou sendo um trabalho isolado em minha carreira, sem grandes desdobramentos posteriores além da amizade com a Silvia, que depois se mudou para o Brasil e hoje mora em Belo Horizonte, e com o Marcos Petti, que intermediou o trabalho e foi o responsável pela tradução das partes em prosa dos livros.

Voltei a traduzir literatura em 2011, depois que a diretora executiva da Editora Autêntica esteve na UFSC para ministrar uma palestra e manifestou interesse por propostas de projetos de tradução, especialmente de obras em domínio público. Como tinha vontade de traduzir literatura infantojuvenil, fui pesquisar os clássicos infantojuvenis italianos e escrevi para a editora propondo algumas ideias. Assim consegui emplacar a tradução do Diário de Gian Burrasca, que foi publicada em 2012 e acabou selecionada no Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE) do MEC — pelo que soube por uma amiga, os exemplares chegaram às escolas no final do ano passado.

Na sequência, traduzi duas HQs do personagem Corto Maltese, de Hugo Pratt, para a Editora Nemo, também do Grupo Autêntica, e em 2013 aceitei o desafio de traduzir do francês A guerra dos botões, de Louis Pergaud, que deve sair este ano.

Quando a Carol me chamou para escrever um artigo sobre tradução literária para o blogue dela, fiquei muito feliz e honrado com o convite, mas também preocupado por não saber se teria muita coisa interessante para escrever sobre o assunto. Acabei decidindo compartilhar minha história, que procurei sintetizar ao máximo para não ficar maçante, e um pouco do meu processo de tradução, que apresento a seguir. Não é nenhuma receita de como traduzir e não sei se funcionaria para qualquer pessoa, mas para mim dá bastante certo.

Costumo traduzir, especialmente textos literários, em quatro etapas. A primeira é uma leitura da obra, o que não quer dizer que eu leia a obra toda primeiro, apenas que começo por essa leitura. Normalmente, antes de terminá-la, quando ainda faltam alguns capítulos para ler, inicio a segunda etapa, na qual faço uma tradução-rascunho, com bem pouca pesquisa e quase sem consultar dicionários, internet, etc. A sobreposição me possibilita distribuir o trabalho de acordo com o meu “pique” em cada horário do dia, trabalhando nesta segunda etapa durante o dia e apenas lendo os capítulos que faltam à noite ou quando estou cansado, por exemplo.

Essa tradução-rascunho serve principalmente para fazer um reconhecimento das dificuldades do trabalho. O resultado é um texto cheio de asteriscos marcando dúvidas e pontos que precisarão de mais pesquisa ou reflexão, e barras separando possibilidades de solução.

Essa estratégia traz bons resultados por dois motivos. Primeiro, porque o próprio texto pode ter, mais adiante, soluções ou dicas para chegar a soluções para as pendências; muitas vezes na etapa seguinte a melhor escolha entre duas ou mais opções iniciais fica clara pela relação com dificuldades e necessidades verificadas em outros pontos do texto. O segundo motivo é que nosso cérebro trabalha mesmo sem percebermos. Sabe quando ficamos tentando lembrar o nome de algo e não conseguimos de forma alguma, para depois a lembrança vir quando nem estamos mais pensando no assunto? Pois é, nosso cérebro deve ficar vasculhando os próprios arquivos e testando sinapses até encontrar a resposta. Daí a tradução para aquele trocadilho do original, ou para aquele versinho que não estava rimando na música que o personagem cantarolou, vir de repente no banho (já me ocorreu), ou na cama, no ônibus, na rua…

A etapa seguinte é a tradução propriamente dita, com toda a pesquisa e as tomadas de decisão necessárias. Aqui não pode sobrar mais nenhum asterisco de dúvida, e para todo problema é preciso dar uma solução — e só uma. É a etapa mais difícil e mais densa, mas é bastante facilitada pela anterior e traz a satisfação de ver seu texto definitivo se delineando, o livro começando a se tornar uma obra em português. Costumo começá-la quando concluí por volta de 70 % da etapa anterior, de modo que há uma nova sobreposição, que me permite fazer este trabalho mais denso quando estou com a cabeça mais fresca, normalmente de manhã, e voltar para a tradução-rascunho à tarde ou quando já estou cansado.

Além de deixar meu expediente menos cansativo, gosto dessa sobreposição também por outras razões. Por exemplo, o fato de assim trabalhar simultaneamente em dois pontos distintos do livro contribui para tratá-lo como uma unidade de sentido, evitando incoerências e ajudando a pensar em soluções tradutórias que funcionem bem para o texto como um todo. Além disso, conforme vou resolvendo impasses das primeiras partes, os rascunhos das partes finais vão ficando com menos asteriscos e barras, mais próximos da tradução definitiva, o que leva a uma aceleração das duas etapas na reta final.

Normalmente sem sobreposições é a etapa final, que consiste na leitura do texto em português, tentando vê-lo como a obra independente que será para o leitor final, que o lerá sem ter lido antes o original — daí procurar evitar a sobreposição com a etapa anterior, mais ligada ao texto estrangeiro. Aqui são aparadas as últimas arestas para chegar à tradução “final” enviada à editora.

O “final” entre aspas é porque o processo de produção do livro ainda terá várias outras etapas. O texto passará por revisores, preparadores, diagramadores (e voltará, espera-se, para eu aprovar as alterações feitas), e seguirá seu curso até a publicação, que pode ocorrer vários meses após a entrega da tradução, obrigando-me à hercúlea tarefa de controlar meus níveis de ansiedade.

I love learning about other translators’ experiences! Is it just me, or do you also like it? I think we can always learn something from them. And, of course, it didn’t surprise me that I enjoyed reading yours, Reginaldo! Such a beautifully written text. Thanks a lot for accepting my invite and for taking your (precious and busy) time to compose something this great. 🙂

Anyone?

About the author
Sou tradutor técnico e literário, com seis traduções publicadas e uma no forno. Sou bacharel em Letras com Habilitação de Tradutor pela Universidade Estadual Paulista (UNESP) e mestre em Estudos da Tradução pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC). Eventualmente, ministro cursos e palestras sobre tradução e participo de congressos na área. Também sou autor, junto com a Profa. Dra. Claudia Zavaglia, do livro Parece mas não é: as armadilhas da tradução do italiano para o português.

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8 thoughts on “Guest post: Literary translation (in Portuguese)

  1. É muito bacana ver que nossos colegas de faculdade seguiram um caminho tão rico! Adorei o texto, Chico! Tenho certeza que ainda virão muitas traduções literárias por ai!

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  2. Ótimas reflexões! Adorei as dicas, mesmo que não explícitas, e acredito, como você, Chico, que o texto final é composto de várias etapas, sobrespostas ou não, cujo esforço do tradutor foi apenas um: tentar buscar/fazer o melhor para aquela frase, aquele parágrafo, aquele livro. Meu orgulho, sempre: parabéns, mais uma vez!

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  3. Oi, Chico!
    Gostei muito do post e me identifiquei com as etapas! Não faço tantas traduções, mas quando faço (e atualmente estou traduzindo um fumetti) uso exatamente as mesmas etapas, e os asteriscos, e as barras. Acho que facilita e deixa o trabalho mais leve e divertido.
    Um abraço!

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  4. Oi, Tati! Que legal você ter etapas semelhantes. A ideia dos asteriscos lembro de ter aprendido com o prof. Alvaro Hattnher na disciplina de Prática I na faculdade. 🙂 Você também estudou no Ibilce?

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